Há quem tema que, se os muito ricos dominarem a área, os avanços futuros poderiam criar uma elite, não de bebês cientificamente “projetados”, mas de idosos “projetados”
Por Hannah Kuchler, Financial Times — Londres
02/01/2023 17h42 Atualizado há 2 semanas
Quando Nir Barzilai decidiu há 30 anos se especializar nas chamadas “ciências da longevidade” foi praticamente um ato de fé e esperança. Agora, o cientista israelense-americano acredita que o mundo está prestes a ver essa esperança tornar-se realidade e a encontrar medicamentos transformadores, capazes de impedir alguns efeitos do envelhecimento antes considerados inevitáveis.
“Chega de promessas. Já estamos num ponto entre a promessa e a realidade”, diz o diretor do Instituto de Pesquisa do Envelhecimento, do Albert Einstein College of Medicine, em Nova York.
Ele pretende realizar um enorme ensaio-modelo para testar se um medicamento bem barato contra a diabetes, a metformina, pode estender o tempo de vida por anos, depois de um promissor estudo britânico feito com pacientes.
Se as autoridades reguladoras aprovarem o uso da metformina para combater o envelhecimento, ele acredita que os grandes laboratórios farmacêuticos e biotecnológicos entrarão de vez nas pesquisas na área da longevidade. “Uma vez que provarmos isso, acho que sacudirá todo mundo”, diz.
A fantasia de viver para sempre existe há muitos séculos, com histórias sobre uma fonte da juventude e a pedra filosofal da imortalidade.
Embora ainda não possamos escapar da morte, aprendemos a evitá-la: a ciência melhorou imensamente a expectativa de vida, de início com medidas mais triviais, como sistemas de esgoto e vacinas, e depois com novos medicamentos para combater doenças crônicas, como as cardíacas. No Reino Unido, a expectativa de vida ao nascer praticamente dobrou entre 1841 e 2011.
No entanto, tendo em vista que agora muitas pessoas passam suas últimas décadas de vida com problemas de saúde, cientistas como Barzilai procuram aumentar não apenas o tempo de vida, mas também o número de anos saudáveis.
Os cientistas da longevidade rejeitam noções exageradas como a de que estão “curando a morte”. Ainda assim, suas pesquisas têm o potencial para aliviar alguns dos maiores problemas de nosso tempo: os gastos cada vez maiores com saúde conforme a população vai envelhecendo e a queda de produtividade, à medida que os doentes têm de se ausentar do trabalho.
Barzilai, porém, ainda precisa correr atrás de dinheiro para financiar o teste, que pode levar de quatro a seis anos e custar entre US$ 50 milhões e US$ 75 milhões. Até agora, ele conta com US$ 22 milhões, incluindo US$ 9 milhões do Instituto Nacional de Saúde (NIH, em inglês), agência federal de apoio à pesquisa médica nos Estados Unidos. “É terrivelmente frustrante, mas agora estamos à caça do restante do dinheiro”, diz.
Encontrar a chave para prolongar a vida beneficiaria a todos nós. Ainda assim, é difícil conseguir dinheiro para financiar essa busca. Os investidores normalmente querem retornos de curto prazo – algo improvável, no caso da metformina, tendo em vista que sua patente já venceu há muito. Os governos, por sua vez, priorizam a pesquisa de doenças.
Nessa lacuna, surgiram bilionários da tecnologia, como o fundador da Amazon, Jeff Bezos, o empresário israelense Yuri Milner e, por meio da Alphabet, os cofundadores do Google, Larry Page e Sergey Brin, que vêm financiando novos modelos que almejam combinar o melhor do mundo dos negócios e do acadêmico, sem a pressão da exigência de retornos de curto prazo. Barzilai espera vender em breve a ideia para alguns investidores desse tipo em uma conferência sobre longevidade.
Bilhões disponíveis para pesquisadores da longevidade podem ser um presente para uma humanidade distraída demais pelos problemas atuais para pensar em financiar uma revolução na saúde que viria apenas no longo prazo. O interesse desses nomes pode desembocar em uma situação em que todos saiam ganhando: bilionários tentados pela ideia de viver cada vez mais financiando o campo da longevidade, que não prosperaria sem eles.
Por outro lado, alguns temem que, se os muito ricos dominarem a área, os avanços futuros poderiam criar uma elite, não de bebês cientificamente “projetados”, mas de idosos “projetados”. Christopher Wareham, bioeticista da Universidade de Utrecht, que estuda a ética do envelhecimento, diz que os avanços na ciência da longevidade trazem o risco de ampliar as diferenças entre ricos e pobres na saúde, na riqueza e no poder, com temores, por exemplo, de que ditadores possam prolongar suas vidas.
