Por Gideon Rachman, Financial Times
17/04/2023 18h40 Atualizado há 14 horas
Enquanto Joe Biden estava em viagem sentimental à Irlanda, Xi Jinping tinha muito o que fazer em Pequim. Depois de uma visita importante do presidente Emmanuel Macron, da França, o líder chinês recebeu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), do Brasil.
O recado da cúpula Lula-Xi foi agradável para a China e perturbador para os EUA. O líder brasileiro disse que seu país queria trabalhar com a China para “equilibrar a política mundial” e acusou os EUA de “incentivar” a guerra na Ucrânia.
Além disso, respaldou uma meta de longa data da China de minar o papel do dólar no sistema financeiro mundial, ao observar: “Toda noite, me pergunto por que todos os países estão obrigados a fazer seu comércio lastreado no dólar”.
A China também alcançou avanços recentes com sua diplomacia para o Oriente Médio. Neste mês, os ministros do Exterior do Irã e da Arábia Saudita se reuniram em Pequim, após a China ter intermediado um acordo voltado para o reatamento das relações diplomáticas entre as duas potências.
Os recados preferidos de Xi e da China para o mundo são claros: “Enquanto os EUA promovem a guerra, a China promove a paz. Enquanto a China promove o comércio exterior, os EUA impõem sanções econômicas”.
Esses desdobramentos estão causando alguma preocupação em Washington. Larry Summers, o ex-secretário do Tesouro dos EUA, falou na semana passada de sinais “preocupantes” de que os EUA estejam perdendo influência global. Acrescentou que uma fonte de um país em desenvolvimento lhe disse: “O que recebemos da China é um aeroporto. O que recebemos dos EUA é um sermão”.
Uma divergência significativa de atitudes para com a guerra na Ucrânia é o que move essas mudanças. Pratap Bhanu Mehta, um eminente cientista político indiano, destaca que, para uma grande parte do mundo, a reação dos EUA à invasão russa parece ser tão problemática quanto a invasão propriamente dita. É a esse público que a China está se dirigindo.
Encarada do ponto de vista dos EUA e de boa parte da Europa, a guerra de Vladimir Putin é um acontecimento singular que exige uma reação singular. Da maneira pela qual eles a veem, trata-se de um conflito muito invulgar, por não ser uma disputa sobre fronteiras ou mesmo por mudança de regime. Trata-se de uma guerra de conquista territorial. Conflitos desse tipo são muito raros desde 1945.
A tentativa de anexação do Kuwait, em 1990, por Saddam Hussein, do Iraque, foi outro exemplo desse gênero — e provocou uma ampla reação global. Uma guerra de anexação, argumentam os EUA, é ainda mais ameaçadora quando realizada pela Rússia — um governo que dispõe de armas nucleares e que é membro permanente do Conselho de Segurança da ONU.
Em resposta à guerra na Ucrânia, os EUA lançaram um esforço para transformar a Rússia em um país proscrito do ponto de vista econômico e diplomático. Foram impostas sanções econômicas sem precedentes, e a economia russa não sofreu o colapso catastrófico previsto por alguns. Em grande medida, isso se deve ao fato de um número significativo de países — entre os quais economias de peso, como a China, a Índia e o Brasil — ter continuado a fazer comércio com a Rússia.
Para esses países, a guerra da Ucrânia pode ser lamentável — mas é um conflito a ser administrado com cessar-fogos e acordos de concessões mútuas. O ministro das Relações Exteriores da Índia, S. Jaishankar, deu uma definição concisa à recusa, pelo chamado Sul Global, em aderir ao esforço de lançar a Rússia no ostracismo, com uma reclamação muito citada de que a Europa acha que “problemas da Europa são problemas do mundo, mas que problemas do mundo não são problemas da Europa”.
Os indianos e outros argumentam que as sanções impostas à Rússia criaram novos problemas para o restante do mundo. Apontam para o impacto da guerra sobre os preços dos alimentos e da energia, e, portanto, sobre os pobres do mundo inteiro.
Os ricos do Sul Global também estão ficando nervosos. Atos que foram amplamente aplaudidos no Ocidente — como o congelamento das reservas externas russas e sanções aos ativos de oligarcas russos — enviaram um recado arrepiante sobre o perigo potencial de as pessoas manterem seus ativos em dólares.
O dólar, que conquistou credibilidade internacional como moeda “lastro”, agora parece menos segura aos olhos de quem teme poder estar, certo dia, do lado errado da disputa geopolítica com Washington. Isso preocupa especialmente aliados americanos tradicionais, como a Arábia Saudita, que não estão imunes a críticas nos campos dos direitos humanos ou do uso da força militar.
Após o governante de fato da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, ter se revelado envolvido no assassinato brutal do jornalista Jamal Khashoggi, Biden chamou a Arábia Saudita de “pária”. Embora o presidente dos EUA tenha tentado aparar arestas políticas com o príncipe-herdeiro, o saudita, inequivocamente, não perdoou nem esqueceu a humilhação infligida — e está se aproximando da China.
Preocupações sobre potenciais sanções futuras dos EUA se tornaram ainda mais fortes, diante da intensificação das tensões entre Washington e Pequim. E se os EUA tentarem impor sanções financeiras, ao estilo das da Rússia, à China? O dólar é a moeda mais usada do mundo para o comércio mundial. Mas a China é o maior país do mundo em termos de comércio.
Em vez de reduzir o comércio com a China, alguns países examinam reduzir o comércio em dólar. A Rússia já tomou esse caminho, por motivos óbvios, e Pequim está estimulando outros países — como a Arábia Saudita e o Brasil — a usar o yuan no comércio bilateral.
Os EUA podem estar certos ao dizer que a guerra na Ucrânia é uma luta de relevância transcendente. Mas, se não conseguirem convencer ou intimidar o restante do mundo a concordar, a própria posição global de Washington pode sair corroída.
Fonte: FT/ Valor Econômico
![whatsapp-20image-202023-04-14-20at-2007.46.19[1]](https://clipping.ventura.adm.br/wp-content/uploads/2023/04/whatsapp-20image-202023-04-14-20at-2007.46.191-984x492.jpeg)