Com as últimas tarifas do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre a China agora fixadas em 30%, mais empresas americanas com operações de fabricação no país asiático estão alertando que serão forçadas a aumentar os preços nas próximas semanas, à medida que os estoques diminuem e os custos de envio aumentam.
Michael Wieder, cofundador e presidente da Lalo, fabricante de produtos para bebês, disse que manteve os preços estáveis depois que Trump deu início à última rodada de tensões comerciais, mas está enfrentando pressão para mudar de rumo.
“Os pais estão absolutamente preocupados com o aumento dos preços”, disse Wieder. “Provavelmente teremos que fazer algo até o final de junho ou início de julho.”
Wieder disse que suspendeu os embarques da China no momento em que Trump impôs a tarifa sobre as importações do país de 145% em 9 de abril. Quando Washington reduziu as taxas para 30% em 12 de maio, após negociações bilaterais, ele se apressou em carregar centenas de milhares de itens retidos em fábricas chinesas em contêineres com destino aos EUA.
Ainda assim, Wieder afirmou que isso não daria à empresa tempo suficiente para repor completamente os estoques. Cerca de 90% dos produtos como as cadeiras para bebês vendidas pela Lalo vêm de fábricas no sul da China.
“Podemos ficar sem estoque de alguns produtos essenciais por um tempo”, disse Wieder.
A situação de empresários como Wieder aponta para a incerteza dos consumidores americanos, que têm sido amplamente protegidos dos preços mais altos durante a volátil política tarifária de Trump. Mas, com as margens de lucro sob pressão, mais da metade das empresas americanas pesquisadas pela Allianz Trade no mês passado disseram que teriam que repassar os custos da guerra comercial aos consumidores.
Apesar da redução das taxas de três dígitos sobre as importações chinesas, a tarifa média efetiva dos EUA sobre a China está em torno de 41%, em comparação com a tarifa média da China de 28% sobre as importações dos EUA, de acordo com economistas do JP Morgan.
Embora o escopo dos aumentos de preços permaneça incerto, os consumidores americanos estão cada vez mais cautelosos. Um índice que acompanha o sentimento do consumidor americano caiu em maio para o menor nível desde junho de 2022, quando a inflação atingiu o pico de 9,1%, de acordo com uma leitura preliminar divulgada pela Universidade de Michigan.
Os varejistas americanos vêm estocando produtos desde o início do ano para se antecipar à política tarifária de Trump, embora esse ritmo tenha diminuído. Os níveis de estoque subiram no ritmo mais lento deste ano em abril, de acordo com o Índice de Gerentes de Logística, uma pesquisa mensal com gerentes de cadeia de suprimentos.
Em Chicago, Jimmy Zollo, fundador da Joe & Bella, que produz roupas “adaptáveis” especialmente projetadas para consumidores idosos, disse que se apressou para enviar produtos da China já no outono passado, incorrendo em custos adicionais de armazenagem. Agora, diz que as calças mais vendidas da startup estão cerca de 80% esgotadas.
“Estamos definitivamente abaixo de onde queremos estar”, disse, acrescentando: “Estamos esperançosos de que não precisaremos aumentar os preços, mas precisamos ser um negócio financeiramente viável. É uma linha tênue a ser percorrida.”
Zollo disse que empresas menores como a sua são mais vulneráveis, pois obtêm a maior parte de suas matérias-primas – de tecidos a ímãs e zíperes – da China. “Essas políticas [tarifárias] têm um impacto pesado sobre as empresas menores em comparação com as maiores”, disse.
Uma pesquisa realizada em fevereiro pela Associação Nacional de Fabricantes descobriu que 87% dos pequenos e médios fabricantes dos EUA planejam aumentar os preços, em parte porque a maioria depende de insumos feitos fora do país.
Entre as maiores empresas dos EUA, o Walmart alertou sobre aumentos de preços em uma ampla gama de produtos durante uma recente teleconferência de resultados.
Em resposta, Trump instou o Walmart, em uma publicação nas redes sociais em 17 de maio, a “aceitar as tarifas” e evitar repassar os custos aos clientes. Na semana passada, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, afirmou que a varejista absorveria “parte” dos impactos das tarifas.
Patrice Louvet, CEO da Ralph Lauren, disse em uma teleconferência de resultados na quinta-feira da semana passada que a empresa está avaliando “medidas adicionais de preços” para o final deste ano e início de 2026 para “mitigar o impacto potencial da evolução das tarifas”. A gigante do setor esportivo Nike também anunciou na semana passada que aumentará os preços de alguns calçados nos EUA a partir do início de junho.
O Lenovo Group, fabricante chinês de computadores que detém mais de 10% do mercado de laptops dos EUA, ajustou os preços devido aos aumentos de custos por causa das tarifas, disse o presidente e CEO Yang Yuanqing durante a teleconferência de resultados da empresa na quinta-feira passada.
Em contrapartida, Richard McPhail, diretor financeiro da varejista Home Depot, disse a investidores na semana passada que a empresa pretende manter os preços estáveis, pois diversificou as cadeias de suprimentos nos últimos anos. Mais da metade do que a empresa vende vem dos EUA, acrescentou.
Mesmo empresas não diretamente afetadas pelos aumentos de tarifas estão tendo dificuldades para evitar aumentos de preços. Um dos motivos é que os custos de envio devem aumentar nas próximas semanas.
As tarifas de frete marítimo se recuperaram para US$ 2.276 por contêiner na quinta-feira, um aumento de 10% em relação à primeira semana de maio, de acordo com um índice compilado pela consultoria de transporte Drewry, sediada em Londres.
Kathy Liu, vice-presidente do Dimerco Express Group, disse que as tarifas de frete podem triplicar para mais de US$ 6.000 até meados de junho.
Em Chicago, Zollo afirmou ter suspendido o envio de um pequeno lote de roupas da China após Trump anunciar a tarifa adicional de 145%, embora seus produtos, especialmente projetados para idosos e pessoas com deficiência física, fossem isentos dessas tarifas. Ele entrou em contato com o Congresso dos EUA e com autoridades alfandegárias para esclarecer se a isenção ainda se aplicava, mas não obteve uma resposta clara.
“Ninguém sabia realmente o que estava acontecendo”, disse Zollo. “Esperamos até que a tarifa caísse para 30%.”
Embora a isenção ainda se aplique, Zollo disse que a incerteza política atual afetou seus negócios. A Joe & Bella planeja lançar apenas dois novos produtos este ano, em comparação com mais de uma dúzia em 2024.
“Para nós, o custo adicional foi o atraso, o carregamento antecipado dos estoques e mais taxas de depósito, o que nos fez ter menos dinheiro em caixa”, disse.
Fonte: Valor Econômico