“Suponha, por exemplo, que tivéssemos uma espécie de vacina para a pandemia do envelhecimento”, diz. “Isso potencialmente exacerbaria todos os tipos de desigualdades existentes […] Quanto mais tempo você estiver presente, mais sua riqueza aumentará, e quanto mais rico você for, mais influência política terá.”
Diante da expansão do campo da pesquisa da longevidade, cientistas começaram a fazer uma pergunta mais fundamental: o que é envelhecer? Em 2013, um influente grupo apresentou as “nove características do envelhecimento”, que consistem nos processos genéticos e bioquímicos que levam ao comprometimento funcional, à vulnerabilidade e à morte.
Eric Verdin, executivo-chefe do Buck Institute for Research and Aging, na Califórnia, diz que os cientistas mudaram completamente a forma de pensar o envelhecimento, deixando de presumir que era um processo passivo – quando você tem uma vida longa, a situação vai se deteriorando – e aprendendo a modificar isso.
Um avanço revolucionário poderia evitar que soframos as doenças crônicas que matam. “O maior fator de risco de todas as doenças é o envelhecimento: não é o colesterol ou o tabagismo, é a sua idade”, diz.
James Peyer, executivo-chefe da Cambrian Biopharma, uma incubadora de empresas no setor de longevidade, diz que a “estrela-guia” do campo é criar uma nova geração de remédios preventivos que tenham o mesmo impacto na saúde que as vacinas e antibióticos.
Antes de desenvolver drogas, os cientistas precisam investigar o que ocorre no nível celular. Uma importante descoberta foi a de que é possível fazer voltar atrás os ponteiros do relógio biológico das células, por meio de “fatores de rejuvenescimento” que criam o potencial para reverter as doenças.
Outra foi que as células senescentes se acumulam em pessoas mais velhas – elas envelhecem e deixam de dividir-se, mas se recusam a morrer – causando problemas de saúde. Cientistas da Clínica Mayo, nos EUA, descobriram que, desenvolvendo camundongos cientificamente para que suas células senescentes morram, eles se tornam mais saudáveis e vivem de 20% a 30% a mais.
Até agora, contudo, a maioria dessas descobertas se refere a testes em animais, não em humanos. “É um ótimo momento para ser um rato rico. Você poderia viver por muito tempo se fosse um rato rico, mas acho que o que queremos são seres humanos que vivam com mais saúde”, brinca Vijay Pande, sócio-administrador da empresa de capital de risco Andreessen Horowitz, que investe na startup de longevidade BioAge.
Testar essas hipóteses em humanos apresenta enormes desafios. Levaria muito tempo para saber se pessoas usando determinada droga viveriam mais. Dessa forma, os cientistas precisam encontrar “biomarcadores”: sinais que acompanham o processo de envelhecimento, para que se saiba se ele se desacelerou.
Os pesquisadores também precisam moldar seus testes dentro da regulamentação existente, que não define o envelhecimento como doença. Precisam ter como alvo doenças específicas, embora alguns nutram a esperança de que os medicamentos possam ter aplicações mais amplas.
Embora Barzilai acredite que a metformina tem potencial para prolongar a vida, seu ensaio terá como objetivo mostrar que a droga atrasa um conjunto de doenças, como derrame, insuficiência cardíaca, câncer e demência, além da morte.
O maior obstáculo, porém, é conseguir dinheiro suficiente para financiar grandes ensaios, para acelerar os estudos e para descobrir outros fatores que influenciam o envelhecimento.
Quando Rick Klausner começou a levantar dinheiro para a Altos Labs, criou uma plataforma para investidores como nenhuma outra. Em vez de abordar potenciais acionistas com uma lista de projetos e um cronograma de marcos a alcançar, o ex-diretor do Instituto Nacional do Câncer dos EUA queria que eles investissem no que chamou de “motor de descobertas”.
Seu argumento era que a Altos Labs contrataria as melhores mentes da área – incluindo Hal Barron, ex-diretor científico da GSK, como executivo-chefe – e lhes daria toda a liberdade de ação. Klausner espera que, trabalhando de uma forma mais colaborativa do que acadêmica, eles conseguirão superar os grandes problemas referentes ao rejuvenescimento das células, com a ambição de reverter doenças.
