Por Andrea Shalal — Reuters, de Seul
19/07/2022 05h00 Atualizado há 6 horas
Os EUA querem acabar com sua “dependência excessiva” da China com relação a terras-raras, painéis solares e outros produtos importantes, para se prevenir do risco de que Pequim interrompa o fornecimento, como fez com outros países, afirmou a secretária do Tesouro americana, Janet Yellen.
Yellen, que chegou ontem a Seul, está em campanha pela ampliação dos laços comerciais com a Coreia do Sul e outros aliados confiáveis para melhorar a resiliência das cadeias de fornecimento e evitar possíveis manipulações de adversários geopolíticos.
“Cadeias de fornecimento resilientes significam ter diversidade de fontes de fornecimento e eliminar, na medida do possível, a possibilidade de que adversários geopolíticos sejam capazes de nos manipular e ameaçar nossa segurança”, afirmou Yellen.
Ela detalharia suas preocupações em um importante discurso político hoje em Seul na terça-feira, depois de visitar as instalações da empresa sul-coreana LG, uma das mais importantes da área de tecnologia, durante a etapa final de uma visita de 11 dias à região do Indo-Pacífico.
“Não podemos permitir que países como a China usem sua posição de mercado em matérias-primas, tecnologias ou produtos importantes para desorganizar nossa economia e exercer influência geopolítica indesejada”, dirá Yellen, segundo trechos do discurso divulgados ontem pelo Departamento do Estado americano.
A secretária americana tem feito uma forte defesa do “friend-shoring”, ou da diversificação das cadeias de fornecimento dos EUA de forma a se apoiar mais nos parceiros comerciais confiáveis. Segundo ela, o “friend-shoring” também ajudaria a combater a inflação e fazer a contraposição às “práticas comerciais desleais” da China.
Em seu discurso preparado, Yellen argumenta ainda que o “friend-shoring” proporcionará o dinamismo e o crescimento da produtividade que acompanham a integração econômica, ao mesmo tempo em que ajudaria a isolar os cidadãos dos EUA e da Coreia do Sul dos aumentos de preços causados por riscos geopolíticos.
As potências ocidentais buscam acabar com sua dependência excessiva da China como principal fornecedor desde o início da pandemia de covid-19 em 2020, que expôs a fragilidade das cadeias de suprimentos globais e vulnerabilidades nas capacidades de produção interna em setores-chave, como saúde.
Segundo Yellen, a pandemia e a guerra da Rússia na Ucrânia – ações que Moscou chama de “uma operação militar especial” – deixaram claro a necessidade de abordar as vulnerabilidades da cadeia de suprimentos e trabalhar para reduzir os congestionamentos e a escassez que elevaram os preços em todo o mundo.
O “friend-shoring”, diz ela, oferece aos EUA e seus aliados uma forma de preservar as melhores características da ordem global baseada em regras, ao mesmo tempo em que aborda práticas comerciais chinesas desleais e garante o acesso a insumos e produtos vitais – de remédios a semicondutores e baterias de veículos elétricos.
Yellen disse que a Coreia do Sul tem “pontos fortes enormes em termos de recursos, tecnologia e capacidades” e suas empresas, como a LG, já investem nos EUA.
“Elas têm uma capacidade substancial para produzir semicondutores avançados”, afirmou, ao explicar que isso era especialmente importante dada a “enorme dependência” que os EUA têm da Taiwan Semiconductor.
Uma importante autoridade do Tesouro disse que é fundamental reduzir a dependência dos EUA de certas exportações chinesas, já que Pequim cortou o fornecimento para países como o Japão em ocasiões anteriores, ao mesmo tempo em que pressionou a Austrália e a Lituânia de outras maneiras.
“Eles usaram de coerção para pressionar vários países cujo comportamento reprovavam”, afirmou Yellen. “Essa é uma das razões para não querermos ser dependentes da China.”
Apesar do tom forte de suas palavras, a secretária americana disse que o relacionamento com a China não é “totalmente negativo nem está no caminho de se tornar um território tremendamente hostil”.
Segundo Yellen, a China ouviu as preocupações dos EUA em outras áreas e agora está adotando algumas medidas construtivas relacioadas à reestruturação da dívida de países de baixa renda.
“Temos preocupações reais em relação à China e nós a pressionamos, mas não quero passar uma imagem de que só há hostilidades crescentes com a China”, disse ela.
Fonte: Valor Econômico