Muitos investidores correram para voltar a comprar ativos na Argentina nesta semana, depois de os Estados Unidos terem prometido socorrer seu aliado sul-americano. O entusiasmo pode não durar muito, dizem especialistas: os problemas do presidente do país, Javier Milei, são muito mais graves do que uma corrida contra o peso argentino.
O isolamento político cada vez maior, erros das políticas governamentais, um desgastante escândalo de corrupção e a perda de apoio no Congresso jogaram o líder libertário e aliado de Donald Trump em sua pior crise desde que ele assumiu o poder em dezembro de 2023. A oposição peronista já sentiu cheiro de sangue.
Depois de Trump ter se reunido com Milei em Nova York na terça-feira (23) e de tê-lo descrito como um “líder realmente poderoso e fantástico”, o secretário de Tesouro dos EUA, Scott Bessent, disse estar considerando oferecer à Argentina um swap de US$ 20 bilhões e estar “preparado” para comprar os problemáticos títulos de dívida argentinos para derrotar os “especuladores”, embora não tenha dado detalhes.
A firme promessa de apoio dos EUA chegou em meio à queda livre dos preços dos títulos na semana passada, enquanto os investidores observavam a Argentina queimar rapidamente suas escassas reservas de moeda forte para sustentar o peso.
As promessas dos EUA foram suficientes para acalmar os nervos dos investidores, pelo menos, por enquanto. Houve uma forte alta das ações, o peso recuperou parte das recentes perdas e os preços dos títulos subiram.
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Milei, no entanto, ainda precisa navegar águas perigosas até as eleições de meio de mandato no fim de outubro, quando espera reforçar sua fraca posição no Congresso e melhorar as chances de aprovar leis nos dois anos finais de seu mandato.
“Os problemas de Milei são, acima de tudo, políticos”, disse Sergio Berensztein, que administra uma firma consultoria de risco em Buenos Aires.
O estilo divisor e a retórica agressiva de Milei afastaram governadores provinciais poderosos e políticos de centro, disse Berensztein, acrescentando que o presidente “deveria repensar, deixar de lado seus preconceitos e montar a coalizão mais ampla possível”.
Um irreverente forasteiro da política que conquistou o cargo brandindo uma motosserra para mostrar sua determinação de cortar gastos, Milei governou em seu primeiro ano e meio em grande parte por meio de decretos.
Ele se valeu da popularidade pessoal e de poderes emergenciais para levar adiante um programa ambicioso de liberalização pró-mercado, enfrentando a acirrada oposição do Congresso, ainda dominado por peronistas de esquerda.
Nos últimos meses, entretanto, a economia parou de crescer, impactada pelos altos juros e outras políticas de combate à inflação. Os salários estagnados e aumento do desemprego desiludiram alguns eleitores. O índice de aprovação de Milei caiu de 48% em julho para 41% nesta semana, segundo o instituto Trespuntozero.
Em setembro, uma oposição fortalecida conseguiu pela primeira vez derrubar vetos de Milei a projetos de leis sobre gastos, ameaçando sua principal conquista, o orçamento equilibrado. O Senado aprovou um projeto que limita o uso de decretos presidenciais.
“Depois de romper com praticamente todos os governadores, o governo tem um Congresso totalmente contra si”, disse Eduardo Costantini, bilionário do setor imobiliário e defensor de reformas pró-mercado. “[O governo] precisa estar mais disposto ao diálogo.”
Um dos maiores obstáculos para Milei repensar sua estratégia política talvez seja sua irmã e confidente de longa data, Karina. Como chefe de gabinete da presidência, ela tentou ganhar o apoio eleitoral para o ainda novato partido La Libertad Avanza, de Milei.
No entanto, os candidatos escolhidos por ela não tiveram êxito nas urnas. Em setembro, uma grande vitória da oposição na província mais populosa do país foi o principal gatilho da crise nos mercados.
Karina também está envolvida em um escândalo de corrupção que abalou a reputação de Milei como forasteiro determinado a romper com uma política notoriamente sujeita à corrupção na Argentina. Diego Spagnuolo, que chefiava a agência federal de auxílio a pessoas com deficiência e foi advogado de Milei, foi gravado em áudios discutindo comissões de 3% sobre medicamentos destinadas a Karina.
Segundo analistas, a resposta de Milei não conseguiu dissipar as dúvidas dos eleitores. O presidente manteve silêncio por uma semana, depois chamou Spagnuolo de mentiroso e, em seguida, disse que as gravações foram geradas por inteligência artificial.
No sábado, disse à imprensa local que as acusações são improváveis porque 3% é muito pouco: “Você aceitaria 3% quando poderia pegar 100%?”
A investigações dos promotores continuam, e mais revelações poderiam se revelar prejudiciais.
Segundo economistas, Milei também precisa corrigir erros nas políticas de governo que prejudicaram a economia e deixaram a Argentina mais vulnerável a uma crise nos mercados financeiros.
O principal deles é que as políticas do presidente dependem de tentar manter o peso artificialmente forte para conter a inflação. Isso tem impedido a Argentina de acumular as reservas de dólares necessárias para pagar bilhões em dívidas externas que vencem em 2026.
Muitos empresários preferem ver Milei abandonar os esforços de manter o peso dentro de uma faixa controlada em relação ao dólar e deixar a moeda flutuar. O presidente resiste à ideia por medo de reacender a inflação, que ainda supera 30% ao ano.
Também há ceticismo sobre até que ponto os EUA estão dispostos a respaldar a Argentina, dada a conhecida aversão de Trump a ajudar governos estrangeiros à custa de Washington.
“Não acho que eles precisem de um socorro”, disse Trump em Nova York, ainda enquanto manifestava seu apoio a Milei. Bessent escolheu cuidadosamente as palavras ao fazer as promessas.
A ideia de uma linha de swap de moedas de US$ 20 bilhões soa impressionante, mas alguns investidores lembraram que a China já concedeu à Argentina uma linha de swap de US$ 18 bilhões há alguns anos, dos quais US$ 5 bilhões foram usados. Não se completaram nem seis meses desde que o Fundo Monetário Internacional (FMI) aprovou um novo socorro de US$ 20 bilhões, em abril.
O analista Daniel Lansberg-Rodríguez, da firma de consultoria Aurora Macro Strategies, descreveu o anúncio de Bessent como “uma aula de mestre em telegrafia cautelosa”.
“Apresentou todas as ferramentas possíveis — incluindo uma linha de swap de US$ 20 bilhões — cada uma primorosamente envolta num plástico-filme de ressalvas e condicionantes”, disse. “O apoio pareceu abrangente, mas foi deixado deliberadamente indefinido quanto às datas e execução.”
Ruína de muitos credores internacionais, a Argentina é uma caloteira em série e já passou por 23 programas do FMI. Hoje, deve mais de US$ 290 bilhões a credores estrangeiros, segundo números do FMI.
Nas palavras de um funcionário de alto escalão de uma instituição financeira internacional nesta semana: “A última coisa de que a Argentina precisa agora é de mais dívida.”
Costantini, o empresário imobiliário, vê o apoio dos EUA como uma oportunidade de recomeço, não uma validação do desempenho recente do governo.
“Eles não podem ser triunfalistas a respeito disso”, disse. “Isso lhes dá um respiro, mas precisam acertar em muitas coisas daqui em diante.”
Fonte: Valor Econômico
