Por Daniel Flatley, Bloomberg
17/01/2023 21h11 Atualizado há 13 horas
O comércio entre os EUA e a China está prestes a quebrar recordes, em um sinal da resiliência dos laços entre as duas maiores economias mundiais, em meio à acalorada retórica de segurança nacional e aos temores de “descolamento”.
Dados do governo dos EUA até o fim de novembro sugerem que as importações e exportações em 2002 foram recorde, ou ao menos chegarão muito perto disso, quando o relatório definitivo sair, em 7 de fevereiro. Pequim acaba de publicar seus dados de 2022, que mostram um comércio bilateral recorde de US$ 760 bilhões.
Há algumas restrições a observar. O comércio desacelerou mais para o fim do ano, quando a demanda americana por importações perdeu força e a China enfrentou dificuldades para administrar suas restrições anti-covid. E os dados de comércio não estão corrigidos pela inflação, o que significa que números mais elevados em dólar podem não se traduzir num maior volume de bens remetidos.
Mesmo assim, são números impressionantes em tempos em que o endurecimento com a China mais se aproxima de se constituir num consenso suprapartidário em Washington. Eles ilustram o quanto as duas economias continuam entrelaçadas — apesar de os EUA pretender deter o avanço da China e de Pequim almejar fazer frente à influência global de Washington.
“Será que podemos travar essa guerra tecnológica e ter, ao mesmo tempo, relações comerciais tão robustas no em todas as esferas restantes? Meu instinto diz que ‘sim’”, disse, David Dollar, professor-visitante-sênior em política externa da Brookings Institution. “[Essa tese] se baseia em eficiência econômica, é o que as empresas querem, lhes possibilita fornecer bens e serviços aos consumidores.”
O tipo de “descolamento draconiano” defendido por alguns em Washington teria, se adotado, “um grande efeito negativo sobre os padrões de vida americanos”, disse ele. “Acho que a política dos EUA não seguirá esse caminho, seja qual for sua retórica.”
Cálculo semelhante tende a ser feito pela China também, onde o crescimento econômico puxado pelo comércio ainda é essencial para elevar os padrões de vida e a estabilidade.
Uma alta autoridade chinesa da área econômica, o vice-premiê Liu He, disse ontem no Fórum Econômico Mundial em Davos que tudo indica que haverá um aumento relevante das importações chinesas neste ano, num momento em que a economia do país se recupera após uma onda de novos casos de contaminação por vírus, e disse que a China é contrária ao “unilateralismo e ao protecionismo”.
Liu, que foi o principal negociador comercial de seu país com o governo do presidente Donald Trump, deverá se reunir hoje com a a secretária do Tesouro dos EUA, Janet Yellen, em Zurique.
O comércio EUA-China sobreviveu, em boa medida, às tarifas impostas pelo governo Trump e à sua manutenção durante o governo Biden, que introduziu muitas medidas próprias destinadas a desacelerar a capacidade da China de desenvolver semicondutores avançados. O Congresso americano também aprovou legislação voltada para combater o que é definido pelos parlamentares como abusos de direitos humanos chineses, e para impulsionar a produção americana de chips.
“Esta é uma luta por supremacia tecnológica”, disse Mike Burns um dos sócios do Murray Hill Group, empresa de private equity e venture capital concentrada em semicondutores. Não implica necessariamente numa fissura comercial mais ampla, disse ele, porque os dois países têm objetivos diferentes — liderança tecnológica para os EUA, autonomia tecnológica para a China — e eles não são mutuamente excludentes.
Mas há o risco de que os dois países acabem em rota de colisão, diz Burns: “Os EUA têm de agir com cuidado para, ao proteger sua liderança, não criar uma ameaça existencial à China, ao eliminar a capacidade dela de avançar em direção à independência em semicondutores”.
A crescente tensão política observada nos últimos anos pode ter tido mais impacto sobre os fluxos de investimentos em bens de capital do que sobre o comércio.
As empresas americanas desaceleraram novos investimentos na China. Para muitas, “o cálculo risco/recompensa se inclinou contra continuar a operar na China”, disse Thilo Hanemann, que monitora os investimentos diretos EUA- China para o Rhodium Group.
As empresas estão preocupadas com o panorama de crescimento da própria China, bem como com o acirramento das tensões geopolíticas, disse ele. “Estamos, sem dúvida, vendo evidências de que os investidores estão se retirando.”
Alguns estão realocando os investimentos produtivos para lugares como Vietnã e México, o que pode ajudar esses países a conquistar uma parcela maior das importações dos EUA em detrimento da China — embora empresas chinesas possam também encontrar formas de operar nesses países e continuar a vender aos EUA.
Já os investimentos chineses nos EUA desaceleraram drasticamente desde o auge observada em meados dos anos 2010. Hanemann atribui esse pico a um ajuste da legislação chinesa por volta de 2014, que deu às empresas chinesas mais liberdade de desenvolver projetos no exterior e que resultou em uma superoferta de compras de empresas e de imóveis americanos.
Apesar disso, há muitas grandes companhias com vultosos investimentos em bens de capital na China que dão sinais de ficar no longo prazo — e um grande número de empresas globais dispostas a injetar dinheiro nelas.
“A retórica sobre descolamento continua a atropelar a realidade”, disse Ali Wyne, analista-sênior do Eurasia Group e autor de livro recente sobre as relações EUA-China. “Os EUA e a China “considerarão difícil, se não impossível, cortar totalmente seus laços econômicos”.
Fonte: Valor Econômico