Analistas apontam que esta temporada será marcada por uma forte dispersão setorial. Na prática, isso significa que não haverá uma tendência única para os resultados trimestrais. O desempenho de cada empresa dependerá diretamente do setor em que atua.
Além disso, o foco sairá do crescimento acelerado de receitas para a qualidade da execução — ou seja, a capacidade das companhias de gerirem custos, serem eficientes na logística e protegerem suas margens de lucro mesmo em um ambiente de custos elevados.
O vetor da guerra e o “vencedor relativo”
O conflito no Oriente Médio alterou as projeções de inflação e custos globais. Para Marcelo Boragini, especialista em renda variável na Davos Investimentos, o Brasil acaba se posicionando como um “vencedor relativo” devido, principalmente, à exportação de petróleo.
A principal commodity de energia do mundo, que operava próximo de US$ 60, saltou para a casa dos US$ 90 – chegando a superar os US$ 100, o barril –, o que beneficia o setor de óleo e gás. Contudo, há divergências sobre a velocidade desse repasse.
Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, pondera que o setor pode enfrentar limitações na demora do repasse de preços e questões tributárias: “Não é que as empresas de petróleo vão voar, mas, de qualquer forma, vão vir receitas maiores“.
Igor Monteiro, CEO da Eqseed, pontua que “a alta do petróleo em virtude da guerra pode ajudar o setor de exploração e produção, mas como é algo mais recente, o efeito real pode ficar para o segundo trimestre.
Commodities e o dilema do câmbio
O setor de papel e celulose é um dos que mais dividem as opiniões nesta temporada. De um lado, há o otimismo com a melhora dos preços internacionais da celulose. Por outro, o “efeito colateral” do fluxo de capital estrangeiro para o Brasil — que mantém o real valorizado — pode ser uma pedra no sapato.
Enquanto analistas como Monteiro veem o setor bem posicionado, Cruz alerta que o câmbio mais fraco (real apreciado) do que o esperado para março “pode aparecer de forma mais negativa nos balanços das exportadoras“.
No agronegócio, o cenário também é misto. Embora o avanço das commodities agrícolas favoreça a receita, o setor de frigoríficos enfrenta um horizonte turvo devido à logística e ao custo da ração. “O custo maior dos fertilizantes chegando na ração que alimenta os animais antes do abate vai ter um efeito bem longo”, destaca Cruz.
Juros altos e a resiliência doméstica
Apesar do corte na Selic, o nível dos juros brasileiros permanece em patamar restritivo, o que mantém a pressão sobre o varejo e consumo discricionário.
Boragini reforça que o patamar da Selic mantém o endividamento das famílias e das empresas no radar. “Não espere grandes alívios em empresas mais endividadas e cíclicas“, projeta Cruz, sugerindo que o alívio real só deve aparecer nos balanços do próximo trimestre.
Em contrapartida, o setor bancário segue como um bastião de resiliência. Com margens elevadas e uma dinâmica de crédito controlada, os bancos devem reportar resultados sólidos. Por outro lado, a inadimplência elevada segue como vetor negativo, como pontua Monteiro.
“A expectativa dos juros para o curto e médio prazo ficou em patamares mais baixos em boa parte do trimestre, o que barateou financiamentos e deve ter feito as carteiras de crédito andarem“, observa Alexandre Pletes, chefe de renda variável na Faz Capital.
Construção e serviços: onde mora o otimismo
Mesmo com juros pesados, a construção civil voltada para a baixa renda surge como um ponto fora da curva, impulsionada por mudanças regulatórias e ampliação de faixas de programas habitacionais, notadamente o Minha Casa Minha Vida (MCMV), como destaca Cruz.
Entretanto, o consenso não é absoluto: há quem veja um arrefecimento no setor justamente pela manutenção dos juros em níveis que desencorajam novos lançamentos. Pletes acredita que o setor deve dar uma “arrefecida” devido à manutenção dos juros em patamares mais altos do que o anteriormente precificado.
Já setores defensivos e com previsibilidade, como utilidades públicas (energia e saneamento) e telecomunicações, devem confirmar seu papel de “porto seguro” nesta temporada, destacando-se pela consistência na entrega de resultados e proteção contra a volatilidade inflacionária.
O que o investidor precisa observar nos resultados
Para além da linha final do balanço — o lucro líquido —, o investidor deve atentar para indicadores que revelam a saúde real da operação de acordo com cada setor.
Em um trimestre de incertezas macroeconômicas, a “qualidade” do lucro é mais importante do que o valor em si. Verifique, por exemplo, se o resultado veio da atividade principal da empresa ou de eventos extraordinários, como a venda de ativos ou benefícios fiscais únicos.
Em setores como varejo e indústria, a Margem Ebitda é o termômetro essencial para medir a eficiência operacional, mostrando quanto a empresa gera de caixa antes de juros e impostos.
Já para as empresas exportadoras, o foco deve estar no impacto do câmbio médio do período e na oscilação dos custos logísticos (fretes), que podem corroer ganhos vindos da alta das commodities.
Por fim, no cenário de juros ainda restritivos, o índice de alavancagem (relação entre dívida líquida e Ebitda) ganha peso redobrado. Empresas que conseguem manter o endividamento sob controle e gerar fluxo de caixa livre robusto tendem a ser premiadas pelo mercado, pois possuem maior fôlego para atravessar o ciclo de política monetária sem comprometer seus investimentos ou a distribuição de dividendos.
Fonte: Valor Investe
