O Brasil recebeu US$ 11,9 bilhões de fundos internacionais de ações em 2026 até julho de acordo com levantamento da EPFR. O valor supera os US$ 7,7 bilhões registrados durante todo o ano passado. Mesmo assim, o país ficou distante dos mercados emergentes que se tornaram protagonistas da corrida global pela inteligência artificial. Coreia do Sul e Taiwan atraíram US$ 70,6 bilhões e US$ 56,5 bilhões, respectivamente, em igual intervalo, impulsionados pela presença de fabricantes de semicondutores e outros componentes essenciais para a expansão de centros de dados.
Esses dois mercados asiáticos também receberam muito mais recursos do que a Índia, que nos últimos anos se consolidou como um dos principais destinos do capital estrangeiro entre os emergentes. O país atraiu, no mesmo intervalo, US$ 22,7 bilhões. Na direção oposta, a China registrou saída líquida dos fundos acompanhados, com o pano de fundo geopolítico.
Os números fazem parte de levantamento da EPFR, plataforma que monitora aplicações e resgates em fundos globais, feito a pedido do Valor com os mercados que integram o índice MSCI Emerging Markets.
Em termos proporcionais, o fluxo destinado ao Brasil correspondeu a 4,64% dos ativos mantidos pelos fundos acompanhados, ante 4% em todo o ano passado. Na Coreia do Sul, o percentual chegou a 11,18%, mais que o dobro dos 5,5% de 2025. Em Taiwan, atingiu 6,69%, ante 5,49%.
Cameron Brandt, diretor de pesquisa da EPFR, afirma que o indicador proporcional permite comparar melhor a intensidade da demanda por mercados de tamanhos muito diferentes. Os valores em dólares mostram os fluxos absolutos, enquanto o percentual sobre os ativos sob gestão revela quanto os investidores aumentaram ou reduziram a exposição em relação às posições que já possuíam.
A diferença entre os países também reflete o lugar que cada um ocupa na cadeia de inteligência artificial (IA). Enquanto Coreia do Sul e Taiwan concentram algumas das maiores fabricantes mundiais de chips e memórias, a bolsa brasileira continua dominada por bancos, companhias de petróleo, mineradoras, empresas de energia e negócios voltados à economia doméstica.
A expectativa de queda dos juros nos Estados Unidos favoreceu, no início do ano, a migração de recursos do mercado americano para os emergentes. Esse movimento perdeu força com o conflito envolvendo o Irã, que alterou as perspectivas para inflação e juros globais, e com a busca crescente por ações ligadas à inteligência artificial.
“Para mim, a raiz dessa discussão é a perspectiva para os juros, especialmente lá fora”, afirma Glenn Mallett, responsável pela área de renda variável da XP.
Brasil e Coreia do Sul se beneficiaram da procura por emergentes no começo do ano, mas passaram a seguir caminhos diferentes a partir de maio. O mercado brasileiro perdeu fôlego à medida que os investidores mudaram suas expectativas para os juros e aumentaram a exposição à inteligência artificial. Coreia e Taiwan, por sua vez, foram favorecidas pela presença de fornecedores globais de chips e memórias.
“Quando o fluxo para emergentes estava forte, Brasil e Coreia cresciam. Depois, a questão do Irã secou parte desse fluxo. Ao mesmo tempo, os números de inteligência artificial surpreenderam e houve uma troca de posições dentro dos próprios emergentes”, diz Mallett.
No Brasil, a mudança também provocou uma rotação das carteiras em direção a empresas de petróleo e gás, beneficiadas pela alta da commodity, sob o contexto do conflito no Irã. O movimento, porém, não foi suficiente para manter o ritmo de entrada observado no começo do ano.
Por aqui, o petróleo ajudou o país a continuar atraindo recursos. Brandt afirma que o Brasil foi favorecido por combinar elevada capacidade de produção com uma posição geográfica distante das regiões diretamente afetadas pelos conflitos no Oriente Médio. “O Brasil se beneficiou neste ano por ser um grande produtor de petróleo distante do Oriente Médio”, afirma Brandt.
Mais recentemente, porém, o sentimento em relação ao país esfriou. Segundo Brandt, as taxas de juros elevadas, a ausência de uma narrativa forte ligada à inteligência artificial e a proximidade da eleição presidencial têm levado investidores e gestores de fundos a adotar uma postura mais cautelosa.
Para Mallett, a competição por recursos entre os mercados emergentes ficou mais evidente quando os investidores passaram a priorizar empresas diretamente expostas à infraestrutura de IA.
“O grande elemento é a expectativa para os juros lá fora. É isso que vai ditar a retomada do fluxo internacional para o Brasil”, afirma.
A forte valorização das ações asiáticas, no entanto, passou por uma correção intensa mais recentemente. Depois de uma disparada puxada pela demanda por inteligência artificial, o Kospi, principal índice da bolsa sul-coreana, recuou 22,2% em julho, sua maior queda mensal desde a crise financeira global. Entre a máxima intradiária atingida em junho e a mínima do mês seguinte, a perda chegou a aproximadamente 44%.
