Por Humeyra Pamuk, Michael Martina e Patricia Zengerle, Reuters, Valor — Washington
09/02/2023 13h28 Atualizado há 12 horas
Os EUA estudam a possibilidade de tomar medidas contra entidades ligadas ao aparato militar chinês que respaldaram o voo de um balão de espionagem que ingressou no espaço aéreo americano na semana passada, disse ontem uma autoridade do Departamento de Estado.
O governo americano diz ter certeza de que a fabricante do balão chinês, abatido por um caça americano no fim de semana, tem “relação direta” com o Exército de Libertação do Povo (ELP, nome oficial do Exército chinês), disse a fonte. A empresa não foi identificada, mas ela atuaria ainda na área de publicidade com balões.
O FBI (a polícia federal americana), que lidera os esforços para analisar os destroços recuperados do balão, disse à imprensa ter obtido evidências físicas limitadas e que ainda não tem informações suficientes para avaliar os recursos do objeto “Está muito cedo para conclusões e as evidências recuperadas são extremamente limitadas”, disse uma autoridade do FBI.
Mas a fonte do Departamento de Estado disse que análises de imagens do balão feitas por um avião americano U-2 indicam outra coisa. “O equipamento do balão de alta altitude era claramente para vigilância de inteligência e inconsistente com o equipamento de balões meteorológicos”, disse a autoridade. “Havia várias antenas (…) provavelmente capazes de localizar e coletar comunicações. O balão foi equipado com grandes painéis solares, o suficiente para produzir a energia necessária para operar vários sensores ativos de coleta de inteligência.”
Segundo outras autoridades, os EUA não tiveram acesso à maior parte da “carga útil” do balão, onde provavelmente estavam os dispositivos eletrônicos — e disseram que parte dela está submersa.
Paralelamente, ao falar à Comissão de Relações Exteriores do Senado, a vice-secretária de Estado Wendy Sherman disse que o balão chinês é mais um sinal dos esforços de Pequim de reformular a ordem internacional. “Esse ato irresponsável deu plena demonstração do que reconhecemos há muito: que a China se tornou mais repressiva internamente e mais agressiva no exterior”, afirmou Sherman.
Segundo ela, Washington continuará a impedir a China de usar tecnologia americana para fomentar a modernização de seu aparato militar. E acrescentou que a violação da soberania americana perpetrada pelo balão é “o mais recente exemplo” do esforço chinês.
No entanto, ela disse esperar que Washington e Pequim possam continuar a trabalhar juntos em questões de interesse comum, como a mudança climática, “nestes tempos difíceis”.
A presença do balão sobre o território dos EUA fez com que o secretário de Estado americano, Antony Blinken, cancelasse viagem a Pequim que, segundo esperavam os dois países, repararia as relações estremecidas entre eles.
A chegada de Blinken a Pequim estava prevista para o domingo. Em vez disso, a grande quantidade de pedidos de informes e de audiências de ontem chamou a atenção para o nível de pressão sofrida pelo governo do presidente Joe Biden para abordar o incidente.
Parlamentares democratas e republicanos criticaram duramente o governo Biden por não ter derrubado o balão a tiros assim que ele ingressou no espaço aéreo americano, em vez de esperar uma semana para tomar a medida.
Uma votação na Câmara aprovou, por 419 votos a 0, uma resolução que condena a China pela incursão. Parlamentares americanos exigiram mais informações do governo Biden sobre o incidente.
A Força Aérea dos EUA derrubou o balão quando ele sobrevoava a Carolina do Sul, na direção do oceano, uma semana após ele ter ingressado no espaço aéreo dos EUA. O Ministério das Relações Exteriores da China disse que era um balão meteorológico que tinha desviado da rota e acusou os EUA de reagir de forma exagerada.
Ontem, Mao Ning, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês desqualificou acusações de que o balão seria parte de uma frota de espionagem de âmbito mundial, ao dizer que a acusação poderia ser parte de “uma guerra de informações contra a China”.
Segundo o funcionário do departamento de Estado que conversou ontem com jornalistas, a China teria feito voos de vigilância semelhantes sobre mais de 40 países em cinco continentes, disse a autoridade. Um destes balões, indicou Washington, sobrevoava países da América do Sul no mesmo fim de semana.
Oficialmente, Ned Price, porta-voz do Departamento de Estado americano, disse na sessão de informações da Câmara de ontem que essa atividade de espionagem por balões já ocorre “ao longo de vários anos”.
A China usou esses balões para coletar inteligência em mais de 40 países nos cinco continentes, afirmam os EUA. O governo americano, no entanto, tem insistido na tese de que os balões não deram à China uma capacidade de coleta de informações acima do que já possui via satélite e outros meios..
Fonte: Valor Econômico

