Os investidores parecem ter ficado bastante confortáveis com a provável trajetória do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) no que resta de ano, que inclui um corte nas taxas de juro em setembro e mais uns dois em seguida. O que pode dar errado agora? Na verdade, muita coisa.
O Fed tentou não revelar muita coisa a respeito de suas intenções e limitou-se a uma declaração em que diz que os riscos entre inflação e desemprego “continuam a se mover na direção de um equilíbrio melhor”. Na entrevista habitual, o presidente do Fed, Jerome Powell, insistiu mais uma vez em que as futuras medidas dependerão dos novos indicadores.
Mas os mercados parecem estar convencidos. Os futuros dos Fed funds embutem uma probabilidade de 100% de corte de juro em pelo menos 0,25 ponto percentual em sua próxima reunião, em setembro, e uma probabilidade de 27% de que o corte seja de meio ponto, de acordo com a ferramenta FedWatch do CME Group.
Além do mais, os mercados acham que o Fed deve fazer cortes de 0,25 ponto em cada uma das três reuniões restantes deste ano – setembro, novembro e dezembro -, com 86,4% de probabilidade de que a faixa esperada para as taxas no fim do ano seja igual ou fique abaixo da faixa de 4,50% a 4,75%. Hoje a faixa é de 5,25% a 5,5%.
Os investidores aderiram completamente a esse cenário na quarta-feira, e ações e bônus tiveram recuperação. Mas existem riscos de complacência em duas direções.
Em primeiro lugar, e acima de tudo, os investidores podem estar ficando otimistas demais a respeito da perspectiva de cortes, assim como estiveram no fim do ano passado, antes de baixarem as expectativas por causa de dados inesperadamente sólidos sobre a inflação no início de 2024. Não se sabe o que poderia causar uma recuperação da inflação desta vez, mas fatores geopolíticos são um candidato óbvio. A eclosão de uma guerra mais generalizada no Oriente Médio, por exemplo, pode fazer os preços de energia dispararem e causar pressões mais amplas nas cadeias de fornecimento internacionais.
Talvez o maior risco, no entanto, seja que o Fed aja devagar demais enquanto sinais de uma desaceleração econômica crescem. Anedotas do mundo empresarial americano nesta temporada de resultados tendem a sugerir que as coisas poderiam ser um pouco piores no mundo real do que os dados econômicos agregados e retrospectivos indicam até o momento. O executivo-chefe do McDonald’s, Chris Kempczinski, por exemplo, disse que as pressões sobre os consumidores “se aprofundaram e ampliaram” ao longo deste ano.
Esse risco é exacerbado pelo cronograma do Fed para o restante do ano, que não prevê reuniões em agosto ou outubro. Isso significa que, se os dados sobre o mercado de trabalho começarem a ficar mais fracos em julho e agosto, e continuarem a enfraquecer depois disso, pode haver um intervalo de deterioração de vários meses antes que o Fed chegue ao momento de um segundo corte nas taxas, em sua reunião de 6 e 7 de novembro. É pouco provável que só um corte de um quarto de ponto nesse meio tempo seja suficiente para conter a desaceleração, em especial por causa da habitual demora para que a política monetária tenha efeitos na economia.
Esse não é o cenário base de ninguém no momento. É verdade que o ritmo de criação de empregos diminuiu um pouco nos últimos meses e a taxa oficial de desemprego subiu para 4,1% em junho, em comparação com 3,6% um ano antes. Mas, como Powell observou corretamente na quarta-feira, esse percentual ainda é baixo em termos de padrões históricos. Em sua entrevista, o presidente do Fed afirmou repetidas vezes que o esfriamento do mercado de trabalho até este ponto é um processo de normalização de seu estado anterior de superaquecimento, e não algo preocupante. Mas ele também admitiu que “não gostaria de ver um esfriamento significativo adicional no mercado de trabalho”.
O que mais deve preocupar os investidores é que o Fed não se deu um tempo suficiente para responder de forma adequada se esse esfriamento adicional ocorrer. Isso ajuda a explicar por que os mercados futuros sugerem uma certa probabilidade de um corte de 50 pontos-base em uma das reuniões restantes neste ano. Se isso acontecer, o Fed pode se arrepender de não ter dado o tiro de largada em julho.
Fonte: Valor Econômico