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A expansão do mercado de canetas emagrecedoras no Brasil está redesenhando as estratégias de fabricantes de suplementos alimentares de médio porte. Para aumentar presença no mercado e receita, as médias promovem mudanças na grade de produtos, com ênfase em itens mais proteicos e mudanças no sabor.
Estudo divulgado em junho pela Scanntech, empresa especializada em inteligência para o varejo e a indústria, estima que o uso dos medicamentos, somando mercados formal e informal, cresceu 239% no primeiro trimestre de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior.
“É uma mudança no perfil de consumo. A próxima onda de crescimento do mercado de suplementos não será impulsionada apenas pela performance esportiva, mas pela nutrição personalizada e pelo suporte às novas terapias para obesidade”, aponta Aline Goettert, nutricionista e diretora-executiva da Associação Brasileira de Suplementos Alimentares (Brasnutri).
Com base nas respostas de 2 mil entrevistados, coletadas nos primeiros três meses do ano, a Scanntech estima que 6% dos brasileiros adultos usam canetas emagrecedoras. Nesse grupo, 29% relataram perda de massa magra. Com substâncias que imitam o hormônio GLP-1, produzido naturalmente pelo intestino após as refeições, as canetas injetáveis reduzem o apetite. Dados da Scanntech também apontam crescimento de 9,1% no consumo de suplementos proteicos e 7,4% de vitaminas.
Na Pronutrition, que fabrica suplementos para outras marcas, cerca de 40% de todos os novos projetos recebidos atualmente são focados em aporte proteico. Beatriz Palermo, head de negócios da Pronutrition, diz que, entre 2025 e 2026, os pedidos para o desenvolvimento de produtos com fibras aumentaram mais de seis vezes.
Para atender às novas demandas de mercado, a Pronutrition adaptou a comunicação e o catálogo. Entre os 45 produtos da empresa regulamentados pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), 50% já carregam o selo GLP-1 Support. Dos 40 novos produtos que entrarão no catálogo até o fim do ano, 28% são voltados para esse novo mercado. “Com o selo suporte de GLP-1, educamos o mercado sobre o produto para essa categoria e de como ele poderia compor a linha dos clientes”, ressalta Palermo.
Sediada em Valinhos, no interior de São Paulo, a Pronutrition projeta crescer 20% neste ano. A empresa está prestes a inaugurar uma fábrica com 8,5 mil m2, com capacidade para entregar em 30 dias o equivalente a um ano da produção da unidade atual.
O consumo das canetas emagrecedoras também impactou positivamente as vendas da Maxinutri. O farmacêutico Fernando Ferdinandi, fundador e presidente da empresa, afirma que o faturamento nas categorias de produtos que compõem a cesta de consumo dos usuários de canetas emagrecedoras foi superior a 10%. Com sede em Arapongas, no Paraná, a empresa registrou faturamento de R$ 345 milhões em 2025.
“As canetas emagrecedoras, sem dúvida alguma, deram uma grande mexida na dinâmica do mercado. A vitamina B12, cujo market share da Maxinutri chega a 45%, teve um aumento gigantesco de vendas” afirma Ferdinandi.
A marca vem investindo em produtos como a B12 Plus, a B12 em gotas (para quem evita cápsulas), o cappuccino proteico e gomas com alto teor de fibras. “O mercado brasileiro ainda não despertou para o consumo de fibras, mas é algo extremamente importante e creio que o consumidor deva colocar no radar”, avalia.
Para sustentar essa demanda, a Maxinutri vai expandir a produção. Atualmente, a planta produz 2,6 milhões de unidades por mês, operando com 100% da capacidade no turno diurno e pouco mais de 50% no noturno. Com a ativação total das linhas e a conclusão de uma nova expansão em dezembro, a capacidade produtiva deve saltar para 4,5 milhões de unidades mensais. Direcionada ao varejo farmacêutico, a marca está presente em 83 mil das 94 mil farmácias brasileiras, diz Ferdinandi.
A fase de adaptação estrutural impulsionada pela popularização das canetas emagrecedoras é classificada como o novo normal do setor, diz Victor Comper, cofundador da Dobro, com sede em São Paulo. A empresa faturou R$ 40 milhões em 2025 e projeta receita de R$ 50 milhões neste ano. Embora o faturamento direto do negócio ainda não tenha sofrido um impacto considerável pelo uso das canetas emagrecedoras, porque o público majoritário é de esportistas voltados a treinos de esforço físico prolongado, a empresa está se adaptando às movimentações indiretas do mercado estético.
Comper diz que uma das principais mudanças é a rejeição a sabores “indulgentes” (muito doces ou pesados) por usuários de canetas para tratar a obesidade. Isso porque o uso do medicamento inibe o apetite e altera a percepção de sabor. A tendência agora são os sabores tropicais e refrescantes, como maracujá, tangerina e laranja, em detrimento de opções clássicas como caramelo, chocolate e baunilha. “Quem tomava um shake de proteína ou comia uma barrinha de 50g de chocolate proteica não está mais conseguindo”, diz.
Baseada em pesquisas apontando mudanças no paladar de usuários de canetas, a Dobro desistiu do lançamento de uma creatina sabor chocolate e baunilha e optou por um produto nos sabores frutas amarelas e vermelhas. Outra aposta da Dobro são embalagens menores de suplementos.
Aline Goettert ressalta que as canetas emagrecedoras não eliminam a necessidade de acompanhamento nutricional qualificado, contudo, são uma oportunidade para a indústria de suplementos. “Surgem categorias voltadas à manutenção da massa muscular, ingestão adequada de proteínas, saúde intestinal, fibras alimentares, vitaminas, minerais e suporte nutricional durante o processo de perda de peso. É a busca disso com preservação da saúde.”
Ver também Hypera, Sun Pharma e Sandoz entram na disputa das canetas
Fonte: Valor Econômico