Por Chan Ho-him e Thomas Hale, Financial Times — Hong Kong e Xangai
08/01/2023 16h11 Atualizado há 17 horas
Dezenas de milhares de pessoas atravessaram a fronteira entre a China continental e Hong Kong nas duas direções, na reabertura da passagem neste domingo (08), que acabou com três anos de separação impostos pela rigorosa política de Pequim tolerância zero à covid-19.
O fim da exigência de quarentena aos que cruzam a fronteira, substituída pela necessidade de apenas um teste negativo para a doença, representou o passo final do drástico desmantelamento da abordagem, que incluía lockdowns frequentes, testagem em massa e duras restrições aos que deixavam o país.
Antes da pandemia, os viajantes chineses representavam a maior fonte de turistas internacionais no mundo, mas depois da eclosão da pandemia no início 2020 as viagens para fora do país foram suspensas e, na prática, a fronteira com a Região Administrativa Especial de Hong Kong também foi fechada.
As viagens dentro e fora da China despencaram durante a pandemia. As passagens de fronteira nos três meses encerrados em 30 de setembro totalizaram 22 milhões, de acordo com as autoridades de imigração chinesas. O número para todo o ano de 2019, antes da pandemia, foi de 670 milhões de pessoas, mais da metade delas viajantes da China continental, de acordo com dados da imigração chinesa.
Nesta manhã de domingo, em um posto de controle de fronteira, em Lok Ma Chau, perto de Shenzhen, as filas de visitantes da parte continental dirigindo-se a Hong Kong colocavam em evidência a importância da reabertura.
“Do que mais senti falta foi da vista noturna [do porto] de Victoria Harbour”, disse Peter Yin, 25, engenheiro de tecnologia da informação, em Shenzhen, que está visitando um amigo por dois dias. Ele disse que não podia acreditar que a fronteira enfim estava voltando a ser aberta.
A previsão de uma corrida de chineses para Hong Kong vem sendo vista como um impulso muito necessário para a economia do território, que deve encolher 3,2% em 2022. Analistas projetam um crescimento das vendas varejistas entre 10% e 20% em 2023.
As autoridades locais disseram que cerca de 28,8 mil pessoas cruzaram as três principais fronteiras terrestres com a vizinha Shenzhen em ambas as direções até as 16 horas locais de domingo (08). Hong Kong limitou as travessias diárias a cerca de 60 mil em cada direção, em uma reabertura em fases, sendo que o limite pelos três principais postos de controle fronteiriços é de 50 mil.
Acredita-se que a conexão ferroviária de alta velocidade com a China continental seja reaberta em 15 de janeiro.
O líder de Hong Kong, John Lee, disse a repórteres na fronteira no domingo (08) que o plano é acabar com esse sistema de cotas e permitir uma reabertura total o mais rápido possível.
Enquanto isso, o setor mundial do turismo se prepara para a retomada das viagens chinesas. Em 2019, antes da pandemia, cerca de 155 milhões de residentes chineses viajaram ao exterior e gastaram um total de US$ 255 bilhões, segundo o Citigroup. Hong Kong recebeu 44 milhões de visitantes da China continental em 2019, de um total de 56 milhões, apesar de os protestos antigovernamentais no território em 2019 terem afetado o apetite.
Os habitantes de Hong Kong, muitos com família do outro lado da fronteira, também estão ansiosos para viajar ao continente durante o Ano Novo lunar. A maioria das vagas disponíveis no sistema de cotas já está esgotada nas reservas on-line.
Robert Yu, estudante universitário que viajava de Hong Kong a Shenzhen, disse estar “emocionado” por poder voltar ao continente com seu irmão mais velho pela primeira vez em três anos. Ele planeja ficar até o fim de janeiro, para rever a família.
“Meu avô tem 87 anos e não está bem de saúde”, disse Yu, de 23 anos. “Estou muito empolgado em poder reencontrá-los. Estava esperando por esta reabertura há três anos.”
Moradores de Hong Kong que são donos de fábricas no continente, em especial na província vizinha de Guangdong, também planejam viajar para rever suas operações.
Danny Lau, presidente honorário da Associação de Pequenas e Médias Empresas de Hong Kong, dono de duas fábricas na província, visitou-as pela última vez em janeiro de 2020 e cogita uma visita em fevereiro.
“Alguns outros proprietários de fábricas que conheço também planejam retornar [ao continente] em fevereiro, após o período de férias [do Ano Novo chinês], para começar a trabalhar com seus funcionários”, disse.
Mas é improvável que o fluxo de viajantes para a China seja acompanhado por um aumento na demanda por viagens ao exterior. O fluxo de turistas chineses, anteriormente uma força de gastos de US$ 280 bilhões em destinos de férias globais de Paris a Tóquio, levará meses, senão anos, para se recuperar ao nível pré-pandêmico.
Vários países implementaram requisitos de teste para viajantes da China após o aumento das infecções, e as companhias aéreas relutam em fazer grandes mudanças imediatamente em seus horários de voos, o que significa que a capacidade permanece restrita e os preços altos.
“A vontade de viajar começou a se recuperar fortemente entre os chineses”, disse Chen Xin, chefe de pesquisa de lazer e transporte na China do UBS Securities. “Mas ainda levará tempo para se refletir nas rotas de viagem para fora [da China]”
Em Shenzhen, apenas três voos internacionais estavam programados para pousar neste domingo (08) e dois para decolar. Em Pequim, as esteiras de bagagem em um dos maiores terminais de aeroporto do mundo estavam praticamente vazias. Na cidade de Hangzhou, no leste da China, um centro de tecnologia e destino turístico, as autoridades locais de imigração disseram que 1,3 mil viajantes aéreos deveriam chegar do exterior neste domingo (08) e 1,1 mil sair da China.
Alguns governos estrangeiros tomaram medidas para limitar o número de viajantes chineses. No fim de dezembro, o Japão disse que pediu às companhias aéreas que não aumentassem o número de voos da China. Embora a solicitação não seja juridicamente vinculativa e tenha sido posteriormente relaxada em relação a Hong Kong e Macau, ela continua sendo um freio para uma expansão significativa nas viagens.
Muitos países, incluindo EUA, Austrália, Canadá, Japão, Coreia do Sul e Itália, impuseram exigência de teste de covid-19 para passageiros da China. Muitos desses países citaram o que descrevem como a falta de transparência da China em relação ao escopo das infecções por covid no país como um fator importante em suas decisões.
A China classificou as restrições de viagem de inaceitáveis e politicamente motivadas, alertando que poderia adotar contramedidas não especificadas. (Com agências internacionais)
Fonte: Valor Econômico
