Em evento organizado pelo IBGC, profissionais da área de investimentos destacam a importância do acompanhamento, pelos investidores, de suas investidas, o chamado stewarship
Por Naiara Bertão, Prática ESG — São Paulo
23/10/2023 11h03 Atualizado há 8 horas
Se, na teoria clássica de um negócio, a empresa precisa atender o mandato aprovado pelos donos, os acionistas, são eles que devem garantir que o mandato tenha práticas ESG, sigla em inglês para se referir a questões ambientais, sociais e de governança corporativa. “ESG é o mandato do dono para os executivos”. Foi assim que Mauro Rodrigues da Cunha, membro do conselho de administração da Embraer, Klabin, AES e Hypera Pharma e ex-presidente da Amec e do conselho de administração do IBGC, abriu um dos vários painéis sobre temas de sustentabilidade no 24º Congresso do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC). O tema do congresso neste ano, realizado nos dias 17 e 18 de outubro em São Paulo, foi “Governança em rede: conectando stakeholders”.
O painel – ESG & Stewardship: o papel dos investidores – tratava de um tema ainda pouco conhecido no mercado empresarial no Brasil, mas que tende a crescer, à medida que investidores internacionais e nacionais, aprofundam suas demandas por dados, ações e resultados sustentáveis das empresas investidas: stewardship.
A palavra, de difícil pronúncia e que pouco diz aos brasileiros, se refere a uma prática de engajamento de investidores com suas empresas investidas. Isso envolve, por exemplo, participação em conselho, pedido de informação extra sobre a atuação da empresa em questões sociais, ambientais e de governança (ESG), apresentar outras empresas que podem ser referências em determinadas áreas desafiadoras, entre outros pitacos. É uma gestão ativa no portfólio de investimento e que tem como objetivo gerar mais valor para a empresa – e, consequentemente, o fundo e seus cotistas.
“Vejo o movimento acontecendo, vindo pela demanda de investidores internacionais, de equity [participação acionária] e bond [dívida corporativa], que acompanham as empresas há algum tempo e anualmente conversam, apontam questões que precisam mudar ou melhorar”, comenta Denise Pavarina, conselheira do Banco Bradesco, da Solví Essencis Ambiental S.A., e vice-chair da Task Force on Climate-related Financial Disclosures (TCFD). “A empresa fica preocupada e trabalha para melhorar os pontos colocados porque sabe que está sendo observada. Muda porque é importante mudar”, acrescenta.
Ela reitera que o stewardship se alinha com o chamado ‘dever fiduciário’. que tanto o administrador do fundo de investimento quanto o administrador da empresa já têm por contrato, que nada mais é do que um acompanhamento com responsabilidade para fazer o melhor para aquele ativo.
Cita que já é visível alguns resultados deste tipo de movimento, como a valorização do papel da empresa na bolsa de valores e a redução de custo de emissão de dívidas. Além disso, diz a conselheira, é uma grande oportunidade de legitimar as ações da companhia em relação à sustentabilidade, pelo crivo rigoroso que muitos investidores têm.
“Isso mostra que temos muito o que aprender sobre esse conceito que tem se desenvolvido nos últimos anos e capacidade de gerar valor para a empresa. Donos atuarem como donos”, comenta o mediador. Cunha critica quem foque em ações ambientais (E) e sociais (S) e esquece que a governança (G) é a base delas e de outras mudanças. “ESG sem a governança é greenwashing.
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Daniel Izzo, CEO da Vox Capital, trouxe a visão da experiência da gestora de impacto, cuja atuação é ativa em ajudar suas investidas – em geral, companhias ainda em estágio inicial.
“Temos vantagem em relação a quem investe em empresas grandes porque os donos e fundadores têm intenção de impacto positivo. Já é uma agenda que está na cabeça do fundador”, diz Izzo. Conta que é necessário, por exemplo, estruturar a própria governança, indicadores de impacto, indicadores ESG, que são mensalmente acompanhados nas reuniões do Conselho de Administração.
A Vox tem fundos de investimentos de participação que investe de R$ 5 a R$ 50 milhões em companhias que estão começando, mas com níveis de maturidade diferentes. A tese central, porém, é compartilhada com todas: contribuir para acelerar as transformações do mundo com impacto social e ambiental. Entra nisso, segmentos como soluções para energia renovável, cadeia de alimentos, segurança alimentar, soluções educação de emissões e economia de baixo carbono. Neste último, está a Nude, indústria de bebidas de base vegetal, uma das investidas do portfólio e que teve um painel próprio no evento do IBGC.
