Por Juliana Schincariol — Do Rio
01/03/2023 05h03 Atualizado há 5 horas
O crescimento do mercado de capitais nos últimos anos foi um dos fatores que impulsionaram os assessores de investimento (antigos agentes autônomos) no Brasil. Mais de 23 mil profissionais atuam na área, um número que não se repete entre outros regulados pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Apesar de serem maioria, eles não estão sozinhos. Pouco a pouco, os consultores também vêm ganhando destaque no mercado brasileiro – atualmente, cerca de 1.300 pessoas atuam na área. Ainda que não representem nem um décimo dos colegas assessores, houve um aumento de quase 100% dos registros de consultores na autarquia entre 2017 e 2022.
As diferenças entre os dois perfis de profissionais do mercado incluem as formas de remuneração e atendimento aos clientes. O assessor de investimentos transmite as recomendações da plataforma à qual está atrelado, e é pago por ela. Não são raros os casos em que investidores acham que a prestação desse serviço é gratuita, mas os preços estão embutidos nos custos de distribuição.
A partir de abril, a nova regulamentação para os assessores vai demandar mais transparência com relação aos valores recebidos. “A reforma das regras dos assessores de investimento vai refletir sobre outros participantes. A transparência em relação à remuneração pode chamar a atenção dos investidores”, afirma o superintendente da CVM Bruno Luna.
O consultor, por sua vez, não está atrelado a nenhuma instituição, e cobra um valor por prestar um serviço personalizado aos investidores. Há diversos tipos de arranjos. O pagamento pode ser, por exemplo, uma fração do patrimônio do investidor. A legislação permite ao assessor de investimento cobrar um valor percentual pelos serviços prestados, mas ainda são raros os casos em que isso realmente acontece.
Dados da CVM mostram que, entre 2017 e 2019, o número de consultores não se alterou, e se limitava a menos de 700 profissionais. A partir de 2020, acompanhando uma evolução mais rápida dos investidores, e em meio a juros nas mínimas históricas, o número de consultores começou a subir. O total passou a 790 naquele ano, subiu para 1.018 em 2021 e fechou 2022 em 1.329.
Na Vita Investimentos, um multi family office focado em consultoria de investimentos e planejamento financeiro, o crescimento tem sido de 60% ao ano, conta o sócio fundador Ricardo Guimarães. Hoje, a empresa tem patrimônio de R$ 2,3 bilhões.
“O mercado de consultoria no Brasil talvez seja hoje o que os assessores de investimentos eram 15 anos atrás”, afirma o fundador da empresa. Segundo Guimarães, 75% dos investidores que contrataram a Vita nos últimos cinco anos sequer conheciam como uma consultoria funcionava. A maioria migrou de bancos ou de assessores de investimentos.
Nada impede que um investidor adote mais de uma opção para gerir seu dinheiro. “O cliente tem liberdade de escolher com qual se sente melhor. Não é uma competição pelo cliente, que pode ter um pedaço de seus recursos em uma carteira e outro alocado de outra forma”, diz Guimarães.
A Vita mapeou mais de 200 consultorias registradas na CVM e busca comprar outras empresas ou participações. “Há ótimos empreendedores que já começaram seus negócios de consultoria e às vezes precisam de ajuda com tecnologia ou acesso a uma plataforma offshore para crescer. Buscamos bons empreendedores. Nossa intenção é complementaridade”, afirma.
Esse movimento de consolidação também é objetivo da Nord Research, empresa independente de análise que também atua como consultoria. Há duas transações no radar, afirma o sócio fundador Renato Breia. A expectativa é que uma delas seja anunciada ainda neste semestre. O foco da Nord são clientes com perfil acima de R$ 1 milhão, e a empresa vê oportunidades em clientes com patrimônio acima de R$ 300 mil, público que segundo Breia é carente de bons serviços de consultoria atualmente. “Temos sido procurados por empresas menores”, afirma. A Nord administra patrimônio de R$ 2 bilhões e pretende chegar a R$ 6 bilhões nos próximos dois anos. Breia defende que o modelo de consultoria é vencedor em todo o mundo, mais alinhado aos interesses do cliente e transparente. Seguindo essa tendência, há assessores de investimento que estão criando consultorias, de acordo com o executivo.
No Recife (PE), o consultor João Victor Sconamiglio decidiu atuar na área porque não se sentia bem assessorado em relação aos seus próprios investimentos. Para ele, o número de consultores vem aumentando como reflexo do crescimento do mercado como um todo. “Nos últimos dois anos, percebo que as pessoas começaram a reconhecer o mercado de consultoria. Do ponto de vista econômico, as corretoras se popularizaram muito. A tecnologia melhorou o acesso das pessoas, atrelado ao período de queda da taxa de juros”, afirma. A empresa de Sconamiglio tem hoje um patrimônio de R$ 65 milhões.
As novas regras da CVM acabaram com a obrigação de que um escritório de assessores de investimentos tenha um único vínculo com uma corretora. Mas não impedem que a exclusividade esteja prevista nos contratos privados, como já vem acontecendo no mercado. “Nesse modelo de exclusividade foram pagos valores relevantes. Os escritórios têm metas de captação. Isso intensificou os problemas dos conflitos”, diz Breia, da Nord.
O responsável pelas áreas de assessoria e relacionamento da XP, Bruno Ballista, afirma que a nova resolução da CVM sobre assessores de investimentos atualiza a profissão e aumenta o reconhecimento da categoria. A abertura das taxas de remuneração é algo com que a empresa lida naturalmente, acrescenta. “Já cumprimos boa parte das exigências. Nosso cliente já tem informações de remuneração quando executamos uma ordem ou uma transação. É positivo porque garante cada vez mais conhecimento aos clientes.” Ballista diz ainda que as novas regras da CVM para os assessores de investimentos aproximam esses profissionais e os consultores. “A partir de agora, o assessor pode fazer recomendações dentro do ‘suitability’ [perfil de investidor] do cliente. A única diferença que ainda existe é que o consultor não pode receber incentivo do intermediário”, afirma. A XP, que impulsionou o crescimento dos assessores de investimento, oferece serviços de consultoria e gestão patrimonial.
Fonte: Valor Econômico