A invasão da Ucrânia pela Rússia, na manhã de 24 de fevereiro de 2022, foi um evento transformador. Fez o mundo crescer menos e ficar mais dividido, mais instável e mais perigoso. Esse processo de mudança continua e é difícil saber até onde nos levará. Desde o final da Guerra Fria, por exemplo, não se falava tão abertamente em guerra entre as principais potências.
A guerra na Ucrânia precipitou uma fratura entre o Ocidente e a Rússia. As relações econômicas estão congeladas (o Ocidente bloqueou cerca de US$ 300 bilhões das reservas internacionais russas que estão em bancos ocidentais). Os líderes não se falam (o Ocidente pede até a condenação do presidente russo, Vladimir Putin, por crimes de guerra no Tribunal Penal Internacional da ONU). Não há mais voos diretos entre EUA/Europa Ocidental e Rússia. Tudo isso remete ao auge da Guerra Fria.
Essa ruptura completa deverá durar muito tempo ainda. Não há no horizonte visível nenhuma perspectiva de normalização das relações. Pelo contrário. Nesta semana os EUA divulgaram uma suposta iniciativa russa de ameaçar satélites com armas nucleares, o que violaria um acordo de desmilitarização do espaço. E o presidente americano, Joe Biden, se referiu em público a Putin como “um louco filho da p…”.
O resultado disso foi um rearranjo estratégico global. Moscou passou ainda mais para a órbita econômica e política da China. E a tensão entre o Ocidente e a China, que já vinha crescendo, ganhou mais impulso. Tudo isso tem enormes implicações globais.
Na prática, o mundo todo perdeu economicamente nesse período. Houve uma escalada global nos preços das principais commodities exportadas pela Rússia, como grãos, petróleo, gás e fertilizantes. A maioria das dessas commodities já voltou a valores pré-guerra, mas o petróleo segue acima de US$ 80.
Essa escalada de preços contribuiu (juntamente com a covid-19) para o aumento da inflação pelo mundo. A inflação global, calculada pelo FMI, foi de 8,7% em 2022, a maior desde 1996. Isso obrigou os bancos centrais a elevar os juros. O Fed (BC americano) começou o seu ciclo de aumento de juros três semanas após a invasão da Ucrânia, em 16 de março de 2022.
Inflação e juros maiores desaceleraram a demanda e a produção mundiais. A alta de preços de alimentos e energia afetou duramente a população mais pobre, que já sofrera mais com a pandemia.
A guerra está devastando a Ucrânia. A sua economia foi arrasada, há dezenas de milhares de mortos e feridos (especialmente homens em idade de trabalhar, o que será uma perda para o país por gerações), boa parte da infraestrutura física terá de ser reconstruída.
A Rússia também sofreu. Perdeu seu principal mercado, a Europa. Sofreu com a saída de empresas ocidentais, que criavam empregos e transferiam tecnologia. Está sob sanção e depende hoje da China, um parceiro difícil. Mas alta demanda global por energia, fertilizantes e grãos permite ao país manter o seu esforço de guerra. Houve ainda um grande fechamento político, com repressão ainda maior ao dissenso, que culminou na semana passada com a morte na cadeia do principal líder opositor, Alexei Navalny. Putin deverá ser reeleito agora em março praticamente sem oposição. Os candidatos que poderiam causar algum constrangimento ao presidente foram barrados da disputa.
Fonte: Valor Econômico