Um movimento de rotação de investidores estrangeiros, que saíram de ações de crescimento, como “techs” americanas, para papéis considerados de valor, como Vale e PetrobrasCotação de Petrobras, ajudou a turbinar os ganhos do Ibovespa na sessão de ontem. Novas pesquisas eleitorais também tiveram reflexo positivo sobre o índice.
Depois de três sessões seguidas no campo negativo, a principal referência acionária local subiu 1,96% e marcou nova máxima de fechamento, aos 165.146 pontos, o que também foi recorde intradiário. Com isso, o Ibovespa voltou a superar patamares históricos até então vistos um dia antes do anúncio da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), em 4 de dezembro do ano passado.
A melhora da bolsa, porém, não foi acompanhada por outros ativos, como o dólar à vista e os juros futuros, que encerraram em alta.
O forte impulso para os ganhos do Ibovespa veio da alta das ações da Vale e da PetrobrasCotação de Petrobras. Os papéis ON da mineradora subiram 4,74%; já as ON da petroleira avançaram 3,63%, enquanto as preferenciais tiveram alta de 2,73%, o que pode indicar que houve compra do papel por parte de investidores estrangeiros.
Para o gestor de multimercado e renda fixa do Fator, Ricardo Farias, o avanço expressivo da bolsa ontem foi impulsionado por fluxo de investidores estrangeiros. “Se você olhar o gráfico intradiário, quando bate 11h30 [quando as bolsas americanas abrem], o papel da PetrobrasCotação de Petrobras começa a puxar. Em seguida, isso ocorre com Vale e Itaú.”
Desconsiderando a alta das ações de Vale, PetrobrasCotação de Petrobras e Itaú Unibanco, dados do Valor Data mostram que o Ibovespa teria subido 1,37% na sessão de ontem, o que mostra o peso do avanço das três companhias na disparada do índice no pregão.
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Além do fluxo estrangeiro mais favorável, alguns participantes de mercado citaram que a bolsa pode ter sido favorecida pela divulgação de uma pesquisa da Genial/Quaest, que mostrou uma distância menor entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e potenciais adversários da direita.
O sócio e gestor de ações da Nest Asset Management, Luís Castro da Fonseca, avalia que a pesquisa da Genial/Quaest ajudou a reforçar os ganhos da bolsa, embora a diferença entre Tarcísio e Flávio seja muito pequena para fazer com que o senador saia da disputa. Nesse cenário, ele avalia que o senador do PL deve seguir até o fim, mesmo que mantenha alto nível de rejeição. “Obviamente, é muito mais fácil um candidato de centro conquistar mais votos do que um de extrema-direita, mas a direita não pode arriscar dividir os votos.”
Em um ambiente de alta volatilidade à frente, ele traça um paralelo com a eleição de 2014, na qual Dilma Rousseff e Aécio Neves disputaram o Planalto, e o resultado na bolsa brasileira foi de alta volatilidade.
“Primeiro, a bolsa caiu 15% e depois subiu 20%. No fim, encerrou o ano com queda de 3%, praticamente zerada, em um ambiente de muita volatilidade. Acho que este ano deve ser parecido”, observa o gestor da Nest.
Embora a pesquisa eleitoral da Genial/Quaest possa ter animado uma parcela do mercado, Farias, do Fator, avalia que o efeito do levantamento nos preços dos ativos foi momentâneo, porque não trouxe grandes novidades. “Teve um certo movimento, mas não tão forte. O mercado continuou na oscilação do dia. A pesquisa mostrou que o Tarcísio [de Freitas, governador de SP] e o Flávio [Bolsonaro] melhoraram, mas que o Lula [presidente] ainda está em empate técnico. Foi um pouco de ‘no news’.”
Apesar de o Ibovespa ter registrado alta firme, um movimento mais positivo não foi visto no câmbio. Participantes do mercado têm mantido um tom de cautela com o cenário político e com as incertezas globais (em especial na relação Estados Unidos e Irã), o que pode ter se refletido na dinâmica da moeda local.
Nesse sentido, é possível que a maior exposição à bolsa tenha sido acompanhada de alguma demanda por “hedge” (proteção) feita via compra de dólar frente ao real, em uma tentativa de investidores estrangeiros de não ter exposição dupla a ativos brasileiros. E, diante de um mercado líquido, como o do Brasil, agentes podem ter optado por esse “trade” na sessão.
Outra leitura é a de que, com possíveis tensões geopolíticas no radar, em especial entre Estados Unidos e Irã, os investidores podem ter feito hedge em dólar onde é mais fácil de montar e desmontar posições nos mercados emergentes, como o brasileiro.
No fim dos negócios no mercado à vista, o dólar subiu 0,49%, cotado a R$ 5,4016. Durante a sessão, o câmbio chegou a ser fortemente afetado pela primeira leitura dos agentes financeiros em torno da notícia da suspensão de vistos americanos para alguns países, entre eles o Brasil, o que elevou a percepção de risco. Porém, quando foi esclarecido de que seriam 75 países afetados, investidores recalibraram o risco local, conforme aponta o chefe de câmbio da tesouraria de um banco, em condição de anonimato.
“Foi difícil de entender a formação de preços, em especial porque houve esse ruído sobre o visto americano, que pode ter criado um ambiente desnecessário de cautela”, diz o profissional. “Também há muita incerteza local e global presente nas notícias. Mas não acho que esse seja um movimento duradouro, de real fraco por muito tempo”, acrescenta. “Se o movimento for realmente baseado em ‘hedge’ de cautela, a dinâmica pode se desfazer rapidamente nos próximos dias e, em vez de o real se destacar como a pior moeda entre as 33 mais líquidas, pode se destacar por ser a melhor, como já ocorreu anteriormente, em outros momentos de percepção antecipada de risco global.”
A alta do dólar acabou contaminando também os juros futuros, especialmente os mais curtos. Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento de janeiro de 2027 teve alta de 13,965%, do ajuste anterior, para 13,74%.
Para um integrante da tesouraria de um banco local, o desempenho ruim das taxas ontem “foi difícil de explicar” e, ao olhar de forma mais abrangente, parece ter sido motivado por uma correção do mercado após duas sessões positivas, e não por uma nova tendência em formação.
Fonte: Valor Econômico


