O investidor estrangeiro tem feito escolhas bem diferentes no mercado brasileiro nos últimos meses. Enquanto retirou US$ 6,5 bilhões de ações e fundos, em agosto, manteve dinheiro entrando em títulos de dívida. E, quando se olha especificamente para a dívida pública brasileira, há outro dado que chama a atenção: os não residentes encerraram o mês passado com R$ 886,3 bilhões em títulos públicos federais, dos quais 70,35% estavam aplicados em papéis prefixados.
Os números, divulgados na segunda-feira (28) pelo Banco Central (BC) e pelo Tesouro Nacional, ajudam a mostrar onde o investidor estrangeiro está disposto a correr o chamado “risco Brasil” — e o que essa escolha pode dizer, ou não, para investidor brasileiro.
No acumulado de janeiro a agosto, os estrangeiros retiraram US$ 3,8 bilhões de ações e cotas de fundos, enquanto as aplicações em títulos de dívida superaram as saídas em US$ 15,3 bilhões. O contraste, porém, exige algumas ressalvas.
A primeira é que a saída de ações e fundos está fortemente concentrada em agosto. Até julho, o saldo do ano era positivo em cerca de US$ 2,7 bilhões. Do volume total retirado nos oito meses, cerca de US$ 2,5 bilhões saíram de fundos e US$ 1,3 bilhão de ações, segundo levantamento de Mario Machado, assessor de investimentos da InvestSmart/XP.
A segunda é que nem todos os US$ 15,3 bilhões foram destinados à renda fixa negociada no Brasil. Desse total, US$ 6,1 bilhões correspondem a títulos negociados no mercado doméstico. Os outros US$ 9,2 bilhões vieram de títulos emitidos por brasileiros e negociados no mercado internacional — principalmente dívida do próprio governo federal emitida no exterior —, que segue uma dinâmica diferente dos papéis em reais.
Juro alto deixa renda fixa brasileira competitiva
Para Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, os juros são uma parte importante da preferência relativa por títulos, mas não explicam tudo. “Não é uma fuga do Brasil. É uma escolha de onde carregar o Brasil”, resume.
Ao investir em ações, explica Brás, o estrangeiro fica exposto aos resultados das empresas, preço das ações, atividade econômica, volatilidade e governança. Nos títulos públicos, continuam existindo riscos — como o soberano, fiscal, cambial e de oscilação dos preços dos papéis —, mas a remuneração oferecida ajuda a compensá-los. “Juro alto não elimina o risco Brasil. Ele define quanto o mercado exige para carregá-lo”, afirma.
Também entram na conta a trajetória fiscal, a dívida pública, o câmbio, as perspectivas para a economia e a incerteza associada ao cenário eleitoral. “Para um investidor global, a pergunta não é simplesmente se o Brasil está barato ou caro, mas quanto o país remunera em relação às alternativas disponíveis em outros mercados e ao risco assumido. Capital estrangeiro não tem patriotismo nem antipatia. Tem preço”, diz Brás.
Machado chama atenção, porém, para um detalhe: o ingresso nos títulos domésticos diminuiu em relação ao ano passado. Os US$ 6,1 bilhões recebidos de janeiro a agosto ficam abaixo dos US$ 9,4 bilhões do mesmo período de 2025. O salto recente ocorreu nos títulos negociados no exterior, que passaram de saída líquida de US$ 3,4 bilhões para ingresso de US$ 9,2 bilhões.
Portanto, não é possível atribuir todo o aumento dos investimentos estrangeiros em títulos à Selic elevada. Ainda assim, Machado calcula que, com a taxa básica em 13,75% e inflação esperada de 4,65% para os próximos 12 meses, o juro real esperado está próximo de 8,7% ao ano.
Sete em cada dez reais do gringo estão em prefixados
O Relatório Mensal da Dívida, divulgado segunda-feira (28) pelo Tesouro Nacional, permite enxergar mais de perto o que o estrangeiro carrega na dívida pública brasileira.
Os não residentes aumentaram em R$ 7,2 bilhões seu estoque de títulos públicos federais em agosto, para R$ 886,3 bilhões. Com isso, passaram a deter 9,91% da Dívida Pública Mobiliária Federal interna (DPMFi), ante 9,82% em julho. Sendo que 70,35% da carteira dos estrangeiros está em títulos prefixados, como o Tesouro Prefixado.
A concentração chama atenção em um momento no qual o BC já iniciou a redução da Selic, mas ainda há incerteza sobre a velocidade e a extensão do ciclo de cortes. Nos prefixados, o investidor garante no momento da compra a taxa que receberá caso mantenha o papel até o vencimento. Os títulos também podem se valorizar antes do vencimento se as taxas cobradas pelo mercado caírem — e perder valor se elas subirem.
O dado, porém, não permite concluir sozinho que o estrangeiro esteja simplesmente “apostando na queda da Selic”, já que o relatório mostra o estoque da carteira, mas não informa quando cada papel foi comprado, a qual taxa ou qual será a estratégia do investidor.
E a pessoa física deve fazer como o investidor estrangeiro?
Aqui, os especialistas fazem uma ressalva importante: não. O comportamento do estrangeiro ajuda a entender como grandes investidores estão avaliando os ativos brasileiros, mas não deve ser usado isoladamente para decidir onde colocar o próprio dinheiro.
Isso fica ainda mais claro quando se olha para os preços: apesar da saída de estrangeiros de ações e fundos até agosto, o Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, acumula alta de 13,6% em 2026 e o dólar cai cerca de 5% frente ao real. Fluxo estrangeiro é apenas uma das forças que movimentam bolsa e câmbio.
Além disso, estrangeiros e brasileiros fazem contas diferentes. “O estrangeiro decide em dólar, compara o Brasil com outros emergentes, pode ou não fazer hedge [proteção] do câmbio e tem uma tributação diferente da do residente”, explica Machado. “Usar o fluxo estrangeiro como sinal é olhar pelo retrovisor”, já que o dado de agosto, lembra, só ficou conhecido no fim de setembro, quando os preços já haviam se movimentado.
Brás ressalta que uma taxa de juros elevada em reais também não representa necessariamente o retorno que chegará ao estrangeiro em sua moeda, já que câmbio e eventual custo de proteção fazem parte da conta. “Copiar a carteira do estrangeiro sem copiar sua moeda, seu hedge e suas obrigações é copiar metade da estratégia e assumir o risco inteiro”, afirma.
Para a pessoa física, o principal recado dos números é outro: a renda fixa continua oferecendo remuneração elevada, o que aumenta a régua para assumir o risco da bolsa. “Renda fixa boa não torna a Bolsa ruim. Torna a Bolsa cara de errar”, diz Brás.
Ao mesmo tempo, esperar que uma eventual migração para ativos de maior risco apareça completamente nos dados de fluxo também pode significar chegar depois de parte da valorização. A decisão do investidor brasileiro deve considerar objetivo, prazo, necessidade de liquidez e tolerância a risco — e não simplesmente reproduzir a carteira do estrangeiro. Como resume Brás: “O gringo pode surfar o juro. O brasileiro mora no mar.”
Fonte: Valor Investe
