O UBS adotou uma postura seletivamente construtiva com as commodities agrícolas, apostando que os riscos climáticos passarão a pesar mais do que o alívio trazido por estoques confortáveis. Segundo o banco, previsões da NOAA e do Bureau of Meteorology da Austrália apontam para possíveis condições de El Niño na segunda metade de 2026, elevando o risco de rupturas nas principais regiões produtoras. Embora a intensidade do fenômeno ainda seja incerta, episódios passados costumaram trazer choques de oferta, estoques mais apertados e volatilidade de preços acima da média — e o Brasil ocupa posição central em vários dos mercados citados.
No café, a exposição brasileira é decisiva. O país responde por cerca de 40% da produção global de arábica, enquanto o Vietnã concentra aproximadamente 40% do robusta. Ambos são altamente sensíveis a mudanças de chuva nos períodos críticos de floração e crescimento. Historicamente, o El Niño criou condições mais quentes e secas durante a floração no Brasil, e episódios anteriores geraram altas de preço do café entre 20% e 50%. Mesmo com a expectativa de outra grande safra brasileira, o UBS nota que os preços seguiram resilientes — sustentados por estoques certificados excepcionalmente baixos, vendas contidas dos produtores e incerteza sobre a produção futura. O café subiu 7,4% no segundo trimestre e 22,4% nos últimos 12 meses, e o banco alerta que uma deterioração do clima na floração brasileira ou uma seca mais intensa no Vietnã poderia levar o mercado a reprecificar rapidamente uma oferta mais apertada.
No açúcar, o Brasil aparece como o grande contrapeso. O relatório destaca que a região Centro-Sul segue capaz de entregar mais uma safra volumosa, ainda que o balanço final entre produção de açúcar e etanol dependa do clima, do preço do petróleo e da economia doméstica do etanol. Esse papel amortecedor ganha relevância porque o risco maior está do outro lado do mundo: o UBS estima que um enfraquecimento significativo da monção indiana poderia reduzir a produção de açúcar em 3 a 8 milhões de toneladas ante as expectativas atuais, apertando um mercado global já equilibrado. Episódios de El Niño anteriores frequentemente coincidiram com altas de 20% a 60% no preço do açúcar, especialmente quando os estoques entravam na temporada abaixo das médias históricas.
Na soja, o UBS vê o Brasil e a Argentina como beneficiários potenciais. O banco lembra que a Argentina e o sul do Brasil costumam se favorecer de chuvas acima da média durante o El Niño, o que dá suporte à produção de soja. Somado a isso, uma demanda robusta por esmagamento [crush], a expansão da produção de diesel renovável e as prováveis perdas na produção de óleo de palma — do qual o óleo de soja é substituto próximo — compõem um pano de fundo relativamente favorável. Dentro dos grãos, a soja é justamente a aposta preferida da casa, com projeção de novas altas apesar da produção sólida, dada a demanda resiliente por esmagamento e a expansão limitada dos estoques.
O banco ressalva, porém, que os grãos em geral oferecem uma oportunidade mais seletiva do que as soft commodities [commodities “moles”, como café, açúcar e cacau]. Diferentemente do cacau ou do café, a produção de grãos é geograficamente diversificada, e boas condições em uma grande região exportadora costumam compensar perdas em outra. Partes do norte do Brasil, ao lado da Austrália e do Sudeste Asiático, tendem a enfrentar condições mais secas durante o El Niño, o que reduz a produtividade de milho, trigo e arroz.
Entre os principais riscos à visão, o UBS aponta que o cenário construtivo pode não se concretizar caso o El Niño permaneça fraco ou não chegue a perturbar de forma relevante a produção global — o que permitiria mais um ano de boas condições de cultivo e estoques confortáveis. Safras maiores do que o esperado nos EUA, no Brasil e na região do Mar Negro poderiam pressionar ainda mais os preços dos grãos. Do lado oposto, os riscos de alta incluem justamente uma seca no Brasil e no Vietnã, uma monção indiana mais fraca ou o ressurgimento de doenças no cacau da África Ocidental, fatores que poderiam apertar significativamente a oferta global.
Fonte: UBS
Traduzido via Clude


