Diante da forte alta nos rendimentos dos Treasuries no fim da semana passada, cresceu a suspeita entre participantes do mercado de que investidores oficiais estrangeiros — bancos centrais, fundos soberanos, tesouros nacionais e organizações internacionais — podem ter intensificado suas vendas em títulos públicos americanos. O Deutsche Bank estima, a partir de um documento publicado pelo Federal Reserve de Nova York, que aproximadamente US$ 75 bilhões em Treasuries já foram vendidos por essa classe de investidores desde o início da guerra, o que marca a maior redução de participação em uma janela de quatro semanas desde março de 2020.
“O H 4.1 [documento] da semana passada mostrou que, em média semanal, os Treasuries mantidos em custódia caíram US$ 75 bilhões nas quatro semanas desde o início da guerra, representando a maior queda em quatro semanas desde março de 2020 e a segunda maior em mais de uma década”, observam os profissionais do Deutsche.
Segundo eles, a queda também é comparável às de outubro de 2022 e março de 2023; porém, diferentemente do último episódio, os dados de recompras não aumentaram recentemente, o que aponta para vendas ou resgates efetivos, e não para operações de repo de papéis da dívida americana com o Fed.
No entanto, a equipe de estratégia de renda fixa do banco alemão reconhece que os dados mais completos sobre transações estrangeiras em ativos denominados em dólar vêm do Treasury International Capital (TIC) do Tesouro americano, que são divulgados com defasagem significativa. Por isso, o estudo utilizou os dados da série de “títulos mantidos em custódia” para contas oficiais estrangeiras e internacionais no Fed de Nova York.
Buscando fazer uma equivalência para o impacto que as vendas teriam na TIC, o Deutche encontra pouco paralelo na história recente. “A relação histórica e a queda de US$ 75 bilhões nos ativos em custódia nas últimas quatro semanas, em conjunto, apontam para vendas líquidas de Treasuries por investidores oficiais estrangeiros da ordem de US$ 60 bilhões. Isso representaria o maior volume de vendas líquidas por essas contas desde a pandemia de covid e, antes disso, só encontraria paralelo nas vendas de dezembro de 2018”, apontam.
Assim, de acordo com a equipe de renda fixa do banco alemão, a melhor proxy disponível para avaliar mudanças nas posições de investidores oficiais estrangeiros em Treasuries dos EUA sugere vendas substanciais ao longo do último mês. “Isso também é consistente com as altas expressivas nos yields da parte intermediária da curva ao longo da última semana, já que as posições de investidores oficiais estrangeiros são concentradas nesse trecho da curva de Treasuries”, afirmam os estrategistas.
Segundo o relatório assinado por Matthew Raskin, Steven Zang e Andrew Fu, as implicações potenciais desta dinâmica para os yields dos Treasuries são diretas. “Outras análises nossas mostram que a taxa do Treasury de 10 anos está mais de 1 ponto percentual abaixo do nível que seria implícito pela posição internacional de investimentos líquida dos EUA.”
Ainda, notam que estudos recentes também estimam que o status do dólar como moeda de reserva mantém as taxas de juros de longo prazo dos EUA cerca de 0,9 ponto mais baixas do que estariam de outra forma. “Qualquer queda sustentada na demanda estrangeira pode reverter esse ‘prêmio de conveniência’ e elevar de forma relevante os prêmios de termo e os yields dos Treasuries”, alertam.
Fonte: Valor Econômico