O Relatório Focus divulgado nesta segunda-feira (13) pelo Banco Central do Brasil mostrou nova piora nas expectativas de inflação para 2026: a projeção do mercado para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu para 4,71% — acima do teto da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), que é de 4,50%. Foi a quinta semana de alta consecutiva nas estimativas coletadas pelo BC junto a instituições financeiras.
A deterioração das expectativas tem sido acentuada. Há quatro semanas, a projeção para o IPCA de 2026 estava em 4,10%. No dia 2 de março — última divulgação do Focus antes do início do conflito militar entre Estados Unidos, Israel e Irã —, a estimativa era de 3,91%. Em pouco mais de seis semanas, portanto, a expectativa saltou 0,80 ponto percentual, ultrapassando o limite superior da banda de tolerância da meta de inflação.
Essa piora nas expectativas reflete um ambiente de incerteza crescente, tanto no cenário externo quanto no doméstico. O conflito geopolítico no Oriente Médio trouxe pressões sobre os preços de commodities e sobre o câmbio, enquanto os dados de inflação corrente no Brasil seguiram surpreendendo negativamente. O IPCA de março veio muito acima do previsto: alta de 0,88% no mês, contra expectativa de 0,70% do mercado. Com esse resultado, o índice acumulou 4,14% nos últimos 12 meses — bem acima dos 3,81% registrados no acumulado até fevereiro.
No mercado financeiro, os ativos de risco tiveram comportamento positivo. O Ibovespa registrou seu segundo recorde consecutivo, fechando acima dos 197 mil pontos. O dólar recuou mais de 1%, com a taxa de câmbio se aproximando do chamado “nível psicológico” de R$ 5,00 — patamar comparável ao de abril de 2024. Ainda assim, os fundamentos macroeconômicos seguem sob pressão, e a combinação de inflação corrente e expectativas acima da meta coloca desafios crescentes para a condução da política monetária.
Daqui a pouco mais de duas semanas, no dia 28 de abril, começa a terceira reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de 2026. O encontro ganha relevância adicional justamente por precisar incorporar ao seu cálculo tanto a inflação de março acima do esperado quanto a trajetória deteriorada das expectativas.
Segundo as opções de Copom negociadas na B3, a alternativa mais provável para a reunião é de um corte de 0,25 ponto percentual (p.p.) na Selic, reduzindo os juros referenciais para 14,50% ao ano. Isso representa uma mudança relevante nas expectativas recentes, que apontavam majoritariamente para um corte de 0,50 p.p. — o dobro do que o mercado agora precifica como cenário mais provável.
A revisão nas apostas para a Selic evidencia como a surpresa inflacionária de março e a sequência de altas nas projeções do Focus têm contribuído para uma postura mais cautelosa por parte dos agentes de mercado. Com o IPCA de 2026 já projetado acima do teto da meta e a inflação corrente acelerando além do previsto, o Copom enfrentará pressão para sinalizar — e possivelmente praticar — um ritmo mais gradual de afrouxamento monetário nas próximas reuniões.
Fonte: Forbes Brasil
