Por Nick Timiraos — Dow Jones Newswires
13/02/2023 05h01 Atualizado há 4 horas
Economistas passaram o ano discutindo sobre se os aumentos agressivos de juros promovidos pelo Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA) levariam a aquecida economia americana a ter um pouso brusco ou suave – ou seja, se a inflação cairia por meio de uma recessão dolorosa ou uma desaceleração mais suave do crescimento.
A solidez surpreendente das contratações e dos gastos do consumidor no mês passado, juntamente com sinais de que a demanda por automóveis e residências pode estar se estabilizando após uma queda, fez com que agora alguns economistas apontassem para um terceiro cenário que parecia improvável apenas poucas semanas atrás: uma tendência de alta do crescimento econômico dos EUA.
“Um cenário sem pouso é uma realidade”, disse o economista Neil Dutta, da empresa de pesquisa Renaissance Macro. Enquanto muitas autoridades do Fed dizem ainda prever que a economia americana desacelerará neste ano, Dutta disse ver “uma enorme relutância em admitir o óbvio, que é o fato de a economia estar reacelerando”.
O Fed elevou sua taxa referencial de juros em 4,5 pontos percentuais desde março passado, mais recentemente para uma faixa entre 4,5% e 4,75%. Esse é o maior nível desde o início da década de 1980, que, segundo previsão de muitos economistas, frearia os investimentos e as contratações.
Mas as contratações estão em alta. Os empregadores americanos abriram robustas 517 mil novas vagas em janeiro, e a taxa de desemprego caiu para 3,4%.
Os dados chocaram os economistas porque números anteriores tinham sugerido que a alta das taxas de juros começava a desacelerar as contratações, disse Marc Giannoni, economista-chefe para os EUA do Barclays. Os dados sugerem que a política do Fed “teve menos efeito na demanda por mão de obra do que prevíamos”, disse ele.
Para o Fed, a receio é que as empresas consigam continuar repassando a alta dos preços aos clientes com o aumento da renda total das famílias. E, com o deslocamento dos gastos a partir dos produtos na direção dos serviços intensivos em uso de mão de obra, a demanda dos empregadores por trabalhadores poderá continuar subindo.
Embora o crescimento dos salários tenha desacelerado, houve aumento da média das horas trabalhadas, o que elevou em 1,5% as folhas de pagamento semanais agregadas (um indicador da renda salarial de horistas) e da remuneração mensal do pessoal administrativo, no mês passado, e em 8,5% nos últimos 12 meses.
Economistas do Goldman Sachs disseram na semana passada que agora veem uma probabilidade de 25% de ocorrer uma recessão nos próximos 12 meses, inferior à estimativa anterior de 35%. O banco prevê que a inflação cairá para 3% neste ano, com a taxa de desemprego exibindo alta modesta para 4%, desde que a economia cresça a um ritmo inferior ao da tendência de longo prazo, de cerca de 2%.
“Se houver uma reaceleração para um crescimento tendencial ou superior à tendência – acho que não vimos até agora – aí, sim, vamos nos preocupar com a dificuldade de fazer com que a inflação se aproxime o suficiente de 2% para dizer que poderemos ter um pouso suave”, disse Jan Hatzius, economista-chefe do Goldman.
Um surto de crescimento poderá levar o Fed a elevar os juros mais do que faria normalmente, para desacelerar a inflação para a sua meta de 2%. “Para nós, ‘sem pouso’ é só um pouso suave ou brusco esperando para acontecer”, disse em nota na sexta-feira Ellen Zentner, economista-chefe para os EUA do Morgan Stanley.
Ethan Harris, diretor de pesquisa econômica global do Bank of America, disse duvidar muito de que a inflação caia caso o crescimento se acelere. “Seria simplesmente necessário mais tempo e mais aperto [de juros] para desaquecer o mercado de trabalho.”
Muitos economistas, sem dúvida, ainda preveem uma recessão. Alguns dizem que o Fed foi tão rápido em elevar os juros que não houve tempo suficiente para isso fazer efeito na economia. Na última vez que o Fed elevou as taxas de juros para os níveis atuais, em 2006, foi preciso mais de um ano e meio para o mercado de trabalho mostrar alguma oscilação.
“Estamos vendo pressões sobre a margem de lucro corporativa”, disse Kathy Bostjancic, economista-chefe para os EUA do Nationwide. Ela prevê uma recessão moderada por volta de meados deste ano, com a queda dos lucros desencadeando cortes de empregos
Giannoni, do Barclays, agora prevê que uma recessão começará no quarto trimestre do ano, e não mais no terceiro. E que o Fed elevará os juros em 0,25 ponto percentual em suas próximas três reuniões – em março, maio e junho — o que aumentará a taxa básica para pouco menos de 5,5%, nível alcançado pela última vez em 2001.
Muitos economistas previram que os gastos do consumidor começariam a recuar, num momento em que as famílias esgotam o colchão fornecido pelas poupança acumulada durante a pandemia. Mas isso poderá não ocorrer se houver ganho salarial real, disse Dutta, do Renaissance.
Na semana passada, a Mastercard estimou que as vendas do varejo americano, excetuando-se automóveis, subiram 8,8% em janeiro em relação ao mesmo período do ano passado. O Bank of America disse que os gastos com cartão de crédito e débito por família subiu 1,7% em janeiro, revertendo a queda de 1,4% de dezembro. A alta dos salários mínimos estaduais e os ajustes anuais para aposentados podem ter contribuído para o incremento, segundo o banco.
Os gastos do consumidor têm revelado notável estabilidade, disse Vasant Prabhu, diretor financeiro da Visa. Embora os gastos com produtos tenham desacelerado, “os gastos com serviços absorveram toda essa folga”, disse ele.
Já o crescimento econômico global está crescendo. A Europa parece ter escapado do pior cenário, no qual a disparada dos custos da energia faria o continente mergulhar numa recessão. A China abandonou sua rígida política de covid-zero, o que pode impulsionar a demanda por commodities.
Alguns dos setores mais atingidos da economia americana estão dando saudáveis sinais de vida. As taxas do crédito imobiliário caíram no mês passado, para pouco acima de 6%, numa retração de quase 1 ponto percentual integral desde novembro. As construtoras residenciais reduziram os preços e subsidiaram agressivamente o crédito imobiliário para clientes.
“A pergunta óbvia agora é se esse fortalecimento da demanda continuará ou não”, disse Ryan Marshall, CEO da construtora residencial PulteGroup. “As construtoras são otimistas por natureza, e quero crer que o Fed conseguirá orquestrar um pouso suave, mas o risco de uma recessão é real.”
Pelo fato de a inflação ter sido alta no ano passado e de muitos contratos de mão de obra e de insumos serem renegociados em janeiro, o Goldman prevê que pressões represadas de custos aumentarão em mais 0,1 a 0,2 ponto percentual o núcleo da inflação de janeiro, que exclui os preços dos voláteis itens de alimentos e energia.
Omair Sharif, diretor da empresa de assessoria econômica Inflation Insights, disse ver um risco de que o núcleo da inflação se acelere em janeiro, devido ao aumento potencialmente grande dos preços da área de assistência médica e às quedas menores dos preços de artigos como automóveis usados.
A ameaça de uma recessão ainda neste ano poderá levar as empresas a aumentar os preços mais agressivamente nos próximos meses. “Se você estiver tentando recuperar a alta dos custos dos insumos, essa poderá ser sua última chance”, disse Sharif. “Poderá não conseguir outra nos próximos seis meses.”
Fonte: Valor Econômico