A abordagem valeu a pena: a empresa levantou US$ 3 bilhões, um recorde no setor de ciências da vida, em uma rodada de financiamento liderada pela Arch Venture Partners e que supostamente incluiu dinheiro de Bezos e de Milner, cofundador da Mail.Ru e fundador da empresa de investimentos em tecnologia DST Global.
Barron diz que o dinheiro permitirá que eles possam errar várias vezes na busca de seu objetivo: uma “maneira incrivelmente nova de pensar” sobre como reverter as doenças. Ir atrás de uma “ideia tão complicada e desestabilizadora” precisa de US$ 3 bilhões, acrescenta.
“Se você tivesse um investimento típico de US$ 60 milhões ou US$ 100 milhões, não seria realmente muito inteligente tentar resolver esse problema”, explica.
A Altos Labs, criada no início de 2022, agora é a mais conhecida das empresas com experimentos que dispõem de financiamento e tentam turbinar a ciência antienvelhecimento. A primeira foi a Calico Life Sciences, uma empresa da Alphabet, fundada em 2013, na qual Barron liderava pesquisas.
Klausner e Barron criticam o modelo de financiamento acadêmico tradicional por criar um ambiente que não encoraja a solução das maiores questões. O modelo deles, em vez de pressionar os pesquisadores a publicar nas melhores revistas científicas ou dar mais importância ao autor principal de um artigo, julgará os pesquisadores pelo fato de estarem trabalhando nos problemas mais difíceis.
“É um experimento, mas acho que vale a pena, para todos nós, dedicarmos o resto de nossas carreiras a ele”, conclui Klausner.
Robert Nelsen, co-fundador da Arch Venture Partners, diz que a empresa só queria atrair investidores de longo prazo. Sua firma pode continuar detendo as ações da Altos Labs por 10 a 15 anos, se necessário, embora ele acredite que outros investidores perceberão o valor do negócio muito antes de que ele encontre o “Santo Graal”.
“Se isso funcionar, não importa se tivermos que esperar. Em minha área de negócios, se você cura doenças, você vai ganhar dinheiro”, diz.
Jonathan Lewis, diretor de negócios da Calico, diz que um “bloco de financiamento” da Alphabet, então conhecida como Google, permitiu que a startup se concentrasse na biologia pioneira quando foi criada em 2013.
Desde então, também atraiu financiamento da empresa farmacêutica AbbVie. A parceria foi renovada duas vezes, e a Alphabet e a AbbVie agora se comprometeram a investir, somadas, US$ 3,5 bilhões.
É muito dinheiro para uma organização de 275 pessoas, mas uma bagatela para a Alphabet, com sua capitalização de mercado de US$ 1,2 trilhão, e para a AbbVie, com US$ 292 bilhões. Hoje, a Calico tem três drogas potenciais em ensaios clínicos iniciais.
Os investidores de capital de risco mais convencionais também começam a entrar no campo, mas seu foco está voltado a empresas que estão testando princípios mais amplos da ciência antienvelhecimento, em ensaios específicos que poderiam produzir medicamentos mais rapidamente. Ainda assim, a abordagem passo a passo pode ser mais lenta que a de outras frentes científicas e essas startups poderiam ter dificuldade caso seus primeiros testes fracassem, o que poderia corroer a força de seus planos mais amplos.
Essa nova turma de pesquisadores com os bolsos recheados tem alimentado dúvidas se as prioridades científicas dos governos realmente seriam as mais apropriadas, assim como debates sobre as consequências de transferir a setores privados uma maior parte de atividades científicas ainda em estágios iniciais.
O financiamento governamental está crescendo, mas ainda está longe de igualar o investimento levantado por nomes como a Altos Labs. O NIH tem uma divisão para a área de envelhecimento, mas os aumentos em seu orçamento nos últimos dez anos foram direcionados principalmente a pesquisas sobre o mal de Alzheimer. O Reino Unido começou a colocar o setor em sua mira, mas o dinheiro é ralo: a agência nacional de financiamento de pesquisas do governo, a UK Research and Innovation, gastou 2 milhões de libras (US$ 2,42 milhões) para criar 11 redes de pesquisa.
James Wilsdon, diretor do Research on Research Institute, da Universidade de Sheffield, diz que os recursos públicos precisam ser direcionados para onde possam gerar benefícios mais imediatos.
“A necessidade já é grande o suficiente do jeito que está, sem que assumamos questões de prazo muito mais longo e mais especulativas”, diz.
