Pensamento do dia
Junho chega com os mercados de ações recompensando firmemente a liderança tecnológica. O S&P 500 avançou para uma nova máxima histórica na semana passada, o Nasdaq acumula ganhos superiores a 15% no último mês, e o Philadelphia Semiconductor Index disparou quase 70% desde o início de abril. Os gastos de capital relacionados à IA continuam a se acelerar, sustentando um conjunto mais amplo de empresas ao longo da cadeia de suprimentos de IA — de memórias e CPUs a fabricantes de equipamentos para a indústria semicondutora, além de componentes ópticos e outros.
A atual onda de IA não é a primeira do seu gênero, tampouco é a primeira a reorganizar a liderança de mercado no setor de tecnologia. Na era dos mainframes, a IBM dominava a computação, mas a transição para o PC redirecionou o valor para a Microsoft e a Intel. Na onda da internet, as empresas de infraestrutura ajudaram a construir a rede, mas o valor de longo prazo se acumulou nas plataformas nativas da internet, como Amazon e Google. Na era mobile, a Apple emergiu como uma das principais beneficiárias ao combinar hardware, software e um poderoso ecossistema de aplicativos.
A atual transição rumo à IA se desenrola em um cenário de monetização crescente e restrições persistentes de oferta. Enxergamos a demanda por tokens de IA — a unidade básica do output [resultado gerado] de IA generativa — continuando a superar a oferta, mantendo a capacidade computacional em déficit mesmo após anos de investimentos pesados. O crescimento na nuvem para as principais plataformas acelerou para um ritmo estimado de 40% ano a ano no primeiro trimestre, ante a expansão de 34% registrada no quarto trimestre de 2025, e o backlog [carteira de pedidos] agregado dos grandes provedores de nuvem subiu para aproximadamente USD 2 trilhões. Essa combinação de monetização crescente, expansão do backlog e oferta restrita ajuda a explicar por que o ciclo de investimentos em IA ainda tem espaço para avançar.
Sem adotar visões sobre ações individuais, identificamos alguns princípios extraídos de ciclos anteriores de inovação que acreditamos poder auxiliar os investidores a navegar pelo ciclo atual:
Os incumbentes raramente vencem a próxima era por direito próprio. Os líderes de mercado anteriores raramente dominam a era seguinte sem esforço, em parte porque seu foco tende a estar na proteção dos pools de lucro [fontes estabelecidas de rentabilidade] existentes. A IBM subestimou a transição para o PC, assim como muitos incumbentes em ciclos anteriores foram lentos para se adaptar a novos modelos de entrega. A história mostra que pivôs bem-sucedidos podem ocorrer — como nos casos da Microsoft e da Meta —, mas tendem a ser a exceção, não a regra, e frequentemente exigem um fundador ou líder disposto a canibalizar seu próprio negócio principal.
As plataformas frequentemente capturam os lucros duradouros. Ao longo do tempo, a criação de valor duradouro tende a migrar da infraestrutura para as plataformas e redes construídas sobre ela. No contexto da IA, isso sugere que o foco deve recair não apenas sobre computação e hardware habilitador, mas também sobre empresas capazes de transformar inteligência em ecossistemas de usuários com alta retenção, vantagens em dados e aplicações monetizáveis. Acreditamos que as empresas que atingirem o “modo plataforma” mais rapidamente estarão mais bem posicionadas para capturar efeitos de rede e defender margens.
Quando os booms de capex eventualmente arrefecem, a dor não se distribui igualmente. O capex [investimento em capital fixo] em IA segue em forte expansão, e nossa projeção atual é de que alcançará USD 820 bilhões em 2026 e cerca de USD 990 bilhões em 2027. Mais de 85% desse gasto é impulsionado pelas quatro grandes empresas de tecnologia. A escala desse investimento deve sustentar o ecossistema como um todo, especialmente nas áreas sujeitas a gargalos. No entanto, a história mostra que, quando a capacidade eventualmente se iguala à demanda, os segmentos de hardware mais competitivos tendem a sentir a pressão primeiro. A Nortel acabou indo à falência após o boom de infraestrutura de internet. A Cisco sobreviveu, mas suas ações levaram mais de 25 anos para recuperar e superar a máxima atingida na era das ponto-com. Nossas projeções sugerem que é justamente nos segmentos de hardware mais competitivos onde a vulnerabilidade pode ser mais aguda quando os riscos de excesso de capacidade [overbuild] começam a se materializar.
Assim, com o trade [posicionamento] em tecnologia continuando a se aquecer, acreditamos que esses três princípios podem ajudar os investidores a se posicionarem para uma potencial mudança na liderança de mercado dentro do universo de IA. Seguimos enxergando um cenário de médio prazo construtivo para as ações em geral, mas consideramos que os investidores devem evitar concentração excessiva e manter diversificação entre as principais camadas de IA e a cadeia de suprimentos, em vez de depender de um conjunto restrito de empresas de mega capitalização. Acreditamos que deter exposição tanto à inteligência quanto às aplicações será relevante, pois mais usuários podem gerar mais dados, aprimorar modelos e reforçar a vantagem da plataforma ao longo do tempo. Além de manter exposição aos potenciais beneficiários da contínua monetização da IA, sugerimos também que os investidores se posicionem para um rali [rally] mais amplo das ações em nossos mercados e setores preferidos, aproveitando períodos de força do mercado para diversificar portfólios e reduzir a concentração em ações individuais.
Fonte: UBS