Brasil e México serão dois dos países beneficiados com o processo em curso de empresas saindo de lugares mais distantes e se realocando em outros mais próximos de seus mercados consumidores. Deepak Puri, CIO para as Américas do Deutsche Bank, chama isso de “reglobalização”. Em entrevista ao Valor, Puri disse que os problemas com as cadeias de abastecimento na pandemia e as recentes tensões geopolíticas irão levar cada vez mais as empresas a estabelecerem suas unidades em países mais próximos e que compartilhem dos mesmos valores. Porém, ele alerta: esse processo é inflacionário. “O papel da China como agente de desinflação na economia mundial está acabando”, disse. Leia abaixo os principais trechos da entrevista concedida pelo executivo.
Valor: O Brasil é um bom lugar para o investidor global estar em um cenário de juros elevados por mais tempo?
Deepak Puri: Sim, é. Na América Latina, México e Brasil se destacam. No caso brasileiro, a lição de casa bem feita pelo Banco Central, sendo um dos primeiros grandes bancos a elevar os juros quando viu o crescimento da inflação pós-pandemia, foi essencial. Hoje, bolsas e câmbio vêm registrando um bom desempenho. Mas também tem um outro fator em movimento: a “reglobalização”, o processo em que muitos países estão revendo suas cadeias de abastecimento.
Valor: Não seria uma “desglobalização”?
Puri: Não, porque globalização e comércio exterior ainda vão acontecer, mas será mais dentro de blocos. Os países estão querendo fazer negócios e ter empresas ou comprar produtos em fontes mais próximas e, nessa escolha, escolherão aliados geopolíticos e aqueles que compartilham de seus valores. Eu disse reglobalização porque a ideia é que uma empresa não vai sair da China, por exemplo, mas vai pensar em ter outra em um lugar que seja mais perto de seus mercados. Eles estão pensando: se a retórica entre EUA e China aumentar e as coisas se complicarem lá, onde eu vou produzir? Nesse caso, a importância de países como México e Brasil, até pela maior proximidade com os EUA, no mundo ocidental, vai crescer. Na Ásia, Índia e Vietnã serão beneficiados. Eu diria que o Brasil vai se beneficiar também pelo crescimento na demanda por commodities. O mundo não para de crescer e precisa de commodities, e o Brasil é um grande exportador. Já o mercado de capitais brasileiro precisa ter um fôlego maior para ser atraente para investidores internacionais, tanto corporativos como pessoa física. Só existem algumas empresas brasileiras com liquidez suficiente para gerar atração lá fora. Mas as commodities e a reglobalização vão deixar o Brasil mais atraente para o investidor global. Mas ela é um processo inflacionário.
Não quero descartar a capacidade do Federal Reserve de levar a inflação de volta a meta de 2%”
Valor: Por conta dos custos de mão de obra?
Puri: Exato. A China tem sido um motor desinflacionário para o mundo por ter a habilidade de manter uma mão de obra barata. Se o custo não for mais o critério de local de produção e outros fatores como proximidade e aliados geopolíticos forem mais importantes, e o local escolhido for mais caro, esse aumento vai ser repassado ao preço final dos produtos. Então, de certa forma, essa reglobalização será ligeiramente inflacionária para o mundo.
Valor: Isso vai afetar a capacidade do Federal Reserve de levar a inflação de volta à meta de 2%?
Puri: Eu não quero descartar a capacidade do Fed de levar a inflação de volta a meta de 2%. Na convenção de Jackson Hole, em agosto deste ano, o presidente do Fed, Jerome Powell, reafirmou que quer persistir na meta de 2% e não vejo nenhuma mudança nessa meta de 2% no médio prazo. Mas a inflação é difícil de calcular. Temos inputs de dados econômicos e temos inputs do que o mercado está dizendo sobre a inflação. As TIPs [título do Tesouro dos EUA atrelado à inflação similar à NTN-brasileira] podem estar indicando uma inflação para daqui a cinco anos, o índice de expectativa de inflação da Universidade de Michigan para o mesmo período pode ser outro. Não há forma segura de saber como será o comportamento da economia e dos consumidores em um horizonte tão amplo com precisão. Mas acho que a inflação vem caindo de forma muito boa. A experiência da década de 1970, de quando a inflação caiu e depois voltou, ainda está muito viva na memória institucional do Fed e o banco central quer evitar o mesmo erro, tirando o pé do pedal mais cedo. Dessa vez foram mais agressivos.
Valor: O sr. disse que vê alguns riscos…
Puri: O que nos preocupa é com as coisas que estamos vendo como repiques na inflação. No mês passado o Índice de Preços ao Consumidor [CPI, sigla em inglês] deu um repique. E a inflação de moradia, os preços dos aluguéis, está subindo 0,6% mês a mês, o que chega a quase 7% se anualizada. Por outro lado, componentes de bens e serviços estão em queda.
Valor: O Fed mexe nos juros na reunião desta semana?
Puri: Não. Meu cenário-base é de que o Fed já encerrou seu ciclo de alta e a taxa terminal já foi atingida. As condições financeiras estão ficando mais apertadas, os juros de cartão de crédito e as hipotecas estão subindo. Então de certa forma muito do trabalho do Fed já foi feito e agora é deixar as condições financeiras fazerem o restante, pois esse é o mecanismo de transmissão usada pelo banco. Acredito que o Fed vai dar uma pausa para ver o que acontece com as condições financeiras até a reunião de dezembro. O problema é que os últimos dados divulgados mostram uma economia ainda muito resiliente. Existe uma chance de 30% de o Federal Reserve ter que elevar os juros mais uma vez. Mas eu acho que a mensagem principal é de que estamos no pico ou próximo do pico de juros deste ciclo de aperto. E então dada a desaceleração da economia esperada para o primeiro trimestre do próximo ano, o Fed vai começar a cortar em maio de 2024. Até lá, os rendimentos dos Treasuries tendem a ficar elevados e têm espaço para eles subirem para próximo do patamar atual dos ‘federal funds’.
Fonte: Valor Econômico

