A Moderna capturou novamente a atenção dos investidores, em meio a um surto de interesse especulativo ligado a um raro surto viral, poucos dias após suas ações caírem, devido a resultados trimestrais mistos.
Na última semana, as buscas on-line por “Moderna” e “vacina da Moderna” saltaram 30% e 80%, respectivamente, de acordo com o Google Trends. Esses picos coincidem com uma explosão de interesse em termos como “hantavírus”, “Moderna hantavírus” e “vacina contra hantavírus”.
Os usuários claramente querem saber sobre o patógeno transmitido por roedores detectado a bordo do navio de cruzeiro MV Hondius, que deve chegar à Espanha até domingo (10).
O hantavírus é, relativamente, incomum globalmente e concentra-se principalmente em partes da Ásia e da Europa. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos registraram menos de 900 casos no país entre 1993 e 2023.
Até quinta-feira (7), a Organização Mundial da Saúde (OMS) havia recebido relatos de oito casos ligados ao surto no navio, incluindo três mortes. Cinco dos oito foram confirmados como hantavírus, enquanto os outros eram casos suspeitos.
Embora o risco de contágio seja baixo, o surto despertou temores de outra pandemia semelhante à covid-19. E, além das implicações para a saúde humana, os investidores também querem saber o que o hantavírus significa para uma das maiores fabricantes de vacinas do mundo.
É fácil se surpreender com a taxa de mortalidade do hantavírus, que pode chegar a 50%. No entanto, ele não é tão facilmente transmissível quanto a covid. A cepa Andes, identificada no cruzeiro, é encontrada principalmente no Chile e no ponto de origem do navio, a Argentina.
Essa pegada geográfica restrita é relevante para a Moderna do ponto de vista de receita. A Evercore ISI observou, na quinta-feira, que, atualmente, “não há oportunidade de receita significativa”, acrescentando que a ação “tende a ser negociada com base em manchetes de surtos muito além das implicações comerciais subjacentes”.
Independentemente disso, a explosão de interesse tem sido positiva para os atuais acionistas da Moderna. Desde que a OMS relatou o grupo de casos de hantavírus vinculados ao surto no MV Hondius, as ações subiram quase 16%. O S&P 500 subiu 2,6% no mesmo período.
A ação segue estendendo sua alta. Os papéis da Moderna saltavam quase 18%, para US$ 57,08, nesta sexta-feira (8), superando de longe o ganho de 0,8% do S&P 500 — o papel fechou em alta de 11,97%, no pregão regular, e subia 3,79%, por volta das 20h28 (horário de Brasília) no pós-mercado de Nova York.
Os investidores esperam que a Moderna entregue outro avanço, semelhante ao seu papel fundamental no lançamento da segunda vacina autorizada contra a covid-19 nos Estados Unidos no auge da pandemia.
A farmacêutica estuda o hantavírus há anos em colaboração com o Instituto de Pesquisa Médica de Doenças Infecciosas do Exército dos Estados Unidos e, separadamente, trabalha com o Centro de Inovação em Vacinas da Faculdade de Medicina da Universidade da Coreia para explorar tratamentos.
Embora a Moderna não tenha discutido publicamente nenhum candidato, o site de seu programa mRNA Access lista o “vírus Hantaan” e “hantavírus que causam a síndrome pulmonar por hantavírus” como “patógenos permitidos”. Isso significa que a Moderna compartilha sua tecnologia de mRNA e capacidade de fabricação com parceiros externos que buscam atingir esses vírus.
Em comunicado na quinta-feira (7), a empresa confirmou que estava explorando um tratamento para o hantavírus, classificando os esforços como em “estágio inicial e contínuos” e como parte de um esforço mais amplo para enfrentar doenças infecciosas emergentes.
Mesmo antes desse último surto de interesse, a ação vinha apresentando um desempenho notavelmente forte este ano. Incluindo os ganhos desta sexta-feira, a Moderna saltou 84,30% em 2026, contra uma alta de 8% do mercado em geral. As ações mais que dobraram de valor nos últimos 12 meses.
Os próximos passos da empresa ainda não estão claros. Mesmo que a Moderna produzisse um tratamento — um esforço que parece levar anos — e obtivesse aprovação regulatória em meio ao maior escrutínio sobre sua tecnologia de mRNA, o mercado total endereçável para o hantavírus é pequeno.
O catalisador mais urgente para a ação serão os próximos dados sobre câncer, como apontou a analista Salveen Richter, do Goldman Sachs, na semana passada. A Moderna deve se apresentar na grande conferência de oncologia ASCO 2026 no final de maio, após a divulgação de dados de acompanhamento de cinco anos para os testes de Fase 2 de sua vacina contra o câncer baseada em mRNA, em conjunto com a imunoterapia Keytruda, da Merck.
A vacina, intismeran autogene, é adaptada para pacientes com tumores sólidos, particularmente melanoma de alto risco. Muitos analistas a consideram a pedra angular do pipeline de oncologia da Moderna.
O analista Joseph Stringer, da Needham, descreveu recentemente esses programas como os “principais impulsionadores de valor futuro” da Moderna. Daqui para a frente, o analista planeja monitorar outras leituras de dados, incluindo os resultados de dois ensaios que avaliam a eficácia do intismeran isoladamente em pacientes com carcinoma de células renais e como terapia adjuvante para melanoma.
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Fonte: Valor Econômico