Por Primrose Riordan, Financial Times — Hong Kong
29/01/2023 21h23 Atualizado há 12 horas
O governo chinês comprometeu-se a tornar o consumo a “principal força motriz” da economia, em meio ao aumento da expectativa de que o fim da política de covid-zero por parte de Pequim dê vazão a uma enxurrada de gastos dos consumidores chineses e também alimente uma recuperação econômica no resto do mundo.
“O maior potencial da economia chinesa está no consumo de 1,4 bilhão de pessoas”, disse o premiê chinês, Li Keqiang, durante encontro do Conselho de Estado, segundo comunicado divulgado no sábado à noite. “Elevar o consumo é um passo crucial para expandir a demanda interna. Precisamos restaurar o papel estrutural do consumo na economia.”
Embora a China há muito procure aumentar os gastos do consumidor, as declarações de Li, em via de deixar o cargo, chegam num momento crucial, já que Pequim busca reconstruir a economia após anos de desgastantes lockdowns.
A economia chinesa cresceu apenas 3% em 2022, que mostra o impacto da estratégia de covid-zero até dezembro, quando foi abandonada. A crise do mercado imobiliário em 2022, um setor que contribuiu com cerca de 25% do Produto Interno Bruto (PIB) nos últimos dez anos, também intensificou as dificuldades econômicas.
Muitos economistas preveem que o consumo reprimido da China ajudará a impulsionar a demanda mundial.
Multinacionais, como a Unilever, divulgaram nas últimas semanas que projetam uma recuperação da demanda no país, enquanto bancos, entre os quais o Morgan Stanley, elevaram suas previsões para o crescimento da economia chinesa. “Acreditamos que o mercado está subestimando as ramificações de longo alcance da reabertura e a possibilidade de que possa ocorrer uma recuperação cíclica e forte mesmo diante dos persistentes ventos contrários estruturais”, destacou o banco em nota a investidores em janeiro.
Mas há dúvidas se os chineses realmente estarão dispostos a começar a gastar e se tornar o motor do crescimento.
Há muito, especialistas advertem que o desejo da China de que o crescimento deixe de ser tão impulsionado pelo setor imobiliário e passe a contar com um maior consumo será uma tarefa complicada. Em 2021, os gastos das famílias representaram 38% do PIB chinês. Nos EUA, por sua vez, representaram quase 70% do PIB no ano passado. Os anos de pandemia também trouxeram maior cautela econômica, enquanto a renda e os preços residenciais ficaram sob pressão na crise imobiliária.
A já elevada taxa de poupança nacional bruta do país aumentou ainda mais durante a pandemia. Os depósitos em yuans mantidos por famílias em todo o país tiveram um crescimento recorde de 17,8 trilhões de yuan (US$ 2,6 trilhões) em 2022, em comparação ao de 9,9 trilhões de yuans em 2021, segundo dados do Banco do Povo da China (o BC chinês).
Na semana passada, chineses comemoraram o primeiro Ano Novo Lunar sem os controles da pandemia. Embora a mídia estatal informe que foram feitas 226 milhões de viagens internas, 74% a mais que em 2022, no auge das restrições da covid-19, isso ainda é apenas cerca da metade das 420 milhões de viagens feitas em 2019.
Fonte: Valor Econômico