Por Rebecca Feng e Cao Li — Dow Jones Newswires
07/12/2023 05h03 Atualizado há 5 horas
A China está tentando desarmar uma bomba-relógio financeira que pode prejudicar gravemente seu sistema bancário.
Cidades e províncias em todo o país acumularam uma enorme quantidade de “dívida oculta” após anos de empréstimos e gastos descontrolados. O Fundo Monetário Internacional e bancos de Wall Street estimam que o total de dívidas governamentais “off-balance” está entre US$ 7 trilhões e US$ 11 trilhões. Isso inclui títulos corporativos emitidos por milhares de chamados veículos de financiamento de governos locais, que tomaram empréstimos para construir estradas, pontes e outras infraestruturas, ou para financiar outras despesas.
Ninguém sabe qual é o total real, mas ficou claro, ao longo de 2022, que os níveis de dívida dos governos locais tornaram-se insustentáveis. O crescimento econômico da China está desacelerando e o país enfrenta pressões deflacionárias que dificultarão para os governos locais cumprir seus pagamentos principais e de juros. Economistas afirmam que uma parte significativa da dívida oculta, com estimativas variando de US$ 400 bilhões a mais de US$ 800 bilhões, é particularmente problemática e apresenta alto risco de inadimplência.
As autoridades chinesas perceberam que os riscos para a estabilidade financeira do país e para o crescimento geral tornaram-se grandes demais para ser ignorados. Estão tentando abordar o problema de maneira mais sistemática, começando a trocar parte da dívida oculta por novas dívida governamentais – explícitas.
A grande preocupação é que uma onda de inadimplência possa espalhar perdas por toda a parte. Isso pode rapidamente se transformar em uma crise financeira nacional se os mercados de crédito colapsarem e depositantes corporativos começarem a se preocupar com a estabilidade financeira dos bancos que possuem muitos títulos de governos locais.
“Assim que um veículo de governo local entrar em inadimplência, a situação pode sair de controle” — Yao Yu
“Assim que um veículo de financiamento de governo local entrar em inadimplência, a situação pode facilmente sair de controle”, disse Yao Yu, fundador da YY Rating, uma agência independente de classificação de risco chinesa. Títulos de veículos de financiamento de governos locais representam quase metade do mercado de títulos corporativos domésticos da China, segundo a provedora de dados financeiros Wind, e inadimplências poderiam cortar o financiamento para outros mutuários se muitos investidores e compradores de títulos se afastarem.
No início de novembro, o governo central da China estabeleceu “dar grande importância à prevenção e resolução do risco de dívidas ocultas dos governos locais”. Banqueiros e autoridades locais também foram alertados de que seriam responsabilizados permanentemente se contraíssem nova dívida oculta.
Pan Gongsheng, presidente do Banco do Povo da China (PBoC, o banco central do país), disse em um fórum financeiro em Pequim, no mês passado, que o BC também fornecerá suporte de liquidez de emergência para regiões com cargas de dívida relativamente altas. Ele afirmou que a dívida total do governo chinês não é alta pelos padrões internacionais e que o país está tomando medidas – incluindo a venda de ativos e refinanciamento de dívidas – para mitigar o risco apresentado pelas dívidas de governos locais.
Nesta semana, a Moody’s Investors Service rebaixou sua perspectiva sobre a classificação de crédito da China de estável para negativa porque o país provavelmente fornecerá mais apoio a governos locais e empresas estatais financeiramente estressadas. A agência também citou riscos para o crescimento econômico da China. A Moody’s classifica a China como A1, uma nota de grau de investimento que está quatro degraus abaixo de sua classificação máxima, a triplo-A.
A China superou uma crise imobiliária de longa data e dezenas de calotes de incorporadoras sem grandes perdas para os bancos do país. Isso se deve em grande parte ao fato de muitas incorporadoras terem levantado dinheiro no exterior, vendendo títulos a investidores internacionais e sendo menos dependentes de empréstimos bancários.
Houve um impulso urgente para que os governos locais emitissem os chamados “títulos especiais de refinanciamento”
A situação é diferente para os veículos de financiamento de governos locais. A maioria desses títulos é detida por bancos comerciais chineses, que também lhes concederam empréstimos. Um relatório recente do UBS afirmou que a exposição total dos bancos domésticos aos veículos de financiamento de governos locais no final do ano passado era equivalente a cerca de US$ 6,9 trilhões – representando cerca de 13% dos ativos totais do setor bancário.
Por mais de uma década, os reguladores chineses têm tentado lidar com os riscos da dívida oculta do país. A última rodada de esforços significativos ocorreu entre 2015 e 2018. Nesse período, os governos locais chineses também emitiram novos títulos públicos para trocar por suas dívidas ocultas, dando a estas, efetivamente, o respaldo explícito do governo.
O Ministério das Finanças da China também disse aos governos locais para tomar empréstimos de maneira mais responsável no futuro. No entanto, sob pressão para estimular o crescimento, os governos locais entraram em outra onda de endividamento e, até o final de novembro, os títulos em circulação de seus veículos de financiamento haviam mais do que dobrado em relação a 2018, segundo a Wind.
Algumas cidades e províncias começam a mostrar tensões financeiras após uma brutal queda no mercado imobiliário ter causado uma diminuição nas receitas dos governos locais com vendas de terras. Três anos de gastos pesados para conter a pandemia de covid-19 também esgotaram seus cofres. Houve um impulso urgente para que os governos locais emitissem os chamados “títulos especiais de refinanciamento” para substituir parte de sua dívida oculta.
Desde outubro, aproximadamente 30 províncias e cidades chinesas levantaram o equivalente a cerca de US$ 200 bilhões nesses títulos. A captação de recursos foi principalmente em regiões com alta alavancagem, incluindo as Províncias de Guizhou e Yunnan e a cidade de Tianjin. As conversões de dívida ajudaram a reduzir o risco de iminentes inadimplências de governos locais, dando mais tempo para que estes levantem fundos.
“Não é suficiente, mas acredito que seja apenas o começo”, disse Robin Xing, economista-chefe do Morgan Stanley, sobre as conversões de dívida realizadas até agora. Ele estima que sejam necessários pelo menos US$ 700 bilhões em conversões para resolver a maior parte da problemática dívida oculta.
“Não é realmente um plano de reestruturação, mas de refinanciamento. Isso arruma a maioria dos problemas com a dívida dos governos locais”, disse Logan Wright, diretor de pesquisa sobre a China na Rhodium Group, uma empresa de pesquisa. Um relatório que Wright coescreveu no mês passado afirma que as extensões ou conversões de dívida irão prejudicar o crescimento econômico da China em longo prazo, porque mais recursos fiscais serão necessários para o pagamento da dívida.
Fonte: Valor Econômico
