A China aprofundou os laços econômicos com os países sul-americanos em áreas que vão da logística às comunicações via satélite, aumentando o comércio com o continente 40 vezes em duas décadas, enquanto os Estados Unidos reduzem o envolvimento no que tradicionalmente consideram uma área de influência histórica.
O primeiro navio de carga a partir do Porto de Chancay, no Peru, atracou em Xangai após uma viagem de 23 dias pelo Oceano Pacífico no mês passado. O novo porto de águas profundas, localizado perto da capital peruana, Lima, reduz o tempo de embarque em mais de 10 dias.
A estatal China Cosco Shipping possui uma participação majoritária em Chancay e liderou sua construção. O congresso peruano concedeu à Cosco direitos operacionais exclusivos para o porto.
Como Chancay pode acomodar os maiores navios do mundo, ele elimina a necessidade de transferir carga para diferentes embarcações no México ou na Costa Oeste dos Estados Unidos. O presidente chinês, Xi Jinping, elogiou o “nascimento de um novo corredor terrestre-marítimo entre a Ásia, a América Latina e o Caribe” na cerimônia de inauguração do porto em novembro.
Enquanto alguns criticam o porto como outra tentativa de Pequim de enredar países emergentes e em desenvolvimento em uma “armadilha da dívida”, a China e os países da América do Sul têm visto benefícios práticos.
Os países sul-americanos fornecem à China alimentos como soja, trigo e açúcar, bem como minerais usados em veículos elétricos e smartphones. Enquanto isso, a China exporta eletrônicos e vestuário para a América do Sul.
O comércio entre 12 países sul-americanos e a China cresceu 40 vezes entre 2000 e 2023 para US$ 322,9 bilhões, de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI). O comércio combinado com a China ultrapassou o dos Estados Unidos em 2015.
Em 2023, o comércio com a China superou o dos Estados Unidos em mais de 50%, com seis dos 12 países negociando mais com os chineses do que com os americanos. O Brasil, a maior economia da região, aumentou seu comércio com a China em 68 vezes entre 2000 e 2023, registrando um superávit comercial de aproximadamente US$ 50 bilhões.
Os Estados Unidos aumentaram o envolvimento na América do Sul durante a Guerra Fria para evitar a disseminação do comunismo. Mas recuaram após o colapso da União Soviética em 1991, deixando espaço para a China expandir sua influência na região.
Nos últimos anos, Pequim investiu ativamente não apenas nas indústrias de mineração e agricultura da América do Sul, mas também em sua infraestrutura, redes de telecomunicações e indústria aeroespacial.
Em novembro, a Shanghai Spacecom Satellite Technology, também conhecida como Spacesail, assinou um acordo para lançar serviços de telecomunicações via satélite no Brasil já em 2026. Esta é a primeira incursão da Spacesail no exterior, e a empresa planeja investir US$ 1 bilhão nos próximos anos.
A empresa chinesa Huawei Technologies tem data centers no Chile, Peru e Brasil, com planos de construir um quarto neste último para atender à crescente demanda vinculada à inteligência artificial. Acredita-se que ela opere 178 centros de pesquisa na América Central e do Sul, e suas câmeras alimentadas por inteligência artificial estão sendo usadas em instalações comerciais e fábricas na região.
Os players chineses também estão fazendo incursões no setor de manufatura da América do Sul. A fabricante de veículos elétricos BYD quase quadruplicou o volume de vendas no Brasil no ano passado.
Ao entrar cedo em veículos elétricos e novas tecnologias de telecomunicações na América do Sul, a China pretende que suas ofertas se tornem o padrão regional. A nova rota de transporte do Porto de Chancay pode aumentar ainda mais as vendas de produtos chineses.
Os laços se estendem também à moeda. Em 2023, Brasil e China assinaram um acordo para usar o yuan e o real para liquidar o comércio bilateral. O Brasil detinha 80% de suas reservas estrangeiras em dólares e 4,8% em yuan no fim de 2023, em comparação com 86,8% e 1,1% em 2019, de acordo com seu banco central.
Bolívia e Argentina também começaram a usar o yuan para liquidar o comércio com a China.
A América Central e do Sul abriga 650 milhões de pessoas e é uma região geopoliticamente importante com acesso aos oceanos Pacífico e Atlântico. Seus laços econômicos com a China são vistos como tendo grandes consequências na política externa.
Honduras e Nicarágua, na América Central, cortaram laços diplomáticos com Taiwan nos últimos anos devido à pressão econômica de Pequim. O Paraguai é o único parceiro diplomático de Taiwan na América do Sul, mas há um impulso crescente para fortalecer os laços econômicos com a China.
Os Estados Unidos e a Europa ficaram alarmados com esses acontecimentos. Em dezembro, a União Europeia chegou a um acordo de livre comércio com o bloco comercial sul-americano Mercosul — parte dos esforços para conter a influência da China.
A nova administração dos Estados Unidos também lança incertezas sobre a América Central e do Sul. O presidente Donald Trump prometeu retomar o controle do Canal do Panamá e não descarta o uso de força militar ou econômica para isso.
A redução das exportações de grãos dos Estados Unidos para a China durante o primeiro mandato de Trump levou o Brasil e outros países sul-americanos a preencher a lacuna. A Argentina já está novamente aumentando as exportações de trigo e milho para a China.
Fonte: Valor Econômico