O choque tarifário provocado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reacendeu um movimento que, até pouco tempo atrás, parecia superado: o retorno da era dos juros negativos, que havia sido encerrada – ao menos oficialmente – em março de 2024. O aumento da aversão a risco e a consequente valorização de moedas fortes, com exceção do dólar, já intensificam as pressões desinflacionário sobre os bancos centrais. Isso joga luz sobre o caso da Suíça, onde a taxa de juros de referência já está em 0,25% ao ano e boa parte da curva já opera abaixo de zero.
A taxa dos títulos suíços de dois anos oscilava de forma sustentada no campo positivo desde julho de 2022. No entanto, após 8 de abril, na esteira da disparada do franco suíço como busca por proteção após o “tarifaço” de Trump, os juros cederam e voltaram a ficar negativos. Na sexta-feira, a taxa de dois anos da Suíça terminou negociada a -0,130%, na medida em que o mercado precifica chances relevantes de um retorno da política de juros negativos no país.
Os dados de inflação da Suíça mais recentes acenderam o sinal amarelo quanto à possibilidade de ações mais incisivas por parte do Banco Nacional Suíço (SNB) para flexibilizar a política monetária. O índice de preços ao consumidor (CPI) do país frustrou as expectativas ao ficar estável na comparação anual de abril e, assim, mostrar uma desaceleração do nível já baixo de 0,3% da inflação de março. Até mesmo o núcleo do CPI mostrou sinais de desaquecimento, ao sair de 0,9% para 0,6% no mês passado, o que alimentou dúvidas no mercado sobre possíveis ações da autoridade monetária.
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Na semana passada, inclusive, o presidente do SNB, Martin Schlegel, disse que a autarquia está pronta para intervir no mercado de câmbio e para reduzir os juros abaixo de zero caso a inflação fique muito atrás da meta de estabilidade de preços. “Ninguém gosta de taxas de juros negativas; obviamente o SNB não gosta disso”, afirmou o dirigente em um evento em Zurique. “Mas, se tivermos de fazer isso e voltar com as taxas de juros negativas, certamente estamos preparados para fazê-lo novamente.”
Schlegel reconheceu as incertezas no mercado e apontou ainda que o banco central poderá intervir no câmbio, na esteira da forte valorização do franco suíço desde o início de abril. “Nos últimos trimestres, sempre dissemos que estamos prontos para intervir no mercado de câmbio se for necessário”, apontou o dirigente.
Na avaliação de Felix Huefner, economista sênior para Europa do UBS, há três opções sobre a mesa neste momento para o SNB: intervenções cambiais para conter a força do franco suíço; um corte de juros extraordinário antes da reunião de 19 de junho; ou uma redução nas taxas de juros somente em junho. No cenário base do banco, o SNB irá esperar até sua reunião no próximo mês para reduzir a taxa de juros de referência de 0,25% para zero, “mas existe o risco de que isso aconteça antes ou de que o corte seja maior que 0,25 ponto”.
Para Huefner, o SNB não deve hesitar em reintroduzir as taxas de juros negativas para combater uma inflação muito baixa. “Por um lado, há diferenças em relação ao período entre 2015 e 2022, quando a taxa do SNB estava em -0,75% e o Banco Central Europeu (BCE) também tinha juros negativos e realizava compras de títulos, o que é muito diferente hoje. Por outro lado, o SNB está confrontado com a força do franco suíço, como aconteceu durante o último episódio”, observa o economista. Para ele, o nível final dos juros dependerá da força do franco suíço continuar ou, até mesmo, se intensificar mais à frente.
Desde o início do ano, o dólar anota uma queda de 8,39% ante o franco suíço, em um movimento raro de ser observado em mercados desenvolvidos. A magnitude é semelhante à apreciação do real observada neste ano. Há uma diferença, no entanto: a moeda brasileira é apoiada por uma taxa de juros bastante elevada e, de forma natural, o real tende a ser uma divisa de volatilidade mais alta e com reações mais intensas, ao contrário da moeda da Suíça.
Para os estrategistas do Goldman Sachs, uma interrupção mais duradoura da apreciação do franco suíço exigiria a reversão das preocupações com uma recessão global, que impulsionam a moeda. “Isso parece improvável neste momento, e não acreditamos que a moeda esteja particularmente desalinhada em nenhuma direção, seja do ponto de vista cíclico ou estrutural”, avaliam. O banco americano, inclusive, sustenta em seu cenário base reduções nos juros pelo SNB que levem a taxa para -0,25% neste ano, a fim de aliviar a pressão de valorização do franco.
Em relatório enviado a clientes, os profissionais também apontam que houve especulações recentes de que o forte desempenho da moeda suíça em abril tenha sido, em parte, impulsionado pela venda, pelo SNB, de uma parcela significativa de suas participações em ações americanas. “No entanto, acreditamos que fatores mais tradicionais sejam responsáveis pela força do franco. Mais importante ainda, se o SNB vendesse suas participações, acreditamos que o franco não seria o beneficiário óbvio”, dizem os estrategistas do Goldman.
Existe o risco de o corte de juros na Suíça acontecer antes de junho ou de ser maior que 0,25 ponto”
Na medida em que o comércio global e as oscilações do dólar dominam os mercados de câmbio, o estrategista Olivier Korber, do Société Générale, avalia que há chance crescente de o SNB enfraquecer o franco, “indiretamente por meio de cortes nos juros e/ou diretamente por meio de intervenção cambial”.
Ao avaliar as declarações de Martin Schlegel na semana passada, Korber aponta que a probabilidade de juros negativos na Suíça aumentou recentemente, especialmente após os dados mais recentes de inflação. “Os dados mais fracos que o esperado destacam um retorno dos riscos deflacionários, aumentando o risco de uma taxa zero ou negativa em junho”, enfatiza o estrategista.
Nesse contexto, o banco francês deu início a uma posição comprada em dólar contra o franco suíço, ou seja, aposta na desvalorização da moeda da Suíça. Além da parte macro, Korber nota que o mercado de opções de franco suíço está apostando na queda adicional do dólar contra o franco, enquanto as opções que ganham com uma valorização do dólar estão baratas no momento, o que criou uma assimetria na visão do estrategista.
Vale notar que, ao menos no curto prazo, somente a Suíça tem enfrentado essa situação entre os países do G10. “As taxas de juros do SNB já são as mais baixas entre os países desenvolvidos; não estou ciente de outras economias avançadas que estejam tão próximas de zero, tanto em termos de taxa de juros quanto de inflação, como a Suíça”, observa Huefner, do UBS.
No comportamento das curvas de juros, a do Japão é a mais próxima, já que a taxa dos bônus do governo japonês (JGBs) de dois anos está, atualmente, em 0,633% – distante, portanto, do campo negativo, quando se considera que, ao contrário do SNB, o Banco do Japão (BoJ) ainda fala em aperto das condições monetárias e enfrenta uma inflação acima da meta.
Fonte: Valor Econômico

