3 Jan 2024 PAULA FERREIRA
Uma das áreas mais críticas no País nos últimos anos, o Ministério do Meio Ambiente voltou a caminhar rumo a uma política ambiental eficiente, mas ainda precisa lidar com incongruências dentro do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em entrevista ao Estadão, a economista e especialista em sustentabilidade Marina Grossi afirma que após colher bons índices de redução do desmatamento na Amazônia, a ministra Marina Silva terá a missão de, neste ano, avançar nos planos setoriais de adaptação climática, no desenvolvimento de políticas de incentivo à bioeconomia, e melhorar a articulação e governança com outras pastas do governo.
Como avalia o primeiro ano de gestão no Ministério do Meio Ambiente?
O Brasil tem vantagens comparativas, uma matriz limpa, grande biodiversidade, é um país megadiverso, várias fontes de energia. Mas elas não se tornavam vantagens competitivas. Para as vantagens comparativas virarem vantagens competitivas era necessário que o País entendesse que isso era algo importante. As empresas já falavam isso, o setor produtivo já falava isso há muito tempo. Era preciso também o desmatamento ser reconhecido como algo a ser combatido. Ter um governo que coloca como bandeira a sustentabilidade, coloca o plano de Transformação Ecológica como algo que deve ser representação do País para a questão, é muito bom porque ganhamos a chance de transformar isso em vantagens competitivas para esse mundo da geopolítica que, na verdade, não tem ideologia.
Tivemos uma seca histórica na Amazônia e o governo federal patinou no combate. Estamos despreparados para enfrentar eventos climáticos extremos?
Estamos despreparados. A gente já vive questões de adaptação que são emergenciais. Vejo a possibilidade de uma série de mecanismos inovadores que a gente pode estar avançando, mas é onde a gente ainda não está preparado. As empresas já estão começando a contar no seu mapa de riscos essa questão. Esses eventos climáticos extremos são o novo normal. Eu vejo muita vontade de prefeitos e governadores.
Falta liderança do governo federal no sentido de orientar essas cidades a construírem esses planos?
O que o governo pode fazer é orientar, o BNDES facilitar algumas linhas direcionadas para isso. Cabe avanços nessa área. Mas vejo que a percepção de que não estamos preparados e temos de avançar é uma preocupação no Ministério do Meio Ambiente. A adaptação precisa acontecer e eles estão buscando correr atrás.
Vimos que houve uma redução expressiva do desmatamento na Amazônia, mas a destruição no Cerrado segue em alta.
Está longe de estar resolvida a Amazônia, inclusive o desmatamento lá está ligado com a criminalidade e é um grande desafio, mas o desmatamento no Cerrado é inclusive o desmatamento legal. É preciso implementar o Código Florestal, construir alternativas econômicas para essa questão.
Atualmente temos uma média de um servidor que atua no combate a incêndios para uma área do tamanho de 13 mil campos de futebol. Como garantir a proteção dos biomas nessas condições?
Tem de mudar essa condição. Tem de estruturar esses órgãos todos. Tanto no lado de pesquisa quanto de comando e controle todos eles têm de estar revigorados. (Esse dado) mostra que não estamos preparados, temos de avançar nisso. Por isso acho que apontar qual a direção e de que maneira será feito é importante. •
Fonte: O Estado de S. Paulo