Ele acrescentou que há uma suspeita de que aqueles que enfatizam a necessidade de “longo prazo” estão, na verdade, disfarçando seus “desejos individuais, narcisistas e egoístas de encontrar maneiras de prolongar a própria vida o máximo possível”. “Você pode tentar maquiar um argumento ruim de alocação de recursos da saúde pública, mas ainda será o mesmo argumento ruim”, diz.
Por sua vez, o bioeticista Wareham diz que não se deveria pensar nessa “imagem perturbadora, nesse tipo de bilionários vampirescos, inventando poções de extensão da vida e fazendo experiências com eles mesmos” e que precisamos perceber que, mesmo que seja por interesse próprio, eles podem “se dar ao luxo de cometer muitos erros”, algo que os governos não podem.
Os governos também estão contribuindo de maneiras menos óbvias. Lewis considera o Reino Unido como “presciente” por ter criado seu “Biobanco”, um banco de dados de informações genéticas e de saúde com meio milhão de participantes. Isso se mostrou tão útil que a Calico está ajudando a financiar a inclusão de mais dados para melhorar sua compreensão de como as doenças se desenvolvem em adultos mais velhos.
Dentro da área, alguns invejam os colegas que não precisam mais ficar preenchendo intermináveis fichas de pedidos de financiamento. Lynne Cox, professora associada da Universidade de Oxford, especializada em ciência do envelhecimento, passa a maior parte do tempo “lutando por potezinhos de dinheiro”. Pode haver falta até de recursos básicos como pipetas.
Ela compara isso a um colega que ingressou recentemente na Altos Labs. “Ele tem a liberdade de fazer ciência da maneira que a ciência deveria ser feita”, diz.
Cox recebeu recursos de Jim Mellon, um ex-gestor de fundos britânico que também cofundou a Juvenescence, uma empresa de biotecnologia dedicada a pesquisas sobre a longevidade, que ela descreve como “um daqueles doadores ideais”, que não ficam fazendo microgerenciamento.
Outros temem que as empresas privadas envolvidas em pesquisas iniciais possam restringir o acesso às inovações. Embora os pesquisadores da Altos Labs tenham liberdade para publicar suas descobertas e a Calico se declare “pró-publicação”, alguns suspeitam que eles são menos livres do que se é no mundo acadêmico tradicional.
A indústria farmacêutica já protege sua propriedade intelectual com rigor e tem sido acusada de exigir preços muito altos por seus medicamentos. À medida que a ciência antienvelhecimento se aproximar da chegada ao mercado, haverá grandes questões éticas sobre como os tratamentos serão distribuídos de forma justa.
Mehmood Khan, executivo-chefe da Hevolution Foundation, uma organização sem fins lucrativos dedicada à pesquisa da longevidade financiada pela família real saudita, que prometeu US$ 1 bilhão por ano em investimentos, diz que sua missão é “estender o tempo de vida saudável para o benefício de toda a humanidade”, para garantir que não se amplifique a diferença na expectativa de vida entre ricos e pobres. Ele diz que o Hevolution financia apenas trabalhos que poderão ser “democratizados”.
“Se for um tratamento de zilhões de dólares para um punhado de pessoas, ele não é de interesse”, diz.
A Altos Labs divulga que deseja ajudar o maior número possível de pacientes com necessidades médicas graves e que está empenhada em trabalhar com o ecossistema de saúde pública no acesso e na equidade.
Normalmente, para acelerar a inovação e incentivar um acesso mais amplo, os governos costumam ser os principais contribuintes para a ciência pura, ajudando a lidar com questões essenciais, que não resultam diretamente em produtos.
Ronald Kohanski, diretor da divisão de biologia do envelhecimento no Instituto Nacional do Envelhecimento, dos EUA, diz que enquanto no Renascimento os cientistas dependiam dos bolsos das pessoas ricas, nos tempos modernos os governos ocidentais financiaram a ciência aberta.
“Nem todos os que receberam propostas de altos salários da Altos Labs foram para a empresa. Alguns preferem ficar na academia”, diz.
Ele acrescenta que as pessoas com financiamento privado não estão sujeitas à mesma “compulsão” daqueles com dinheiro do governo: garantir que suas descobertas sejam acessíveis e que quaisquer consequências positivas estejam disponíveis para todos.
“Se você está fazendo algo para ganhar dinheiro, você vai otimizar seu lucro. Isso é capitalismo resumido em poucas palavras”, diz.
(Tradução de Sabino Ahumada)
Fonte: Valor Econômico