Há três anos, tudo parecia encaminhado para Blake Xu. O empresário de 33 anos e sua família tinham montado uma carteira de propriedades durante a onda de expansão imobiliária da China. Ele e a mulher esperavam o primeiro filho. Também tinham acabado de vender um apartamento e aplicado metade do dinheiro em ações.
Desde então, o mercado imobiliário entrou em um longo período de queda, o índice referencial de ações chinesas CSI 300 perdeu cerca de 35% do valor e a economia se tornou cada vez mais vulnerável, passando a sofrer com a confiança anêmica do consumidor, os fracos investimentos do setor privado e um desemprego altíssimo entre os jovens.
Xu já retirou quase todo o dinheiro do mercado de ações chinês. Sua próxima saída pode ser da própria China.
“Não sabemos como projetar o futuro”, diz Xu, que vive em Xangai. “Quando nosso filho crescer um pouco mais, pretendemos enviá-lo ao exterior e, talvez, irmos nós também.”
Durante a maior parte de suas vidas, a nova geração de cidadãos da classe média da China deu como garantido que podia contar com uma economia em forte expansão. Agora, contudo, a depressão do mercado imobiliário, a queda no mercado acionário e o mau momento econômico generalizado a têm forçado a confrontar-se com uma dolorosa pergunta: Será que os anos da onda de alto crescimento da China se acabaram para sempre?
Os cidadãos chineses têm gastado menos, economizado mais e evitado investimentos de grande risco. A poupança interna no país chegou a US$ 19,83 trilhões em fevereiro, a maior já registrada, segundo dados do banco central. A confiança do consumidor está perto de seu nível mais baixo em décadas.
A crescente sensação de nervosismo entre os moradores de regiões urbanas na China e os trabalhadores de colarinho branco poderia ser um grande problema para Pequim. Há anos, o governo chinês obtém sua legitimidade da reputação de uma gestão econômica sólida.
Agora, essa reputação parece cada vez mais duvidosa.
Estratégia de saída. Hugo Chen, 30 anos, nasceu durante os estágios iniciais da impressionante transformação econômica da China, que veio após o ex-líder Deng Xiaoping ter recuado nos piores excessos do maoísmo e aberto as portas do país ao comércio internacional.
Chen foi criado na próspera cidade litorânea de Shenzhen e fez mestrado no Reino Unido. Voltou para a China em 2017 para trabalhar em finanças e, assim como muitos cidadãos chineses, decidiu investir no mercado de ações. Também comprou títulos de dívida e investiu em produtos de seguro.
Em 2023, contudo, ele tomou uma difícil decisão: chega de apostas nas ações chinesas.
Chen, um executivo de banco de investimento, havia trabalhado antes ajudando a gerenciar o dinheiro de uma firma de seguros. Ele sabia mais do que a maioria sobre investimentos – e a China não aparentava mais ser um lugar sensato para investir dinheiro.
No fim de 2023, o índice CSI 300 chegou ao terceiro ano consecutivo de quedas. Ainda pior, as ações nos EUA, no Japão e em outros lugares haviam decolado. Aquele deveria ser o século da China, mas a economia e o mercado de ações estavam perdendo terreno para os de outros países.
“Ficar pobre é uma coisa. Ficar pobre enquanto os outros ficam ricos é outra”, diz Chen.
Ele transferiu a maior parte de seus investimentos para fundos que compram ações dos EUA.
A China tem mais de 220 milhões de investidores individuais, de forma que as oscilações do mercado de ações podem ter grande impacto na psique nacional. Antes do declínio, esses pequenos investidores haviam conquistado a reputação de não ter medo de apostar. Depois da queda dos últimos anos, encolheram suas apostas e se voltaram cada vez mais para ativos considerados seguros, como os fundos do mercado monetário.
Ficar pobre é uma coisa. Mas ficar pobre quando os outros ficam ricos é outra”
— Hugo Chen
O setor imobiliário abalou ainda mais a confiança. O que começou, há cerca de três anos, como uma tentativa do governo federal de domar o endividamento excessivo do setor, se transformou em uma longa crise e levou dezenas de incorporadoras imobiliárias à beira da quebra, afetando as fundações de um dos principais propulsores de crescimento do país.
Em fevereiro, o preço dos imóveis usados nas cidades mais desenvolvidas da China caiu 6,3%, em comparação ao mesmo mês de 2023 – a maior queda anual já registrada.
