17/04/2022 – Jornalista: Julio Wiziack
Em conversas privadas, grandes empresários fazem a avaliação de que os juros baixos eram uma das poucas vantagens de Bolsonaro na economia diante da implosão da agenda liberal, que prometia um Estado menor e menos intervenção na atividade econômica.
Em 2019, primeiro ano do mandato de Bolsonaro, a Selic (taxa básica de juros) era de 6,50%. Em 2020, com a pandemia, o Banco Central a cortou para 2% como forma de estimular a economia.
A deterioração do cenário econômico interno e global, porém, fez o BC passar a taxa de 2,75%, no início de 2021, para 11,75%, em março deste ano. A sinalização é que os juros devem continuar em alta.
O impacto dessa alta nas empresas pode ser visto, por exemplo, no balanço da Rumo, braço de logística do empresário Rubens Ometto. A elevação dos juros fez a despesa financeira do grupo com juros e variações monetárias bater em R$ 1,6 bilhão no ano passado, impactando diretamente o resultado líquido ?que foi de R$ 992 milhões.
Em 2019, primeiro ano do mandato de Bolsonaro, essas despesas da companhia foram de R$ 687 milhões, e o resultado líquido, de R$ 1,2 bilhão.
A situação foi ainda pior para a Cosan, do ramo de energia do grupo, que viu o custo da dívida líquida dobrar para R$ 2 bilhões, entre 2020 e 2021.
Ometto é um dos empresários com mais acesso ao presidente Bolsonaro, segundo assessores do Planalto.
Na JBS, gigante global do mercado de proteína animal, não foi diferente. A alta dos juros forçou a empresa a buscar financiamentos e outras formas privadas de levantar capital no exterior, de forma que o custo da dívida ficou R$ 700 milhões acima do patamar de 2019, segundo o balanço da companhia.
Na Riachuelo, do empresário Flávio Rocha, o volume de empréstimos e financiamentos aumentou em R$ 800 milhões entre 2019 e 2021, segundo o balanço da empresa. Nesse período, o grupo enfrentou uma severa crise de consumo devido à pandemia que levou a um prejuízo em 2020, revertido em 2021.
Recentemente, o empresário vem sinalizando que nenhum dos atuais presidenciáveis lhe agrada. Em 2018, ele apoiou Bolsonaro e foi até cotado para ocupar um ministério em seu governo.
Procurada, a Riachuelo afirma, em nota, que nunca apoiou candidatos ou partido político e que nos 75 anos de existência ?preservou seu valor institucional apartidário?.
?A Riachuelo mantém um sólido patamar de caixa de R$ 2,1 bilhões, o que corresponde a 152% da dívida de curto prazo, demonstrando adequada liquidez ante as obrigações futuras do grupo.?
Na Fiesp, a federação das indústrias paulistas, a reclamação contra os juros é frequente nas reuniões de diretoria, segundo relatos.
Procurada, a Fiesp respondeu em nota que ?os altos juros cobrados no Brasil são um problema estrutural e um dos principais entraves para a atividade econômica, o crescimento do país e o progresso social?.
Os ataques estão direcionados ao Banco Central, que se antecipou à alta global de juros e fez, rapidamente, a Selic subir quase dez pontos em pouco mais de um ano.
Boa parte do empresariado reconhece que a Covid e a guerra da Ucrânia agravaram o problema global de escassez de insumos, o que gerou inflação e alta de juros.
Ainda assim, eles acreditam que o cenário possa pesar contra Bolsonaro na campanha. Já o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), dizem, defenderá uma agenda de apoio ao trabalhador e de estímulo à economia na tentativa de atacar os juros.
Assessores de Bolsonaro trabalham para que esse tema não se torne um ponto fraco do presidente durante a campanha, levando o empresariado a retirar seu apoio.
Diante da ameaça de corrosão de seu apoio na campanha, o presidente corre para liberar dois programas de financiamento às empresas do país, especialmente pequenas e médias, que têm mais dificuldade em buscar recursos no mercado financeiro.
O foco de Bolsonaro será nessas empresas porque elas respondem por mais de 90% dos empregos formais do país. Já as grandes companhias ?que se endividaram no exterior ou lançaram papéis no mercado? surfam neste ano com a desvalorização do dólar.
Segundo a consultoria Economatica, essa queda garantiu ao menos R$ 47 bilhões em ganhos financeiros no resultado das cem maiores companhias abertas do país no primeiro trimestre deste ano.
Bolsonaro teve de convencer o ministro da Economia, Paulo Guedes, a buscar recursos para viabilizar novamente o Pronampe, programa que busca destravar o crédito em bancos por meio de garantias concedidas pelo governo, e o Peac (Programa Emergencial de Acesso a Crédito).
O projeto que prorroga o Pronampe foi aprovado pela Câmara dos Deputados na terça-feira (12) e, para isso, o governo federal teve de fazer um depósito bilionário no FGO (Fundo Garantidor de Operações), que ficará responsável por honrar os pagamentos em caso de inadimplência das empresas.
Também injetou recursos no FGI (Fundo Garantidor para Investimentos), vinculado ao Peac, outro programa de crédito destinado às empresas e coordenado pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).
Ambos os fundos encerraram as contratações no final de 2020. A legislação vigente exige que os pagamentos dos empréstimos já contratados retornem para a União. Por isso, os projetos de lei são necessários para uma nova rodada de financiamentos.
O pacote deve contar ainda com cerca de R$ 600 milhões do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) no Fampe (Fundo de Aval para a Micro e Pequena Empresa).
Fonte: Folha de S.Paulo