O chefe do maior banco de investimentos do Brasil acredita que o país será responsável por 80% do alimento adicional necessário para alimentar o mundo nas próximas duas décadas — e planeja aproveitar essa oportunidade tornando sua empresa “um dos principais players globais” em commodities.
André Esteves, presidente do grupo BTG Pactual, afirmou que o grupo de US$ 26 bilhões, anteriormente apelidado de “Goldman Sachs dos Trópicos”, está buscando desafiar as tradings globais ao capitalizar a posição do Brasil como um dos principais exportadores de produtos agrícolas.
“O Brasil tem uma importância estratégica que vai além do seu PIB ou de sua presença militar”, disse ele ao Financial Times em sua primeira entrevista em seis anos. “O Brasil é o principal provedor de segurança alimentar para o mundo.”
As 15 milhões de toneladas de commodities físicas que o BTG negocia por ano ainda estão bem abaixo dos níveis dos gigantes do agronegócio como a Cargill ou a Bunge. No entanto, ao combinar sua gama de produtos, o banco tem como objetivo tornar-se “um dos principais players globais do setor”, com foco na rota entre América Latina e Ásia.
“O BTG pode oferecer a seus clientes um serviço desde a porteira da fazenda até a entrega a um comprador chinês, ou a um comprador árabe em Abu Dhabi, ou na Índia… um serviço tão competitivo quanto ou até mais do que as grandes tradings”, afirmou Esteves. “Vejo uma grande expansão acontecendo na Ásia no que diz respeito ao mundo das commodities.”
Uma plantação de soja
Essa iniciativa é mais uma jogada ousada de Esteves, ex-operador de títulos de 56 anos e uma das figuras empresariais mais influentes da maior economia da América Latina.
Nascido no Rio de Janeiro, o graduado em ciência da computação e matemática transformou o BTG Pactual de suas raízes em negociações e operações financeiras em um conglomerado financeiro e no sexto maior banco do Brasil, com ativos totais de R$ 647 bilhões.
Ao longo do caminho, Esteves vendeu a antecessora do banco, o Pactual, para o UBS por US$ 2,6 bilhões — cerca de seis vezes o valor patrimonial, no auge do boom brasileiro em 2006 — e a recomprou por aproximadamente o mesmo valor três anos depois, durante a crise financeira global.
Hoje, o banco expandiu seus braços de banco corporativo e varejo digital, além de administrar cerca de US$ 330 bilhões em ativos em suas divisões de gestão de recursos e patrimônio.
O grupo, com sede em São Paulo, registrou um aumento de 18% no lucro líquido, alcançando o recorde de R$ 12,3 bilhões em 2024, com receitas crescendo 16%, para R$ 25,1 bilhões. O retorno sobre o patrimônio líquido — uma métrica-chave de rentabilidade no setor — foi de 23% em base ajustada.
Com as altas taxas de juros do Brasil pesando sobre a atividade do mercado de capitais, o crédito corporativo foi a maior fonte de receita do banco no ano passado.
Funcionários trabalham na sede do banco de investimentos BTG Pactual
O BTG Pactual expandiu seus braços de banco corporativo e varejo digital, além de ter acumulado cerca de US$ 330 bilhões em ativos sob gestão nas áreas de gestão de patrimônio e recursos © Paula Laier/Reuters
“Outras áreas do BTG cresceram mais rápido que o banco de investimentos”, disse Thiago Batista, do UBS. “Nos últimos anos, vimos os lucros crescerem consistentemente.”
O BTG, cujas iniciais remetem à expressão em inglês “Better Than Goldman” (Melhor que o Goldman), num trocadilho apreciado por alguns no mercado financeiro brasileiro, continua sendo majoritariamente controlado por seus sócios — algo extremamente raro para um banco do século XXI, mas que Esteves considera “sagrado” e fundamental para o sucesso da instituição.
Cerca de 90 sócios e 300 associados detêm aproximadamente 70% do banco, um número que pouco mudou desde que o banco abriu capital de uma fatia minoritária em 2012. Esteves acredita que isso dá ao BTG “um forte senso de pertencimento e grande longevidade da equipe”, com os 13 sócios do comitê de gestão tendo, em média, 25 anos de casa.
