Como a experiência no setor de cannabis medicinal ainda é um ativo escasso nos currículos, o mercado de trabalho valoriza gestores com histórico de execução na indústria farmacêutica ou em grupos ligados ao setor de saúde. Ter um perfil adaptado para chefiar equipes enxutas e apresentar um conjunto de habilidades estratégicas ou mais “mão na massa” também é importante para garantir uma cadeira de decisão no segmento, segundo executivos do ramo.
“O ‘background’ [histórico de carreira] para assumir funções de liderança é similar ao exigido por farmacêuticas de outros segmentos. Inclui capacidade de estruturar operações e atuar em ambientes regulatórios complexos”, explica Martim Prado Mattos, presidente do conselho da GreenCare Pharma, indústria farmacêutica com 100 funcionários fundada em 2017 e especializada em canabinoides (compostos químicos presentes na cannabis).
Mattos, que foi até 2017 diretor financeiro da farmacêutica Hypermarcas, hoje Hypera Farma, é um dos raros casos de movimentação de carreira em um setor nascente.
Junto com a criação da GreenCare, ele deslanchou com sócios o Greenfield Global, um fundo de venture capital focado na indústria de cannabis. O mecanismo analisou centenas de oportunidades e fechou 16 investimentos. “Estive à frente da GreenCare até 2024 [como CEO], quando passei a me concentrar somente no conselho da companhia e de outras empresas do portfólio do Greenfield.”
Para candidatos que consideram migrar para o segmento, o caminho passa por desenvolver conhecimento regulatório, aprofundar o entendimento clínico sobre os produtos e adotar uma visão de longo prazo nos negócios, ensina o executivo, que percebe um novo momento de consolidação profissional no setor.
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“À medida que a área evolui sob bases regulatórias claras e maior aceitação médica, o perfil dos executivos que lideram essa nova fronteira da saúde também muda”, analisa. “Postos de gerência e alta liderança são ocupados majoritariamente por gestores com trajetória consolidada.”
É o caso de Gustavo Palhares e Guilherme Franco, co-CEOs da Ease Labs, farmacêutica de Belo Horizonte (MG) criada em 2018. A empresa atua no desenvolvimento, produção e entrega de soluções à base de canabinoides em quatro mil pontos de vendas no Brasil, como as redes de farmácias Panvel e Pague Menos.
Antes de co-fundar o negócio, Palhares, que tem mestrado em direito pela Northwestern University, de Chicago (EUA), acumulou mais de dez anos de trabalho em operações internacionais de M&A (fusões e aquisições). Já Franco foi diretor estatutário e cumpriu 13 anos de expediente no mercado financeiro, em corretoras como a Planner.
“Com a evolução da regulamentação do setor, abre-se outro ciclo de crescimento, que permite desenvolver mais produtos e ampliar a conexão com novos geradores de demanda, como veterinários e dentistas”, atestam os executivos, que comandam 140 funcionários e estão à procura de um gerente de novos negócios.
Na opinião da médica Mariana Maciel, CEO da biofarmacêutica Thronus Medical e diretora da Thronus Education, de formação em medicina canábica, há um maior interesse profissional pela área, mas o gestor que se destaca não entende apenas de negócios.
“É o que consegue operar com responsabilidade em um setor que combina saúde, inovação, regulação e impacto humano”, afirma. No ano passado, a Thronus ofereceu aulas e cursos para 780 pessoas.
Fonte: Valor Econômico