Mesmo depois da correção, o índice acumulava valorização de cerca de 56% no ano até 5 de agosto, bem acima do Nasdaq, que caiu 3,2% em julho e avançava aproximadamente 9% em 2026.
“Na parte de semicondutores e da manufatura desses dispositivos, sejam servidores, chips, memórias ou conectores, existe uma concentração muito grande de companhias na Ásia, principalmente em Taiwan e na Coreia do Sul. O Japão também é relevante, mas não integra o universo de mercados emergentes”, afirma Thiago Kapulskis, sócio gestor do Global Technology Fund da São Pedro Capital.
Segundo ele, essas companhias formam a primeira camada de beneficiárias dos investimentos realizados pelas grandes empresas americanas de tecnologia. A expansão da capacidade computacional exige não apenas processadores avançados, mas também memórias, servidores, conectores e outros componentes.
Na Coreia do Sul, Samsung Electronics e SK Hynix lideraram o movimento. As duas companhias chegaram a responder juntas por mais da metade do valor de mercado do Kospi e ocupam posições centrais na produção de memórias de alta largura de banda, as chamadas HBM, usadas em aceleradores e servidores de inteligência artificial.
Em Taiwan, a principal referência é a TSMC, maior fabricante terceirizada de semicondutores do mundo e responsável pela produção de alguns dos chips mais avançados desenvolvidos por companhias globais de tecnologia. O mercado também reúne grupos como MediaTek e Hon Hai, conhecida como Foxconn.
O peso de Samsung e SK Hynix ampliou a volatilidade do mercado sul-coreano durante a correção. A queda das ações foi agravada pela popularização de ETFs, fundos negociados em bolsa, alavancados e ligados individualmente às fabricantes de chips. O rebalanceamento diário desses produtos e as chamadas de margem enfrentadas por investidores aceleraram as vendas.
Em julho, a Comissão de Serviços Financeiros da Coreia do Sul suspendeu temporariamente novas listagens de ETFs alavancados de ações individuais e aumentou de 10 milhões para 30 milhões de wons o depósito mínimo exigido para negociar esses produtos.
“Vivemos seis meses de ‘FOMO’ (iniciais em inglês de ‘medo de ficar de fora’), que poucas vezes vi na minha carreira”, afirma Kapulskis, da São Pedro.
Parte das dúvidas passou a se concentrar no segmento de memórias, uma das áreas que mais haviam se valorizado. Muitas dessas empresas têm comportamento cíclico e atuam em produtos com menor diferenciação, o que torna preços e margens mais sensíveis à expansão da capacidade de produção.
A primeira onda de valorização ligada à IA, segundo Kapulskis, esteve concentrada em empresas como Nvidia e Broadcom, que ocupam posições mais diferenciadas na infraestrutura tecnológica. Nos últimos meses, os ganhos se espalharam para fabricantes de memória.
“Olhando para a frente, a expectativa é que o ciclo de investimento continue. A questão agora é a distância entre a expectativa e a realidade e onde ainda estão as oportunidades”, diz. “Onde se ganhou mais dinheiro recentemente foi nos setores de semicondutores mais comoditizados e também mais especulativos.”
As dúvidas sobre a oferta futura de memórias aumentaram com a chegada da chinesa CXMT Corp., antiga ChangXin Memory Technologies, ao mercado de capitais. A maior fabricante chinesa de memórias DRAM levantou 57,92 bilhões de yuans, cerca de US$ 8,6 bilhões, em uma oferta inicial de ações realizada em julho na Star Market, segmento da Bolsa de Xangai voltado a empresas de tecnologia.
A operação foi a maior oferta de uma fabricante de semicondutores já realizada no mercado acionário da China continental. A CXMT pretende usar os recursos para modernizar e ampliar sua produção. A empresa ainda está atrás de Samsung, SK Hynix e Micron em algumas tecnologias avançadas, mas sua expansão aumentou o temor de crescimento da oferta nos segmentos mais padronizados.
Para Kapulskis, a expansão chinesa não encerra o ciclo favorável às fabricantes asiáticas, mas reduz o grau de excepcionalidade observado nos últimos meses. “Passamos de um período perfeito para um período muito bom”, afirma.
O Brasil está fora da manufatura de semicondutores, mas pode participar do ciclo de inteligência artificial por outras vias. Uma delas seria o fornecimento de energia para centros de dados. Em uma etapa posterior, a difusão da tecnologia também poderia beneficiar empresas locais capazes de incorporá-la a seus negócios.
“O Brasil está na ponta oposta porque não participa da manufatura de semicondutores, mas poderia se beneficiar pela energia”, afirma Kapulskis. “O outro lado dessa história é que, à medida que a tecnologia se difundir, poderemos ver novas companhias locais utilizando essa tecnologia e surgindo no mercado.”
Importante apontar que a Coreia do Sul permaneceu na categoria de mercado emergente na revisão anual divulgada pela MSCI em junho. A provedora de índices não incluiu o país na lista de observação para uma possível promoção ao grupo dos mercados desenvolvidos, ao afirmar que ainda precisava avaliar os efeitos das reformas adotadas para ampliar a acessibilidade do mercado.
Fonte: Valor Econômico

