Os preços do petróleo registraram a maior alta mensal em décadas em março, conforme a guerra no Irã sufocou o fornecimento global de energia e provocou um choque de oferta nas principais economias e mercados financeiros do mundo.
O petróleo do tipo Brent, referência internacional, para maio fechou a US$ 118,35 na terça-feira, próximo do seu nível mais elevado desde o início do conflito no Oriente Médio, com os investidores temendo um fechamento prolongado do Estreito de Ormuz e correndo para garantir seus carregamentos. O preço subiu 63% em março, superando o recorde anterior de 46% após a invasão do Kuwait pelo Iraque em 1990.
O petróleo do tipo WTI, dos EUA, subiu cerca de 50%, levando o a gasolina na maior economia do mundo a atingir US$ 4 por galão pela primeira vez desde 2022.
A crise energética desencadeada pelo fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã, em resposta aos ataques conjuntos de EUA e Israel, iniciados no final de fevereiro, ameaça uma nova onda de inflação global e provoca fortes vendas nos mercados de ações e de renda fixa, de Wall Street à City de Londres.
O presidente Donald Trump pediu na terça-feira aos aliados dos EUA, incluindo o Reino Unido, que tomem medidas para “buscar seu próprio petróleo” no Golfo ou comprar energia dos EUA. O presidente americano escreveu em uma publicação no Truth Social: “A todos os países que não conseguem combustível de aviação por causa do Estreito de Ormuz, como o Reino Unido, que se recusou a se envolver na decapitação do Irã, tenho uma sugestão para vocês: Número 1, comprem dos EUA, temos bastante; e Número 2, criem coragem, vão até o Estreito e simplesmente TOMEM”.
O secretário americano de Defesa, Pete Hegseth, recusou-se na terça-feira a descartar o envio de soldados ao Irã, depois que os EUA já haviam mobilizado milhares de tropas adicionais para a região, treinadas para tomar e manter o território. Ele disse que o “objetivo é ser imprevisível” em termos de “o que você está disposto a fazer ou não fazer”. Hegseth disse que a operação dos EUA poderia durar “de quatro a seis ou oito semanas, ou qualquer número de semanas”, mesmo com o fechamento do estreito, por onde flui um quinto do petróleo mundial, causando uma interrupção histórica nos mercados de energia e gerando preocupações com a escassez de produtos considerados essenciais.
Richard Bronze, chefe de geopolítica da consultoria Energy Aspects, disse que “a Casa Branca está com dificuldades para decidir o que fazer” em relação ao Irã, acrescentando que “em algum momento em breve, o presidente Trump precisará escolher entre várias opções pouco atraentes, já que os EUA não podem simplesmente abandonar a crise, deixando o Irã no controle de Ormuz”.
A alta do Brent é a maior desde a criação do contrato futuro em 1988. Mas ainda é menor do que a variação de quatro vezes ocorrida entre outubro de 1973 e janeiro de 1974, quando o petróleo bruto subiu de US$ 2,90 para US$ 11,65 o barril devido ao embargo imposto aos EUA por países árabes exportadores após o apoio dos EUA a Israel na Guerra do Yom Kippur. A alta de março foi mais acentuada nos produtos refinados, com o querosene de aviação e o diesel praticamente dobrando de valor desde o início do ano.
A variação causou forte volatilidade nas ações globais, títulos de renda fixa e outras commodities. O índice S&P 500 de Wall Street recuou 5,1% em março, apesar de uma forte alta na tarde de terça-feira. “A imprevisibilidade de Trump torna impossível ter uma visão racional dos mercados”, disse Luca Paolini, estrategista-chefe da Pictet Asset Management.
A remoção das sanções ao petróleo russo e iraniano não teve um efeito significativo no mercado”
Com o fornecimento global de energia e alimentos cada vez mais ameaçado, a perspectiva de “estagflação mundial” – uma combinação de inflação crescente e crescimento estagnado – tornou-se difícil de descartar, acrescentou ele.
Os temores de inflação forçaram o rendimento dos Treasuries de 10 anos, uma referência para trilhões de dólares em ativos em todo o mundo, a subir quase 0,4 ponto percentual, para 4,31%, desde o início do conflito. O ouro caiu 11%, com os investidores migrando para o dinheiro em espécie.
Os investidores estão preocupados com novas escaladas no conflito. Nesta terça, um drone iraniano atingiu um petroleiro totalmente carregado perto de Dubai, causando danos limitados, mas ressaltando os riscos para a navegação.
Enquanto isso, os rebeldes houthis no Iêmen dispararam um míssil contra Israel no fim de semana, aumentando as preocupações de que as rotas de navegação do Mar Vermelho, que estão sendo usadas para encaminhar parte do petróleo que normalmente seria transportado pelo Estreito de Ormuz, possam ficar ameaçadas.
O fechamento do estreito retirou cerca de 300 milhões de barris da oferta global, quase três dias de consumo mundial, no que os analistas do Morgan Stanley descreveram como uma interrupção “muitas vezes” maior do que a temida falta de fornecimento russo em 2022, quando o Brent atingiu o pico de US$ 139 por barril.
Os países do Golfo que não conseguem exportar seu petróleo bruto interromperam a produção de aproximadamente 10 milhões de barris de petróleo, enquanto cerca de 2 milhões de barris por dia de capacidade de refino estão fora de operação no Oriente Médio. As refinarias na Ásia, que dependem do fornecimento de petróleo bruto do Oriente Médio, tiveram que reduzir coletivamente sua capacidade em cerca de 2 milhões a 2,5 milhões de barris por dia.
O Morgan Stanley prevê que o petróleo Brent terá um preço médio de US$ 110 por barril entre abril e junho e de US$ 100 por barril entre julho e setembro. A instituição alertou que os preços ainda não refletem totalmente a escala da interrupção causada pela guerra no Irã e provavelmente subirão ainda mais até que a demanda seja reduzida.
Tamas Varga, analista da corretora de petróleo PVM, afirmou que os esforços para reduzir os preços por meio da liberação de 400 milhões de barris de petróleo bruto e produtos refinados das reservas estratégicas globais “não tiveram o impacto esperado”. A remoção das sanções ao petróleo russo e iraniano também não teve um efeito significativo no mercado, acrescentou.
Fonte: Valor Econômico