Autoridades chinesas pediram que bancos limitem as compras de Treasuries, os títulos do governo dos Estados Unidos, e instruíram as instituições com exposição elevada a reduzir suas posições, segundo pessoas familiarizadas com o assunto. As autoridades não estabeleceram metas específicas de tamanho ou prazo, e a diretriz não se aplica às reservas estatais da China em Treasuries.
Embora o pedido tenha sido apresentado como uma medida de diversificação de risco, ele pode reforçar uma tendência global recente que tem levado países como Índia e Brasil a reduzir a exposição ao maior mercado de títulos do mundo, em meio a dúvidas crescentes sobre a atratividade dos ativos americanos. Riscos geopolíticos — como as ameaças do presidente dos EUA, Donald Trump, envolvendo a Groenlândia — aprofundaram o desconforto e estimularam a busca por ativos alternativos, como o ouro.
“É a evidência mais recente de um padrão que está se formando — um sinal de que a expectativa de saídas estruturais de longo prazo do dólar não é apenas uma miragem”, afirmou Gareth Berry, estrategista do Macquarie Group. “Gestores de ativos baseados nos EUA, na Europa — e não apenas na Dinamarca — e agora também na China estão, potencialmente, votando com os pés.”
As posições em Treasuries detidas por investidores sediados na China caíram pela metade, para US$ 682,6 bilhões, o menor nível desde 2008, ante um pico de US$ 1,32 trilhão registrado no fim de 2013, segundo dados oficiais dos EUA. Ainda assim, a Bélgica — cujas posições costumam incluir contas de custódia chinesas — viu suas participações em Treasuries quadruplicarem desde o fim de 2017, para US$ 481 bilhões.
Consideradas em conjunto com as posições chinesas em títulos de agências dos EUA e em ações, os investimentos em aberto da China em títulos americanos permaneceram relativamente estáveis desde o fim de 2023. A China é o terceiro maior detentor estrangeiro de Treasuries, atrás do Japão e do Reino Unido.
“Grande parte dessa dívida é detida por instituições oficiais chinesas e provavelmente tem prazo curto por razões de liquidez”, disse Martin Whetton, chefe de estratégia de mercados financeiros do Westpac Banking Corp. “Assim, o que sobra para os bancos é pouco, e a China não costuma agitar o mercado de Treasuries nos leilões mensais”, acrescentou.
No agregado, as posições estrangeiras em títulos do governo dos EUA avançaram em novembro para o maior nível da série histórica, segundo dados do Departamento do Tesouro. Aumentos nas posições de Noruega, Canadá e Arábia Saudita ajudaram a compensar mais uma queda mensal do total detido pela China.
Os Treasuries superaram seus pares em termos de retorno, em parte graças aos rendimentos elevados. Os papéis acumularam alta de 5,3% nos últimos 12 meses, ficando atrás apenas de Singapura e Israel entre os principais mercados de dívida soberana de economias desenvolvidas.
No mês passado, Trump alertou países europeus contra vendas retaliatórias de ativos americanos em resposta às suas ameaças tarifárias relacionadas à Groenlândia. Embora persistam tensões significativas entre China e os Estados Unidos, as relações se estabilizaram após uma trégua comercial no ano passado.
“Ainda é mais ‘diversificar’ do que ‘desdolarizar’, mas isso pode dar ao mercado mais fôlego para o ‘debasement trade’”, disse Charu Chanana, estrategista-chefe de investimentos da Saxo Capital Markets, em Cingapura. “As reservas da China e os bancos chineses têm objetivos diferentes. Reguladores podem endurecer as regras de exposição dos bancos mesmo enquanto as reservas ainda precisam de ativos líquidos em dólar para intervenção ou gestão de liquidez.”
Fonte: Valor Econômico
