A tensão no Oriente Médio, que segue não tendo uma resolução no horizonte de curto prazo, já começou a produzir efeitos sobre o agronegócio brasileiro. O encarecimento de energia e de insumos estratégicos surge como maior ameaça, ao mesmo tempo em que abriu oportunidades pontuais via preços e câmbio.
O resultado, segundo agentes do setor e do mercado de capitais, é um ambiente mais volátil e com impactos heterogêneos ao longo da cadeia.
Levantamento da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) indica que a região do Irã concentra cerca de 20% do comércio internacional de petróleo e gás natural, além de ter participação relevante na oferta global de insumos como ureia. Por conta disso, disrupções logísticas como a do Estreito de Ormuz tendem a pressionar custos globais e, por consequência, o mercado brasileiro.
A entidade também destaca que o impacto para o agro nacional ocorre pelo aumento dos custos de produção, tanto dentro quanto fora da porteira, com alta de diesel, frete e operações mecânicas. O movimento já levou a CNA a, inclusive, defender medidas emergenciais para mitigar esses efeitos.
Em ofício ao Ministério de Minas e Energia, o presidente da entidade, João Martins, afirmou que “o avanço da mistura de biodiesel representa medida importante e sustentável para ampliar a oferta de combustível no mercado doméstico, reduzir pressões sobre os custos logísticos e fortalecer a segurança energética nacional”.
Além disso, a CNA também solicitou a redução temporária de tributos sobre o diesel, destacando que “o momento é particularmente sensível para o setor agropecuário, marcado pelo plantio e pela colheita da segunda safra, período em que o custo do combustível tem efeito direto sobre as despesas de produção e sobre a atividade econômica”.
Na avaliação de Gustavo Assis, CEO da Asset Bank, o choque atual atua por dois canais simultâneos. O primeiro é o de custos, porque o petróleo mais alto pressiona diesel, frete e parte da logística justamente em um país que depende fortemente do transporte rodoviário e importa cerca de 30% do diesel.
“O segundo é o de preços, porque choques geopolíticos costumam mexer com câmbio, fluxo global de capital e precificação de commodities”, afirma.
Segundo ele, o efeito líquido tende a ser mais desafiador no curto prazo. “O mercado olha muito para a possibilidade de preços agrícolas mais firmes, mas o produtor sente primeiro o aumento do diesel, do frete, da energia e a pressão potencial sobre fertilizantes”, disse.
Assis acrescenta que, nesse cenário, “entre preço melhor na venda e custo maior na operação, o que define o resultado continua sendo margem, não manchete”.
Ganhos em outros segmentos
Apesar da pressão sobre custos, o movimento pode favorecer receitas em determinados segmentos. Marcio Takaya, gestor da Sparta, avalia que o impacto da atual crise é mais limitado do que o observado na guerra entre Rússia e Ucrânia.
“Não tem nenhum efeito tão intenso quanto foi na guerra da Ucrânia”, afirmou, destacando que, no caso atual, os efeitos se concentram mais em logística e combustíveis.
Takaya observa que a alta do petróleo pode, inclusive, beneficiar cadeias específicas. “O preço do açúcar e do etanol é bastante correlacionado com o preço do petróleo. Então, acaba aumentando o valor desses produtos e acaba sendo benéfico para usinas sucroalcooleiras”, disse.
Ainda assim, ele ressalta o caráter transitório do choque: “No momento em que essa guerra acabar, essas tensões diminuírem, o preço do petróleo tende a voltar à normalidade”.
Crédito
Do ponto de vista do crédito, a leitura dos especialistas consultados pela Capital Aberto é de impactos distintos conforme o perfil das operações. Assis afirma que a melhora no preço das commodities pode fortalecer a geração de caixa em alguns casos, mas não de forma uniforme.
“Se o custo sobe junto, se há descasamento entre receita e despesa, ou se o produtor está mais pressionado em capital de giro, a melhora no preço pode ser parcialmente anulada”, afirmou.
Para o mercado de capitais, o ambiente tende a reforçar a seletividade. “Em momentos de volatilidade, o investidor tende a olhar com mais atenção para ativos que ofereçam prêmio, lastro real e exposição a setores resilientes da economia. O CRA entra nessa conversa”, disse Assis.
Ainda assim, ele pondera que “o apetite cresce quando a emissão tem boa estrutura, garantias consistentes, originador confiável e risco bem precificado”.
Na Sparta, a percepção é de estabilidade no curto prazo. “Não acho que é um evento que impacta o crédito”, afirmou Takaya ao comentar o efeito sobre os CRAs. Aida segundo ele, a diversificação das carteiras e a qualidade dos emissores ajudam a mitigar riscos.
“A gente já trabalha com empresas que têm uma boa capacidade de pagamento”, disse, classificando o impacto geral do conflito como “algo neutro” para os investimentos no setor.
Fonte: Capital Aberto