Os Estados Unidos e a Ucrânia estão próximos de assinar um acordo-quadro sobre minerais ainda esta semana, após Kyiv afirmar ter conseguido uma concessão significativa do governo Trump para não considerar a ajuda militar passada no escopo do acordo.
O novo desenvolvimento marca um avanço importante após uma cerimônia de assinatura de uma versão anterior do acordo ter sido cancelada em fevereiro, em consequência do desentendimento público no Salão Oval entre os presidentes Donald Trump e Volodymyr Zelenskyy.
Após esse impasse, Trump insistiu que bilhões de dólares em assistência militar passada dos EUA deveriam ser tratados como empréstimos a serem reembolsados por meio do acordo. Zelenskyy rejeitou essa proposta.
“Foi acordado que a assistência fornecida antes da assinatura do acordo não será contabilizada”, escreveu o primeiro-ministro ucraniano, Denys Shmyhal, em seu canal no Telegram na noite de domingo. Um alto funcionário ucraniano disse que isso pode abrir caminho para a assinatura do acordo-quadro ainda esta semana.
O avanço ocorre após Trump se encontrar com Zelenskyy no Vaticano durante o fim de semana, em uma reunião que o presidente dos EUA descreveu como “maravilhosa” e elogiou o líder ucraniano por “fazer um bom trabalho”. “Eu o vejo mais calmo”, acrescentou Trump. “Acho que ele entende o cenário e quer fazer um acordo.”
Trump também expressou profunda frustração nos últimos dias tanto com a Ucrânia quanto com a Rússia, devido à percepção de que ambos os lados não estariam dispostos a fazer concessões para encerrar a maior guerra da Europa em 80 anos.
“Fiquei muito desapontado que mísseis foram [lançados] pela Rússia… Quero que [Putin] pare de atirar, sente-se e assine um acordo”, disse Trump a repórteres no domingo, em uma rara crítica ao presidente russo Vladimir Putin.
Críticos têm atacado Trump por ser mais crítico e exercer maior pressão sobre Kyiv do que sobre Moscou.
Nesta segunda-feira, Putin declarou um cessar-fogo unilateral para os dias 8 a 10 de maio, quando a Rússia comemora o aniversário da vitória da União Soviética na Segunda Guerra Mundial.
O Kremlin afirmou estar preparado para realizar “negociações de paz sem condições prévias para resolver as causas iniciais da crise ucraniana”, uma referência às exigências maximalistas de Putin para encerrar a guerra.
O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, endureceu ainda mais essas exigências ao declarar nesta segunda-feira que a Rússia considera o “reconhecimento internacional” da anexação de cinco regiões ucranianas como um “imperativo” para qualquer acordo.
A Rússia também quer que um eventual acordo final inclua uma proibição de adesão da Ucrânia à OTAN, além da “desmilitarização e desnazificação” do país, disse Lavrov ao jornal brasileiro O Globo.
Moscou ainda exige que os países ocidentais revoguem as sanções, devolvam US$ 300 bilhões em ativos congelados do banco central russo e forneçam ao Kremlin “garantias de segurança confiáveis” contra “ameaças” da OTAN e de países da União Europeia em sua fronteira, acrescentou.
Trump vê o chamado acordo dos minerais — para a exploração conjunta das terras raras e outros recursos naturais da Ucrânia — como uma forma de recuperar os bilhões de dólares em ajuda militar enviados a Kyiv durante o governo de Joe Biden e de pressionar Zelenskyy para avançar nas negociações de paz mais amplas.
A campanha de pressão dos EUA ficou evidente poucos dias antes do confronto no Salão Oval, quando o secretário do Tesouro, Scott Bessent, visitou Kyiv e exigiu que Zelenskyy assinasse o acordo-quadro inicial em sua presença. A reunião acabou se transformando em uma discussão acalorada.
No domingo, Shmyhal afirmou ter realizado uma “reunião importante” com Bessent para acertar os detalhes finais.
“As equipes jurídicas estão trabalhando no documento. Avançamos bem”, disse ele, acrescentando que a Ucrânia definiu claramente suas “linhas vermelhas”.
Altos funcionários ucranianos já haviam dito ao Financial Times que a exigência dos EUA de usar os recursos provenientes do acordo de minerais para reembolsar a ajuda militar passada poderia comprometer a soberania do país, prejudicar sua candidatura à União Europeia e não seria aprovada pelo parlamento ucraniano.
Muitos parlamentares ucranianos, incluindo alguns do partido governista de Zelenskyy, expressaram preocupações sobre o acordo de minerais e disseram ao FT que não votariam a favor de um mau acordo.
Altos funcionários ucranianos informaram ao FT que o acordo-quadro em fase final se aplica a todos os recursos minerais, incluindo petróleo, gás e grandes ativos de energia em todo o território ucraniano.
“O acordo deve estar em conformidade com os compromissos europeus e não deve contradizer a Constituição e a legislação da Ucrânia”, afirmou Shmyhal, sugerindo que o novo acordo está no caminho certo para atender às preocupações de Kyiv.
Kyiv e Washington assinaram um memorando de intenções no início deste mês, comprometendo-se a avançar em um acordo sobre a parte do fundo de investimento voltada para os recursos naturais e ativos energéticos da Ucrânia.
As negociações têm sido tão sensíveis que Zelenskyy ordenou, no início deste mês, a abertura de uma investigação sobre o vazamento da proposta anterior dos EUA, incluindo a realização de testes de polígrafo em funcionários do governo.
Em entrevista à Fox News no domingo, o conselheiro de segurança nacional dos EUA, Mike Waltz, disse estar confiante de que o acordo “será concretizado”.
“Os negociadores trabalharam duro durante o fim de semana”, disse ele, acrescentando que Trump “está determinado a fazer isso acontecer”.
Fonte: Financial Times