/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2024/7/d/Qbm63zRSOFMJfIFSVyOQ/foto23fin-101-gestores-c6.jpg)
Se até há pouco tempo os gestores de fundos de renda fixa encontravam boas oportunidades no mercado, tanto nas novas emissões como no secundário, neste ano a busca por rentabilidade se tornou um trabalho mais complexo, com os spreads a cada dia menores em resposta à demanda pelos papéis.
Com isso, o reflexo tem sido ampliar o escopo de análise. Agora, além de garimpar papéis no mercado, a atenção se volta também para emissões de empresas menores, que em sua maioria está de fora do radar dos bancos. Nesse modelo, a originação é feita dentro de casa e os papéis divididos entre poucas casas, em chamados “club deals”.
Na Capitânia, diante de spreads mais fechados, a gestão tem sido mais ativa em “club deals”, entrando em emissões menores, entre R$ 50 milhões a R$ 500 milhões em média, que são divididas em um grupo menor de investidores. Segundo Arturo Profili, sócio da gestora, nesse momento em que os spreads das empresas “já arrumadas” estão magros, essa tem sido uma importante estratégia para alocação dos fundos. Profili destaca que na gestora, contudo, não há o trabalho de estruturar ou distribuir esses papéis.
Na prática, originar uma oferta de títulos de crédito, como debêntures, significa ter que ir atrás de companhias, entender os projetos e participar desde o início da operação, inclusive na definição de cláusulas restritivas, os chamados “covenants”, e dos prazos.
Além de retornos maiores que, em momentos como esse, são superiores aos encontrados no mercado secundário, o sócio da Capitânia afirma que também é possível negociar termos e condições melhores nos contratos, assim como garantias. Isso ocorre, segundo Profili, porque as emissões, nesse formato, não são pulverizadas.
O momento atual reflete um aperto das taxas de remuneração dos investidores diante de uma grande procura por papéis de renda fixa no mercado. Há um interesse especial por títulos que são isentos, ou seja, que oferecem o benefício fiscal para pessoa física. Com o início da tributação dos fundos fechados exclusivos neste ano, há uma migração gradual dos recursos e parte desse dinheiro está indo para fundos como os de debêntures incentivadas.
Mudanças nas regras para emissões de outros títulos isentos, como os certificados de recebíveis imobiliários (CRI), também contribuíram para uma corrida dos investidores rumo a esses ativos, algo ainda suportado pelos níveis dos juros, que afastam os recursos da renda variável. É por causa dessa dinâmica que os gestores estão mais ativos para garimpar melhores retornos.
Com mais demanda, o volume de oferta subiu ainda mais. Como consequência, as emissões de debêntures no primeiro semestre chegou a R$ 206,7 bilhões – quase 90% da captação do ano de 2023 completo, conforme dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).
Depois dessa forte onda de operações no mercado primário, as operações podem perder um pouco de fôlego na segunda metade do ano. Com menos títulos sendo ofertados e com a manutenção do fluxo positivo para os fundos que compram crédito, é esperado que os spreads dos “high grade” permaneçam “amassados” ainda por um tempo, diz Daniel Lemos, da Riza Asset. “Se não houver alguma mudança brusca de cenário, os spreads devem ficar onde estão ou caírem um pouco mais”, afirma.
Os dados comprovam o aperto. No Idex-CDI, índice criado pela JGP que acompanha uma cesta de debêntures mais líquidas indexadas ao CDI, os spreads que estavam em 2,2% ao fim de dezembro terminaram junho em 1,9%.
Para o sócio da JiveMauá e responsável pela área de crédito, Samer Serhan, a compressão dos spreads visto hoje tem “pouco fundamento” e se trata mais de um “movimento de mercado”. Ele lembra que a melhora do balanço das empresas não foi tão grande para, assim, justificar o ritmo de queda dos spreads.
Já na gestora Rio Verde, por exemplo, um dos focos do trabalho tem sido na originação, para se conseguir mais prêmio nos papéis, em um movimento para driblar o aperto do spread de crédito. Uma das transações recentes foi a da termelétrica Beta Produtora de Energia, de Santa Catarina.
O gestor de crédito privado da gestora, Victor Tâmega, conta que trazer a originação para dentro de casa proporciona melhores taxas para os fundos, ao se buscar no mercado operações menores e que muitas vezes passam fora do radar dos bancos. Hoje, a maioria das emissões de debêntures partem de bancos de grande e médio porte. Nesse modelo, é comum que as instituições financeiras se comprometam a comprar parte dos papéis, inclusive quando a demanda não sai como o previsto. Não são todas as operações, porém, que despertam o interesse dos bancos.
Para as gestoras não há apenas o lado positivo das originações, ou seja, o ganho com taxas maiores. Na outra ponta, os títulos originados podem ter uma menor liquidez no mercado secundário, diz Vivian Murakoshi Lee, gestora e sócia da Ibiuna. “Esses papéis podem ser menos líquidos porque menos pessoas os analisaram”, afirma. Dessa forma, o trabalho dos gestores é entender o mandato dos fundos e equilibrar a participação de papéis originados com a de ativos mais líquidos, “que têm menos gordura, mas que facilmente são vendidos no secundário”, explica.
A Ibiuna tem olhado para oportunidades com ativos menos líquidos, mas ainda está longe de colocar o pé no acelerador, diz ela. “Com os papéis no mercado interno mais líquidos apresentando spreads mais amassados, estamos participando de alguns sindicatos, mas não queremos alocar por alocar. A estratégia agora envolve ter um carrego menor do que gostaríamos, mas entrar apenas em operações em que temos a certeza de serem bem precificadas.”
Na JiveMauá, segundo Serhan, o braço de originação é uma área de atuação ativa e com a qual tem sido possível encontrar boas operações em projetos de infraestrutura. As transações que a casa olha ficam entre R$ 50 milhões e R$ 150 milhões, de empresas que têm até R$ 1 bilhão de faturamento. Em média, 90% dos papéis originados são encarteirados pela gestora.
Serhan acredita que o crescimento desse mercado, mais voltado a emissões menores, em breve vai se refletir no aumento da liquidez do mercado secundário. “A percepção de risco será menor conforme os projetos forem maturando”, explica.
Fonte: Valor Econômico