A Europa precisa se preparar para assumir um papel maior nas finanças globais diante do recuo do dólar e reforçar sua arquitetura financeira para que o euro amplie sua participação de mercado, afirmou Martin Kocher, dirigente do Banco Central Europeu (BCE) e presidente do banco central da Áustria.
Na semana passada, o BCE apresentou planos para ampliar o acesso ao seu “backstop” de liquidez em euros, em uma tentativa de fortalecer a posição internacional da moeda, e disse que entregará aos líderes da União Europeia uma “lista de verificação” de tarefas, na expectativa de que reformas financeiras debatidas há anos finalmente ganhem urgência.
As iniciativas do BCE ocorrem em um momento em que a relação cada vez mais turbulenta da Europa com os Estados Unidos e a concorrência econômica crescente da China vêm abalando os fundamentos da política econômica e de defesa, forçando os líderes europeus a repensar o papel da UE no cenário global.
Euro passa a ser visto como ativo de refúgio
“Temos observado há algum tempo um papel mais forte do euro”, disse Kocher em entrevista. “Estamos vendo maior interesse no euro por parte das contrapartes, e acredito que essa seja uma das razões pelas quais temos observado valorização da moeda. O euro está se tornando cada vez mais um ativo de refúgio”, afirmou.
O euro acumula alta de 14% frente ao dólar em relação a um ano atrás, em parte pela perda de confiança nos Estados Unidos, em meio a políticas comerciais erráticas, e em parte pelo aumento da confiança na Europa, diante de maiores gastos com defesa e infraestrutura.
Papel maior pode ser imposto
Mais da metade das reservas cambiais globais ainda está alocada em dólares, mas essa participação vem caindo de forma constante na última década, e uma nova retração é esperada — beneficiando parcialmente o euro, que hoje detém cerca de 20% do mercado.
Segundo Kocher, esse realinhamento global pode colocar o euro em um papel mais relevante, e o bloco precisa estar preparado para isso. “Não é um objetivo ampliar o papel internacional do euro, mas podemos ser forçados a isso”, disse. “É importante estar bem preparado.”
“Por isso estamos discutindo repos internacionais, swaps ou quaisquer instrumentos disponíveis na caixa de ferramentas para estabilizar o sistema financeiro internacional”, acrescentou. “Isso é preparação e faz parte do mandato de garantir a estabilidade financeira.”
A presidente do BCE, Christine Lagarde, deve anunciar ainda nesta semana os detalhes do novo mecanismo de “backstop” em euros do banco central, comumente conhecido como linhas de recompra (“repo lines”).
Kocher acrescentou que a comunicação do governo americano sobre o dólar não aponta para qualquer reversão de postura.
“Houve declarações da administração dos EUA indicando que não há grande preocupação com a desvalorização do dólar”, afirmou. “Se os Estados Unidos não estão preocupados, isso significa que não devem adotar contramedidas em relação ao que ocorreu.”
Política monetária compatível com a meta
Sobre a política monetária da zona do euro, Kocher disse estar confortável com a postura estável do BCE e afirmou que seria necessária uma mudança material no ambiente para que o banco central discutisse um ajuste em sua orientação.
O BCE manteve os juros inalterados na semana passada, preservando a política estável desde junho, e apresentou uma avaliação tão equilibrada que investidores não veem nenhuma mudança de juros neste ano.
“Acho que os riscos estão agora equilibrados”, disse Kocher. “Tanto em relação ao cenário de inflação quanto ao cenário econômico.”
Embora a valorização do euro ajude a conter a inflação, o movimento cambial ocorreu no primeiro semestre de 2025 e, portanto, já está totalmente incorporado às projeções do BCE. Desde a divulgação das projeções de setembro, o panorama permaneceu amplamente estável.
Kocher afirmou que a taxa de câmbio só seria motivo de preocupação se a inflação se desviasse da meta a ponto de afetar as expectativas de longo prazo.
Por ora, no entanto, trata-se de uma discussão teórica, e nada indica um movimento nessa direção. “Seria necessária uma mudança no ambiente para alterar a postura de política monetária”, concluiu. “No momento, a postura é compatível e está alinhada ao nosso objetivo.”
09/02/2026 08:11:20
Fonte: Valor Econômico
