Quando se trata de dificultar a vida de piratas para manter o fluxo das artérias do comércio mundial, os Estados Unidos são definitivamente o país ao qual recorrer. Durante décadas, a Marinha americana patrulhou as rotas marítimas de carga de todo o mundo para impedir a ação de saqueadores, um trabalho que tem grande mérito.
Os houthis, cujos ataques a porta-contêineres e navios da Marinha dos EUA no Mar Vermelho restringiram drasticamente o tráfego comercial pelo Canal de Suez, são um desafio muito mais difícil. A situação atual evidencia que o trabalho mais crucial dos EUA na proteção das cadeias de fornecimento se dá em situações geopolíticas e militares graves. Mas seus motivos são mais estratégicos do que econômicos, o que pode tornar suas ações proveitosas de uma forma apenas ambígua – e sujeitas a mudanças de rumo políticas.
Para um país que parece se preocupar muito pouco com o sistema multilateral — e nem mesmo ratificou a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar –, os EUA sem dúvida oferecem alguns serviços públicos mundiais vitais para defendê-lo. Segundo o think-tank Center for Global Development, os EUA gastam 0,21% da renda nacional bruta no patrulhamento de rotas marítimas de carga, três vezes mais do que o Reino Unido, que vem em segundo lugar. É verdade que em algumas regiões infestadas de piratas, como as águas da costa da Somália, dezenas de outros países juntaram-se aos EUA — inclusive da União Europeia (UE), que em 2008 lançou a Atalanta, sua primeira operação naval coletiva. Os ataques de piratas somalis, que em certo momento chegaram a centenas por ano, foram praticamente eliminados.
Mas é relativamente fácil organizar um grupo para perseguir criminosos. Até mesmo a UE, dividida em termos geopolíticos, pode se unir em torno da aversão a bandidos do mar; nem mesmo o desagregador premiê da Hungria, Viktor Orbán, é a favor de piratas.
E os EUA de fato oferecem o maior benefício para o sistema comercial quando lidam com Estados beligerantes, como a China com relação a Taiwan e a Rússia com a Ucrânia. Os piratas da costa da Somália e do Estreito de Malaca são um estorvo, mas se a China invadisse Taiwan causaria o maior caos, ao destroçar o setor internacional de semicondutores. A integridade e a política interna da UE, sem falar nas suas ambições de expandir seu mercado único para o leste, mergulhariam em uma crise se ocorresse um conflito que envolvesse uma força hostil ao longo de sua fronteira oriental.
Nestas situações, os EUA frequentemente são uma potência indispensável, mas seu principal empenho não é obter benefícios econômicos diretos. Washington tem interesse em uma Europa unida e próspera, mas os benefícios marginais que obrigar o presidente da Rússia, Vladimir Putin, a recuar traz para a economia americana dificilmente justificam seu apoio persistente à Ucrânia. E já faz décadas que Washington apoia Taiwan, bem antes de a ilha (com ajuda americana) ter forjado papel vital nas cadeias de fornecimento de semicondutores. A política externa dos EUA pode ser boa para o comércio mundial nesses casos por coincidência, mas isso não é necessariamente intencional.
O que nos leva aos acontecimentos no Mar Vermelho. Os houthis não são um bando de ladrões desmazelados em lanchas. São militantes com motivação ideológica que têm bases terrestres e são apoiados por um Estado poderoso, o Irã. Eles podem infligir danos de maneira remota, com mísseis e drones, e estão preparados para sofrer perdas pesadas.
Seus ataques são um golpe pesado ao comércio mundial, ao reduzir o tráfego no Canal de Suez, e poucos países dentro ou fora da região são seus fãs. Mas existe a sensação de que é provável que os houthis não atacariam navios se os EUA não tivessem dado um apoio tão grande a Israel durante seu ataque a Gaza. Como resultado, e dada a condenação internacional generalizada às táticas de Israel, os EUA têm relativamente poucos aliados confiáveis prontos para tomar parte em um conflito armado.
Os ataques iniciais dos EUA contra os houthis envolveram também o Reino Unido e tiveram apoio não operacional de alguns aliados antigos, como Austrália, Canadá e Holanda. Mas Bahrein foi o único colaborador do Oriente Médio. A UE e outros países europeus garantem que vão ajudar, mas principalmente com operações de suporte e escolta.
A China e a Índia, que têm um interesse comercial claro em manter o canal aberto ao tráfego, não estão envolvidas militarmente. E é o Egito que mais sofre com a situação — suas receitas com as comissões de tráfego no canal, uma importante fonte de divisas, caíram 40% este ano. Mas o país não ousa juntar-se publicamente a uma ofensiva contra militantes que declaram apoio à causa palestina.
Em outras palavras, as forças dos EUA tentam manter a rota comercial aberta, mas são mais motivadas pela geopolítica do que por interesses econômicos diretos — o comércio dos EUA depende mais do Canal do Panamá do que do de Suez — e seu bando de aliados, por consequência, é limitado.
De forma preocupante, essas motivações também são afetadas por mudanças políticas em Washington. Proteger a Europa da Rússia e apoiar Taiwan contra a China são políticas de consenso dos EUA há décadas. Mas, assim como com tantas questões de segurança, isso pode mudar se o ex-presidente Donald Trump obter outro mandato na Casa Branca.
Trump já disse que suspenderá o apoio dos EUA à Ucrânia, uma medida que sem dúvida encorajará a China. E seus instintos isolacionistas, aliados ao ressentimento pelo fato de Taiwan supostamente ter tirado negócios de semicondutores dos EUA, podem incentivá-lo a retirar o apoio dos EUA a Taipei.
Isso pode ser catastrófico para o sistema comercial, muito mais do que o protecionismo de Trump. O que mostra o risco de ter o comércio mundial respaldado pelos EUA, que têm uma política externa que só se alinha a interesses comerciais de maneira intermitente. Mas sem nenhuma outra grande potência comercial ou militar que pareça disposta ou capaz de assumir seu papel na proteção de pontos vulneráveis da economia mundial, esse é o risco que o mundo corre.
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— Foto: Pixabay
Fonte: Valor Econômico