Por Anaïs Fernandes
06/01/2023 05h01 Atualizado há 5 horas
O que determina uma recessão a nível global? No Banco Mundial, M. Ayhan Kose tem se dedicado ao assunto. Sua concepção traça um paralelo entre definições de recessão nacional e mundial. Uma recessão global, segundo ele, refere-se a uma contração na produção per capita real do mundo (por pessoa, descontada a inflação) em um ano. Mas, para ser mesmo uma recessão dessa magnitude, a contração precisa ser acompanhada de um declínio amplo e relativamente sincronizado em outras medidas da atividade global, como comércio, fluxos de capital e consumo de energia.
Ainda que custosas, crises assim não são tão frequentes. Em um trabalho de setembro do ano passado em que discutiam se uma nova recessão global era iminente, Kose e os colegas Justin Damien Guénette e Naotaka Sugawara identificam cinco recessões globais desde o anos 1970: em 1975 (choques do petróleo), 1982 (aperto monetário nos Estados Unidos e em outras economias avançadas), 1991 (piora das condições de crédito nos EUA), 2009 (crise do “subprime”) e 2020 (pandemia). Nesses episódios, a produção global per capita (ponderada pela taxa de câmbio do mercado) caiu, em média, 1,9% – a taxa média anual de crescimento nos períodos de expansão entre 1970 e 2021 foi de 2%.
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Além disso, desde 1970, a economia global experimentou desaceleração em 1998 (crises financeiras na Ásia e outros emergentes), 2001 (bolha da internet) e 2012 (crise da dívida pública na Europa). Esses três episódios não são considerados recessões globais porque o PIB real mundial per capita não caiu. Mas em todos esses momentos a economia mundial registrou suas taxas de crescimento mais baixas das últimas cinco décadas (exceto nos anos de recessão), com a produção crescendo pouco mais de 1% ao ano, em média.
As projeções mais recentes do Fundo Monetário Internacional (FMI) sinalizam para uma desaceleração da economia global de 3,2% em 2022 para 2,7% em 2023, depois de um salto de 6% em 2021 na recuperação pós-covid.
Embora essas previsões não apontem uma recessão global como resultado mais provável, a experiência histórica sugere, segundo os economistas do Banco Mundial, a presença de pelo menos dois fatores que aumentam a chance de uma crise mundial em um futuro próximo: primeiro, toda recessão global desde 1970 foi precedida por um significativo enfraquecimento da atividade no ano anterior; segundo, todas as recessões globais anteriores coincidiram com desacelerações acentuadas ou recessões em grandes economias.
O BNP Paribas nota que, das cinco recessões globais desde 1970, apenas a de 1991 não coincidiu com uma recessão severa nos EUA, definida pelo banco central americano como uma contração do PIB real do país de pelo menos 2,5% e uma taxa de desemprego aumentando em ao menos três pontos percentuais.
O banco francês espera quedas de 0,1% para o PIB americano em 2023 e de 0,2% em 2024, enquanto a economia global iria a uma mínima de crescimento de 2,3% em 2023. Seria mais uma desaceleração do que uma recessão, é verdade, mas, no fim do dia, “feels like recession” (“parece recessão”), como diz o chefe de pesquisa para América Latina do BNP Paribas, Gustavo Arruda.
A equipe global do Citi projeta um crescimento da atividade mundial indo de 3% em 2022 para 2% em 2023, o limiar para se falar em recessão, na visão do economista-chefe no Brasil, Leonardo Porto. Excluindo a China, esse número converge para perto de 1%, o que é quase o crescimento da população mundial e, por algumas definições, outro limite para se pensar em recessão global, segundo Porto.
Ele não usa essa expressão porque não vê um colapso imediato e simultâneo de todas as economias. Para o Citi, a zona do euro, por exemplo, pode ter entrado em recessão já na virada de 2022 para 2023, enquanto nos EUA isso aconteceria apenas no segundo semestre de 2023.
Recentemente, algumas notícias até têm permitido certa melhora nas expectativas para a economia internacional, como a desaceleração da inflação na margem, principalmente nos EUA, e um ritmo menor de alta das taxas básicas de juros em diversos bancos centrais. Outras boas notícias foram a recomposição do estoque de gás na Europa e a flexibilização da “covid zero” na China.
Essa última, no entanto, é uma faca de dois gumes. Se, por um lado, a retirada acelerada de restrições sanitárias pode impulsionar a recomposição do consumo chinês, por outro, o aumento expressivo dos casos pode levar Pequim a ter de retomar medidas mais rígidas ou, como aponta a MCM Consultores, a perder capacidade de coordenar governos locais. Além disso, a velocidade do ajuste monetário nas maiores economias pode ter diminuído, mas ficou mais firme a sinalização de persistência do aperto.
Com a troca de comando no Brasil, é natural que os olhares do mercado estejam voltados para a política econômica do novo governo. Parte importante dos cenários traçados pelos economistas para a atividade brasileira, no entanto, depende do que vai acontecer lá fora, chamem de recessão ou não.
Na Presidência, Lula já enfrentou a grave crise financeira global de 2008/2009, pela qual o Brasil navegou relativamente bem. A posição do país agora, porém, é muito diferente, principalmente no campo fiscal, cujo espaço para políticas anticíclicas já era apertado e ficou ainda menor com a “licença para gastar” do novo governo – boa parte com alguma destinação já planejada.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tem consciência da situação, tanto que disse que o primeiro trimestre “é vital” para mudar o curso da desaceleração por aqui. Se, no entanto, a crise global que se avizinha é caracterizada pelo descompasso entre os países e se grandes economias, especialmente os EUA, estão mais “atrasadas” no aperto monetário e seu efeito sobre a atividade for “empurrado” mais para a passagem de 2023 para 2024, um risco é que uma expansão de gastos do governo brasileiro muito grande agora comprometa sua margem de manobra para ajudar a economia doméstica quando/se houver uma virada ainda mais forte nos ventos globais à frente.
Fonte: Valor Econômico
