A produção de minerais críticos, um dos temas centrais da geopolítica debatidos no Fórum Econômico Mundial (WEF, em inglês), em Davos, nos alpes suíços, deve trazer vantagens competitivas para a Vale, umas das maiores mineradoras globais.
“Temos uma oportunidade muito grande de ser o ofertante desses minerais para os Estados Unidos, Europa e China. As discussões [geopolíticas em Davos] jogaram luz sobre a importância do setor, porque não existe inteligência artificial sem mineração, sem minerais críticos não existe transição energética. Tudo isso vai necessitar de um aumento da oferta muito grande”, disse ao Valor o presidente da Vale, Gustavo Pimenta.
Os conflitos geopolíticos posicionam o Brasil de uma forma positiva porque o país tem uma superpotência mineral, segundo o executivo. “A gente tem a tabela periódica no nosso território, vários dos minerais críticos em escala, e o Brasil tem uma posição neutra do ponto de vista geopolítico, além de uma democracia estável. A Vale tem foco em três grandes commodities.”
No comando da Vale desde outubro de 2024, Pimenta disse que a empresa quer recuperar o protagonismo no cenário global de mineração e que a companhia tem feito o “dever de casa” nos últimos anos, após as tragédias ambientais e a pacificação dos acionistas do grupo, depois de uma sucessão para CEO tumultuada.
Com participação relevante em níquel – a Vale vende 60% da demanda para os EUA a partir das operações no Canadá -, a mineradora diz que o minério é estratégico para a produção de carros elétricos, que está em expansão no mundo.
A Vale também tem reiterado nos últimos anos que pretende dobrar a produção de cobre, hoje em 350 mil toneladas. O cobre é o metal de transição energética e importante para data centers. “O Brasil tem um potencial de crescimento no cobre muito grande. Essa é uma prioridade estratégica muito relevante para nós. Além disso, tem o minério de alto teor, superimportante no papel de descarbonização da cadeia do aço de baixo carbono, onde a Vale também se posiciona.”
Pimenta vê um movimento das mineradoras globais em se posicionarem estrategicamente no portfólio de cobre, uma vez que a demanda tem crescido e os preços da commodity a médio e longo prazos vão seguir bastante firmes, o que é bom para a Vale.
Em função dessa equação de oferta e demanda, ele enxerga maior busca de competidores globais por projetos de fusões e aquisições. Nos últimos meses, importantes operações foram anunciadas, como a de Anglo American e Teck Resources, negócio de US$ 50 bilhões. A BHP, por sua vez, tentou uma combinação com a Anglo American, que não foi adiante. E as conversas entre Rio Tinto e Glencore voltaram a se engajar para avançar principalmente nos portfólios de cobre
No caso da Vale, o executivo disse que a mineradora tem potencial para crescer organicamente. “É onde a gente tem focado os nossos esforços.”
Segundo o executivo, a China deve continuar muito demandante em aço, embora o país esteja reduzindo os investimentos no mercado imobiliário. O país, disse ele, está expandindo em manufatura e infraestrutura.
As ações da mineradora têm se recuperado nos últimos meses, mas o executivo disse que os papéis seguem descontados. Em 12 meses, as ações subiram quase 60%. Há duas semanas, a gestora americana Capital World voltou a aumentar exposição na Vale e informou, no dia 12 de janeiro, que atingiu 5,02% dos papéis da mineradora. Em 2023, tinha cerca de 13%, conforme publicou o Valor.
Esse movimento, de acordo com os analistas, indica que a Vale tem endereçado os principais gargalos, como o acordo definitivo de reparação de Mariana, desastre ocorrido em 2015 e assinado em 2024, e o cumprimento de metas operacionais.
Questionado, o executivo diz que tem notado, de fato, um interesse renovado em relação à companhia. Ele atribuiu esse maior interesse de investidores pelo dever de casa que a Vale tem feito. “A gente esteve fora de várias listas por vários investidores ao longo dos últimos anos e que agora vem retomando na nossa base.”
Segundo ele, há uma percepção de que a Vale está muito bem posicionada quando se olha a indústria para o futuro, além do potencial minerário muito grande nas commodities estratégicas para o grupo.
Há quatro anos na companhia, Pimenta foi escolhido o CEO do grupo em outubro de 2024, após um processo tumultuado para sucessão.
“Acho que tem muita coisa para fazer ainda pela frente, mas, obviamente, o fato de a gente ter conseguido alcançar uma boa estabilidade operacional foi importante. Eram temas muito importantes que a gente priorizou e conseguiu avançar. Estamos olhando mais para o futuro, de retomar o nosso protagonismo dentro da indústria. A Vale já foi a segunda maior empresa em valor de mercado na mineração e a gente, por várias razões, perdeu essa posição.”
O executivo afirma que a ValeCotação de Vale deverá manter os investimentos no Brasil, a despeito do ano eleitoral. E que a relação da mineradora com o governo está “muito harmônica” e alinhada sob o ponto de vista do que a companhia quer fazer e o do que é bom para o país.
Em Davos, Pimenta teve uma agenda focada em discussões sobre carros elétricos, transição energética e o papel da mineração no mundo e sobre descarbonização. A companhia é uma das patrocinadoras da Brazil House, que desde o ano passado tem um espaço para que a iniciativa privada receba investidores e autoridades políticas para discutir a agenda do país. Pimenta também participou na quarta-feira (21) no seleto jantar com o presidente dos EUA, Donald Trump.
Fonte: Valor Econômico
