Não foi só o curto prazo que machucou os multimercados macro, cuja gestão se pauta pelo diagnóstico de economias e na escolha de quais ativos se traduzem em performance quando há a evolução para um determinado cenário. Uma amostra de 92 fundos acompanhada por Samuel Ponsoni, sócio da Outliers Advisory, consultoria estratégica para gestoras de recursos, aponta que em cinco anos só 16% deles bate o CDI.
“Essa é a parte pior da história, não a do primeiro semestre”, afirma. “Se você escolheu seis multimercados em 2021 e só um é que vai bem, é difícil explicar… É a competição dos incentivados? Coisa nenhuma, foram mal.” O especialista diz ser difícil explicar o encolhimento da indústria apenas por um único fator.
Desde 2022, até o fim de junho, os multimercados como um todo tiveram resgates líquidos de quase R$ 675 bilhões. O patrimônio líquido do conjunto caiu de R$ 1,63 trilhão para R$ 1,54 trilhão nesse intervalo, com o número de contas saindo de 5,5 milhões para 3,8 milhões. Os dados são da Anbima, que representa as instituições dos mercados financeiros e de capitais.
O período coincidiu com a inversão do ciclo monetário no mundo e no Brasil, que saiu de taxas ultrabaixas no pós-pandemia – quando a Selic foi a 2% ao ano – para o duplo dígito de 15% e hoje em 14,25% ao ano. Mudanças tributárias também moveram o fluxo. O fim do diferimento tributário em fundos fechados e reservados a poucos cotistas para gestão de fortunas familiares foi um dos principais vilões.
Boa parte das estruturas usava a casca de multimercados pela flexibilidade e por meio dela também investia em fundos macro de referência. Com a incidência do come-cotas (o imposto semestral que já recaía nos portfólios abertos de renda fixa, multimercados e cambiais), decretado no fim de 2023, os veículos usados para adiar o pagamento de imposto à perder de vista foram desmembrados. Muito dinheiro foi para carteiras administradas com títulos isentos para a pessoa física. Até então, havia certa tolerância a variações de performance porque o diferimennto tributário compensava. Os investidores começaram a separar o que valia pagar 2% de taxa de administração com 20% de performance nos “hedge funds” brasileiros.
A Anbima mostra que o volume financeiro em carteiras administradas saiu de R$ 870 bilhões em dezembro de 2022 para R$ 1,39 trilhão em marco de 2026. Mas cerca de R$ 800 bilhões ainda estavam alocados em cotas de fundos.
“Tivemos uma geração de gestores que foi brilhante, mas não houve movimento de sucessão”, diz Ponsoni. Mesmo em casas em que o principal nome não responde pela maior fatia do risco, ele cita não haver um substituto à altura daqueles que fizeram a fama das estratégias macro no Brasil.
A consolidação e fechamento de assets que se observa deve ter novos capítulos. A transferência das carteiras da Novus Capital para a Occam e para a Leto, já uma dissidência recente da vertical de crédito da JGP, de André Jakurski, é um desses sinais. Outras se transformaram praticamente em family offices, cuidando do dinheiro próprio e de amigos e familiares.
“Chega uma hora que a asset não consegue reter os profissionais, e um ‘turnover’ grande acaba impactando o retorno dos fundos, a asset entra na espiral da morte”, diz Ponsoni. Para remunerar talentos de maneira competitiva, ele calcula que o patrimônio precise oscilar entre R$ 2 bilhões e R$ 3 bilhões. Abaixo disso, vão definhando.
A venda de participação majoritária da Verde Asset, de Luis Stuhlberger, para a Vinci Compass, no fim do ano passado, foi emblemática dos novos tempos. Na SPX, de Rogério Xavier, o sócio-fundador deixou de responder pela maior parte do risco das estratégias de juros neste ano e fechou o QG em Londres, redimensionando as equipes nas demais regiões. Na Kapitalo Investimentos, o maior sócio já é Bruno Cordeiro, gestor do K10, e não o fundador Carlos Woelz, que fez a meritocracia prevalecer na estrutura da partnership, pensando na longevidade do negócio.