Xu, o empresário, vendeu uma segunda propriedade, um negócio que descreveu como extremamente doloroso. No entanto, ele não se arrepende: o dinheiro lhe dará a flexibilidade que precisa para deixar o país caso a situação piore, diz ele.
“Emocionalmente, torço pelo melhor para este país”, disse Xu. “No entanto, se esta equipe de líderes permanecer por mais tempo, para ser franco, preciso ter uma estratégia de saída, pois a perspectiva é preocupante.”
É precisamente esse tipo de sentimento que deixa as autoridades em Pequim inquietas. Embora o governo chinês mantenha um controle rígido sobre o poder, também é extremamente suscetível ao humor da população.
A população chinesa tem um histórico de manifestações públicas de descontentamento, o que inclui protestos públicos contra bancos e empresas. Pequim tolera certo grau de descontentamento, desde que seus cidadãos sigam um princípio primordial: não culpar o governo central.
No entanto, algumas pessoas no país, de fato, culpam o governo federal pelos atuais problemas econômicos, citando as reviravoltas das políticas em relação às empresas de internet, de ensino privado e do setor imobiliário, assim como a abordagem rigorosa demais para conter a covid-19, que provocou danos duradouros à confiança no país.
A mudança para um quadro de baixo investimento e alta poupança tem alimentado um ciclo vicioso, no qual o tombo da economia corrói os níveis de confiança, que, por sua vez, agravam o mau momento econômico, segundo Yasheng Huang, professor de economia internacional e gestão da MIT Sloan School of Management e pesquisador no Wilson Center.
“Quando uma sociedade se assenta sobre uma determinada psicologia, não é fácil sair dela”, afirma o acadêmico.
Da esperança ao medo. Scarlett Hu, de 37 anos, lembra-se de como foi sua volta à China em 2014. Ela acabara de retornar de estudos no exterior e conseguiu um emprego no segmento de bens de luxo, em Xangai.
“Naquela época, todos estavam cheios de esperança. Havia esse sentimento promissor no entorno”, diz Hu. “Quando saíamos para relaxar após o trabalho, acreditávamos que o futuro seria melhor, por isso ‘vamos nos divertir hoje’.”
Hu comprou um apartamento em Xangai em 2017 e começou a apostar em fundos mútuos, que investem no mercado de ações, em 2020, antes do nascimento do filho. Ela esperava que o dinheiro a ajudasse a pagar o ensino dele. Na época, parecia ser uma boa aposta: o mercado imobiliário estava em alta, e as ações se aproximavam de sua maior pontuação histórica, celebradas pelos otimistas meios de comunicação estatais chineses.
Hoje, o apartamento dela perdeu 15% do valor e sua carteira de fundos mútuos acumula desvalorização de 35%.
“Agora, falamos sobre planos concretos e medidas para garantir um futuro mais seguro, com o foco em formas de aumentar nossa sensação de segurança. Você não sente mais esse tipo de ambição”, diz ela.
O governo chinês tomou medidas para enfrentar a recessão, como a flexibilização das regras de crédito para empresas imobiliárias afetadas, a redução do custo de captação e a promessa de solucionar os problemas de endividamento dos governos regionais. No entanto, Pequim parece relutar em adotar o tipo de estímulo direto aplicado pelos governos ocidentais durante a pandemia, quando pagamentos diretos aos consumidores ajudaram a recolocar os gastos deles nos trilhos.
No início de março, o primeiro-ministro da China, Li Qiang, disse que o governo tinha como meta um crescimento em torno a 5% para 2024, e sinais recentes de melhora têm sido detectados.
Ainda assim, economistas acham que Pequim sofrerá para atingir essa meta de crescimento, e algumas pessoas na China temem que a situação esteja prestes a piorar.
Uma analista de ações de 40 anos que mora em Pequim disse ter perdido o emprego em agosto, quando a firma de consultoria para a qual trabalhava fechou as portas. Ela tem dois filhos para cuidar, a renda do marido é instável e ela se prepara para mais dores financeiras no futuro.
“Todo mundo vem dizendo que este ano ainda poderia ser o melhor dos próximos dez anos, então devemos estar preparados para um longo período de dificuldades”, afirma a analista.
Fonte: Valor Econômico
