Por Victor Rezende — De São Paulo
20/10/2022 05h04 Atualizado há 7 horas
O Banco Central voltou a oferecer liquidez ao mercado de câmbio por meio de um leilão de linha de dólares, no valor de US$ 1 bilhão. A operação, que consiste na venda de dólares com o compromisso de recompra em uma data definida, é uma reação ao aumento do cupom cambial, a taxa de remuneração dos investimentos em moeda estrangeira feitos no Brasil, que sobe nos momentos em que há fluxo negativo de dólares. No mercado à vista, o dólar fechou ontem em alta de 0,42%, a R$ 5,2747.
No fim de setembro, o mercado de cupom cambial já havia dado sinais de estresse, o que levou o BC a atuar de forma mais ativa, com dois leilões de linha. Houve um alívio pontual no mercado, mas a perspectiva de um fluxo cambial negativo à frente emite sinais sobre a possibilidade de novas atuações.
O cupom cambial é a taxa de juros paga dentro do país para investimentos em dólar e, na prática, define a atratividade para investidores estrangeiros no Brasil. Na terça-feira, o cupom cambial de curtíssimo prazo chegou a 5,40%, um nível bastante elevado, o que levou o Banco Central a atuar. Ontem, a autoridade monetária aceitou duas propostas, que totalizaram US$ 3 bilhões, em um leilão de linha para a rolagem do vencimento de 3 de novembro. Além disso, o BC fez um leilão de linha extraordinário, onde aceitou duas propostas que somaram US$ 1 bilhão.
No fim da tarde de ontem, o cupom cambial de curtíssimo prazo operava a 4,98%. Houve alívio também em prazos um pouco mais longos. O FRA de cupom para dezembro de 2022 caiu de 4,84% para 4,75%. Já em prazos mais longos, a pressão altista teve continuidade: o FRA de cupom para janeiro de 2024, por exemplo, subiu de 6,07% para 6,11%.
“O BC tinha oferecido ‘linha’ no fim de setembro, já que havia uma pressão no dólar ‘spot’ devido ao fechamento de trimestre e o vencimento dessa linha seria em 3 de novembro. Com o passar do tempo e a proximidade do vencimento da linha, o dólar ‘casado’ [a diferença entre o dólar futuro e o à vista] voltou a ficar pressionado, já que o BC ainda não tinha anunciado a rolagem dos leilões de linha feitos em setembro”, observa um profissional da mesa de câmbio de uma grande instituição financeira local.
O custo de funding mais alto devido ao processo de aperto monetário nos Estados Unidos e o recente estresse visto no risco Brasil medido pelo CDS de cinco anos são fatores citados pelo profissional, que contribuem adicionalmente para uma piora no cupom cambial curto. “Faz sentido o BC oferecer a rolagem e ainda ofertar uma linha adicional. A grande questão é se a falta de dólar é temporária ou se estamos diante de uma nova realidade, com funding mais caro”, diz.
Esse profissional acredita que, no fim do ano, a pressão no dólar à vista faz sentido “e, com isso, o BC deve se manter ativo, ofertando linha para o mercado”. Para ele, a dúvida do mercado neste momento se dá em como o Brasil irá se posicionar em um mundo mais desglobalizado e com funding mais caro. “Se continuar essa melhora nos preços das commodities e a China se reerguer, temos chances de sair bem dessa situação e com fluxo positivo, enquanto o mundo vive um momento de incerteza.”
A sazonalidade de fim de ano, porém, joga contra a ideia de menor pressão à frente no mercado, o que pode favorecer, de fato, uma postura mais ativa do Banco Central, na tentativa de prover liquidez. Os estrategistas do Citi acreditam que os leilões de linha realizados ontem pela autoridade monetária devem ajudar na normalização do funding em dólar. “Se o estresse de funding persistir, mais leilões são prováveis”, ressaltam. Vale apontar que o instrumento da “linha” costuma ter efeitos pontuais.
O operador da tesouraria de um grande banco acredita que o BC pode precisar aumentar sua presença e oferecer dólares por meio de novos leilões de linha “para suprir eventuais momentos de falta de liquidez”. “Com o processo de normalização dos juros nas economias desenvolvidas, especialmente nos Estados Unidos, diminuiu a atratividade das operações de arbitragem e de investimentos com ‘hedge’ cambial no Brasil”, afirma o operador. Ele aponta que esse fator fez com que a oferta de dólares no mercado à vista diminuísse.
Ele, inclusive, observa que fatores sazonais também podem afetar o comportamento dos mercados de câmbio e de cupom cambial, como tradicionalmente ocorre ao longo do quarto trimestre, especialmente em dezembro.
Em termos de fluxo comercial, ele nota que os últimos três meses do ano costumam ser menos relevantes do que outros períodos do ano. Já em relação ao fluxo financeiro, enfatiza que o fim do ano é o período de maior destaque, “porque as remessas para a matriz das empresas locais atingem o teto e há uma liquidez bastante restrita no mercado ‘spot’ ”.
O fluxo cambial já tem começado a desacelerar em relação ao início do ano. Dados do BC de ontem mostram que, nas duas primeiras semanas do mês, houve saída líquida de US$ 2,017 bilhões no fluxo cambial. No ano, o fluxo cambial é positivo em US$ 15,318 bilhões. (Colaborou Marcelo Osakabe)
Fonte: Valor Econômico