Esse é um campo fértil para que gestoras de recursos globais recrutem talentos no Brasil para compor seu book principal. Foi o caso da Schonfeld, liderada pelo ex-Vinland Andre Laport na América Latina, que contou ao Valor ter o plano de preencher 60 posições neste ano. Fabio Akira, que foi um dos fundadores da BlueLine, que anunciou o encerramento da atividade no fim de 2024, foi contratado pela Millennium para tocar o escritório local da gestora.
Entre os grandes bancos, o Itáu, que por meio do fundo Rising Star, investiu na BlueLine, segue no compasso de trazer equipes para o seu modelo multimesas, criado para competir com as assets independentes nos anos mais quentes do setor. O último lance, em junho, foi incorporar a equipe da Solana Capital, com R$ 450 milhões, liderada por Cláudio Delbruek, que tinha fundado a asset especializada em ações em 2013.
Os diferentes times alimentam o multimercado Global Dinâmico, que ficou pouco acima do CDI no primeiro semestre, e também têm vida própria. A família de fundos Itaú Artax, liderada por Bruno Bak, está entre as melhores do semestre e se destaca nas janelas de longo prazo. Outros portfólios do multimesas também têm boa performance nos períodos mais longos.
Os fundos macro têm um estigma grande a vencer, de que só ganham dinheiro com taxas de juros caindo, afirma Ponsoni, salvo em 2022, quando ficaram à frente dos hedge funds globais, “e bateram no peito”, por antecipar o ciclo de aperto monetário nos Estados Unidos. “Olhando para o Focus, expectativa da Selic para o fim de 2027 é de 12%, é um juro muito alto ainda.”
O primeiro semestre foi marcado por muita alavancagem em troca de pouco prêmio, e por uma falsa ideia de diversificação entre os gestores. “O racional dos multimercados é achar os caras que têm capacidade de fazer ‘market timing’, é dificílimo.”
As conversas com alocadores não têm sido fáceis, diz Fabio Landi, sócio da Adam Capital, que chegou a integrar o clube das maiores assets independentes do país, com mais de R$ 30 bilhões, e hoje reúne cerca de R$ 3 bilhões.
“A expectativa é que os fundos macro retornem 140% do CDI e não podem ter um ‘drawdown’ [recuo do pico] de 6%, 7%?”, questiona. “Tudo isso com o CDI a quase 15%, concorrendo com títulos incentivados. Não está funcionando. O erro para o gestor custa muito.”
Ele diz que a gestora subiu o perfil de risco das carteiras, a exemplo dos hedge funds globais, cujos investidores de varejo aceitam oscilações mais altas na ponta. A volatilidade de longo prazo oscila entre 8% e 12%.
“Assim você evita sair vendendo por conta do ‘stop loss’ [o teto de oscilação previsto no mandato]”, afirma Landi. Há um educacional que tem sido feito com os agentes de mercado, para que a exposição do investidor na classe esteja bem dimensionada. Dentro de casa, a asset tem se dedicado a aplicar a inteligência artificial para trazer mais eficiência à gestão dos fundos e também à calibragem do risco.
Landi ainda vê um bom futuro à frente para os multimercados, que têm mandatos modernos e flexíveis. “Num segundo momento, com as condições mais equalizadas, volta a ser um produto que ficará longe desse cenário que só tem resgates. No tamanho certo, para o cliente certo, tem o seu apelo.”
O multimercado é o melhor produto da indústria porque pode ficar “comprado” ou “vendido” em qualquer classe de ativos, diz Andre Bannwart, chefe da família de fundos UBS Evolution. Ele ressalta que a indústria precisa realmente olhar para fora e diversificar as fontes de retorno. Não dá para esperar os juros caírem para que os prêmios embutidos nos preços dos mais diversos ativos se materializem.
20/07/2026 08:15:06
Fonte: Valor Econômico