Segundo Lívia Brando, conselheira da Nude e sócia-diretora de Venture Capital da Vox Capital, neste outro debate, comenta que o investimento na Nude foi feito pela tese ambiental, de economia verde. “O principal indicador para nós é o carbono evitado. Claro que a empresa está em uma tendência de consumo também, de substituição pelo consumidor final de proteína animal por vegetal, mas o que vimos de grande valor na empresa é a redução de carbono”, diz. Ela acrescenta que ajuda o fato de a Nude ser organizada e, desde o início se preocupar em medir sua pegada de carbono. “É intencionalidade do fundador e o trabalho é sério”, aponta.
Giovanna Meneghel, CEO e co-fundadora da Nude, conta que a empresa nasceu durante a pandemia já com foco em sustentabilidade. “As primeiras pessoas que contratamos foram de sustentabilidade e pesquisa e desenvolvimento, justamente porque esses dois pontos – sustentabilidade e qualidade dos produtos – sempre foram nossos propósitos principais”, diz.
Ela aponta que também já sabiam que, para crescer, precisariam levantar capital e buscaram se estruturar para serem atrativos a investidores e poderem, também escolherem com quem se associar. Um passo importante foi terem buscado certificação pelo Sistema B logo no início, o que ajudou a organizar a casa e a governança em questões socioambientais. “Cálculo da pegada, ações para neutralizar as emissões na nossa própria cadeia, mitigação para chegar no objetivo de ser carbono neutro e não depender da compra de crédito de carbono… era importante que isso tudo já nascesse organizado para conseguirmos atingir nossos objetivos”, diz Meneghel.
Brando, da VOX, sugere que, para investidores de impactos, ajudar a estruturar o conselho de administração das investidas também é importante e dá a oportunidade de levar ao colegiado, pessoas externas que tragam visões, opiniões, experiências e contatos que ajudam a empresa a montar sua estratégia e crescer.
Também comenta que na avaliação de investimento de uma companhia, entre as metodologias aplicadas, o perfil dos fundadores e sua vontade de fazer o negócio ir adiante representa um grande peso, assim como o total de sua participação no negócio. Uma vez fechado o contrato, um trabalho ativo de trocas começa. “Não somos da tese de crescer a qualquer custo. A Vox é muito respeitosa com o momento da empresa e visão dos fundadores, mas tem conversas com eles sobre o caminho a seguir, justamente para ajudar a melhorar o negócio”, conta Brando.
Meneghel, da Nude, concorda que a composição do conselho e da sociedade faz diferença. O fato de terem sido poucos fundadores e muito alinhados com o propósito fez a empresa chegar até aqui com uma cultura forte de impacto. Mas, agora começa o desafio de manter isso. “Estamos no momento de estruturar melhor o conselho e um dos pontos de atenção é como crescer mantendo a tese de impacto nas decisões do dia a dia, como manter as pessoas na cultura que criamos. E decidimos ter alguém externo no conselho para nos ajudar”.
Conectado a isso, Daniel Izzo, CEO da Vox, traz sua visão sobre a outra ponta, empresas que não nasceram com propósitos socioambientais, mas agora se mostram diante dessa demanda do mercado e dos investidores. “O desafio de investimentos em empresas que não necessariamente têm impacto é maior porque depende do dono e dona se interessar”, diz. Izzo lembra ainda que, quando a Vox vende sua participação nas empresas investidas, deixa também de ter controle sobre seu comprometimento com o impacto.
Além dos fundos de participação temáticos de impacto, que têm mais de 40 empresas no portfólio, a Vox também tem o VOX Desenvolvimento Sustentável, seu primeiro fundo de renda fixa, que compra títulos de crédito de companhias de capital aberto e que tenham preocupação socioambiental. E também faz gestão de fundos de terceiros, como o de venture capital com tese de saúde e biotechs do Einstein, o do Banco do Brasil com foco em govtech, agritech e fintechs, e o fundo da Copel, voltado à transição energética.
Provocados pelo mediador, ambos – Pavarina, do Bradesco, e Izzo, da Vox – concordaram que há um senso de urgência na pauta climática que precisa levar empresas e fundos de investimento a fazerem mais. Lembraram da seca na Amazônia e das enchentes no Rio Grande do Sul como exemplos claros de que não é mais possível ignorar o aquecimento do planeta. E que ele mexe com os negócios.
“Agora que está entrando na matriz de risco, e não é mais algo restrito à área de sustentabilidade, o olhar muda. É um risco crítico hoje e basta ver a movimentação de pessoas pelos desastres recentes no Brasil, o que achávamos que só ia acontecer na Ásia e na África”, comenta Pavarina.
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Fonte: Valor Econômico