Esse modelo também rendeu a Esteves uma fortuna de US$ 6,9 bilhões graças à sua participação pessoal, o que o torna a quinta pessoa mais rica do Brasil, segundo a Forbes.
O sucesso não reduziu seu ritmo de trabalho
Conhecido por seus contatos de alto nível em Brasília e por trabalhar longas jornadas de forma intensa, viajando constantemente e, às vezes, almoçando duas vezes por dia para maximizar as reuniões que consegue encaixar, Esteves mantém o carisma descontraído que é marca registrada de sua cidade natal.
Commodities não é a única área que empolga Esteves. Ele também quer posicionar o BTG como o “porto de entrada e porto de saída da América Latina”, oferecendo oportunidades globais para investidores latino-americanos por meio de subsidiárias do banco na Europa e nos EUA, e oportunidades latino-americanas para investidores internacionais.
A sede do banco BTG Pactual em São Paulo
Uma das principais áreas de crescimento para o BTG é a gestão de patrimônio, com aquisições desempenhando papel importante. A compra, neste ano, das operações brasileiras do Julius Baer levou os ativos da área de family office do grupo a ultrapassarem R$ 100 bilhões.
O BTG também tem planos de expansão na Europa, onde obteve licença bancária por meio da aquisição do Fis PrivatBank de Luxemburgo em 2023, e nos EUA, onde aguarda aprovação regulatória para a aquisição do MY Safra Bank, anunciada no ano passado.
O mercado doméstico do BTG na América Latina tem se mostrado volátil neste século, começando com um forte crescimento impulsionado pelo boom das commodities, seguido por uma “década perdida” de crescimento mínimo após a crise financeira. Esteves está convencido de que a região está aprendendo com seus erros, ainda que mais lentamente do que ele gostaria, e por isso “os próximos 20 ou 30 anos certamente serão melhores do que os últimos 20 ou 30”.
No Brasil, o alarme social no ano passado quando as expectativas de inflação subiram para 5,5% ao ano mostra uma “grande evolução institucional” em relação à era da hiperinflação dos anos 1980, quando Esteves era adolescente. “Qualquer um da minha geração acha 5% uma taxa aceitável”, disse ele.
Uma trajetória pessoal de altos e baixos
Filho único, criado por sua mãe professora universitária e pela avó, que era manicure, após seu pai deixar a família, Esteves estudou na universidade pública federal do Rio e fez carreira no Pactual.
Mas em 2015, ele foi preso por promotores que investigavam um enorme escândalo de corrupção na estatal Petrobras e passou três semanas na famosa prisão de Bangu, no Rio — lar de pistoleiros e traficantes — antes de negociar prisão domiciliar. Em novembro daquele ano, Esteves foi forçado a renunciar ao cargo de presidente do conselho e CEO do BTG, mas foi inocentado de todas as acusações em 2018 e, quase quatro anos depois, retornou ao cargo de presidente do conselho.
“Ele é um banqueiro brilhante e um empreendedor incansável, que conseguiu transformar uma operação de trading proprietário em um conglomerado financeiro com excelência em múltiplas áreas”, disse um alto executivo da Faria Lima, equivalente brasileira à Wall Street, que pediu anonimato. No entanto, ele acrescentou: “Apesar de seu tamanho e diversificação, os resultados do BTG ainda dependem fortemente de Esteves.”
O BTG participou de conversas com o Banco Central do Brasil e outros grandes bancos sobre o futuro do Banco Master, segundo uma fonte com conhecimento do assunto. A instituição menor tem chamado atenção por seu rápido crescimento e por investimentos em ativos de maior risco e baixa liquidez.
Esteves aponta a tomada de decisões colegiada, o trabalho árduo e o foco no longo prazo como pilares de seu estilo de gestão. “A parceria te obriga a compartilhar decisões”, disse ele, acrescentando que o BTG nunca opta pelo caminho mais fácil de curto prazo.
“Fazemos o oposto — tomamos decisões aqui que sacrificam o curto prazo para facilitar o longo prazo. O desempenho da empresa é muito mais importante do que o bônus individual.”
Fonte: Financial Times
Traduzido via ChatGPT

