Apesar do aumento do preço do petróleo no mercado internacional desde março, as principais petroleiras mundiais demonstraram preocupação com o conflito no Oriente Médio. De acordo com os balanços financeiros do primeiro trimestre deste ano, TotalEnergies, Shell, ExxonMobil e Chevron apontaram queda na produção na região — estremecida pelos ataques de EUA e Israel ao Irã e as retaliações daquele país aos vizinhos —, compensada pelo aumento das atividades em outras partes do mundo, como Brasil, Guiana e Estados Unidos.
Isso fez com que algumas das companhias conseguissem registrar alta nos lucros em meio à guerra, mas também provocou uma mudança nas suas operações.
Desde o início do conflito no Oriente Médio, quando os Estados Unidos iniciaram ataques militares ao Irã, em 28 de fevereiro, a cotação do petróleo subiu para US$ 126 com a escalada dos ataques e o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde trafegam 20% de todo o petróleo do mundo, afetando a indústria global de óleo e gás.
Dólar em novo patamar
De acordo com as empresas, a cotação média do Brent subiu de US$ 75,73, no primeiro trimestre do ano passado, para US$ 81,13, no primeiro trimestre deste ano. Nos últimos dias, o barril chegou a operar bem acima dos US$ 100. Ontem, fechou perto de US$ 95 por barril do tipo Brent.
O cenário descrito pela Shell ajuda a ilustrar os desafios do setor entre a alta nos preços e as incertezas com a região, uma das principais produtoras do mundo. A companhia anunciou ontem lucro de US$ 6,915 bilhões no primeiro trimestre deste ano, acima dos US$ 5,577 bilhões do mesmo período do ano passado.
O resultado foi influenciado pela alta na divisão de trading (comercialização) com o avanço dos preços, mas foi a declaração de Sinead Gorman, diretor financeiro da empresa, que chamou a atenção dos analistas durante a conferência dos resultados. Ele disse que, para o segundo trimestre de 2026, a companhia projeta produção de petróleo e gás no Oriente Médio entre 580 mil e 640 mil barris de óleo equivalente por dia (boe/d), bem abaixo dos 909 mil boe/d registrados no primeiro trimestre deste ano.
— Os efeitos mais significativos ocorreram no Catar, onde a unidade Pearl GTL (que transforma gás natural em combustíveis líquidos e outros derivados de petróleo) sofreu danos. Atualmente, estimamos que a segunda linha da unidade levará cerca de um ano para voltar a operar. Os custos de reparo devem ficar bem abaixo de US$ 500 milhões, segundo as estimativas atuais. Já a primeira linha da Pearl GTL, assim como a unidade de LNG na qual temos participação por meio da joint venture QatarEnergy LNG N4, estão prontas para reiniciar as operações, dependendo da nossa capacidade de transportar produtos pelo Estreito de Ormuz — disse ele.
No geral, a queda na produção só não foi maior porque houve aumento das atividades em outras regiões, como América do Norte e América do Sul, incluindo o Brasil. A companhia destacou que a produção total passou de 1,855 milhão de barris de boe/d para 1,843 milhão de boe/d.
Assim como ocorreu com a Shell, a TotalEnergies registrou lucro de US$ 5,4 bilhões, acima dos US$ 4,2 bilhões do mesmo período do ano anterior. O ganho foi influenciado pelo aumento do preço médio do barril e pelo avanço da produção em países como Brasil e Líbia, que amenizaram a queda de 100 mil barris por dia na produção do Oriente Médio entre janeiro e março.
— A produção de petróleo e gás no primeiro trimestre alcançou 2,553 milhões de barris equivalentes de petróleo por dia, um crescimento orgânico de 4% em relação ao ano anterior, excluindo os impactos do atual conflito no Oriente Médio sobre a produção — disse Patrick Pouyanné, CEO da empresa, destacando que a companhia seguirá diversificando seus projetos, como a retomada da construção de GNL em Moçambique.
Segundo a TotalEnergies, a paralisação da produção no Catar, Iraque e nas operações marítimas dos Emirados Árabes Unidos representa aproximadamente 15% da produção total de petróleo e gás da companhia, cerca de 360 mil barris por dia em média em abril, em comparação com os níveis anteriores ao conflito.
A empresa destacou ainda o cenário de incerteza em seu balanço. “Considerando o tempo necessário para a retomada das instalações de produção no Oriente Médio (entre dois e três meses), os preços devem permanecer em patamares elevados durante o segundo trimestre. Além disso, o impacto desse conflito sobre os estoques globais de hidrocarbonetos está levando ao desaparecimento do cenário de excedente de oferta para 2026, antecipado no início do ano”, disse a empresa.
A ExxonMobil, por sua vez, destacou que os preços mais altos do petróleo e do gás foram parcialmente compensados por volumes menores no Oriente Médio. A empresa citou perdas de US$ 700 milhões em operações de hedge financeiro liquidadas em razão de interrupções no fornecimento na região do Irã e do Estreito de Ormuz. Assim, o lucro no primeiro trimestre foi de US$ 4,2 bilhões, acima do esperado pelo mercado, mas abaixo dos US$ 7,7 bilhões registrados no mesmo período do ano passado.
Assim como a Shell e TotalEnergies, a Exxon conseguiu compensar parte do impacto da guerra com o aumento da produção na Guiana, que registrou recorde trimestral superior a 900 mil barris de petróleo por dia. Com isso, a produção total subiu de 4,551 milhões de boe/d no primeiro trimestre do ano passado para 4,594 milhões de boe/d no primeiro trimestre deste ano.
— Este trimestre demonstrou que a ExxonMobil é uma empresa fundamentalmente mais forte do que era há apenas alguns anos, construída para ter bom desempenho em meio a crises e ciclos de mercado. Os eventos no Oriente Médio testaram essa força — disse Darren Woods, presidente do conselho e diretor executivo.
A Chevron também ressaltou o cenário desafiador da guerra no Irã, classificado pela companhia como um “ambiente externo imprevisível”. Embora também tenha apresentado resultados acima do esperado pelo mercado, a petroleira reportou lucro de US$ 2,2 bilhões no primeiro trimestre de 2026, abaixo dos US$ 3,5 bilhões registrados no primeiro trimestre de 2025.
A produção no primeiro trimestre de 2026 foi maior do que no mesmo período do ano passado, principalmente devido à aquisição da Hess Corporation e ao crescimento no Golfo da América e na Bacia do Permian, no Sul dos EUA. A produção só não avançou mais por causa das restrições no Oriente Médio, disse a Chevron. A empresa destacou ainda que a produção nos Estados Unidos superou 2 milhões de boe/d.
Fonte: O Globo