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A alta dos juros futuros de longo prazo diante da piora do cenário macroeconômico neste ano, com dúvidas em relação à política fiscal e controle da inflação no Brasil e a demora dos Estados Unidos em cortar os juros, está levando mais empresas a incluírem séries prefixadas em suas emissões de debêntures e certificados de recebíveis imobiliários e do agronegócio (CRIs e CRAs). A estratégia é adotada sob recomendação dos bancos coordenadores para aumentar os volumes vendidos ao mercado.
Dados do Bradesco BBI mostram que o volume de operações prefixadas nos cinco primeiros meses de 2024, R$ 13 bilhões em 38 ofertas, já corresponde a praticamente a metade do visto em todo o ano de 2023 (R$ 28 bilhões em 66 ofertas). Se considerado o mesmo período do ano passado, bastante afetado pela descoberta da fraude da Americanas, o aumento é de 622% (R$ 1,8 bilhão em 16 ofertas).
“A demanda por operações prefixadas tem crescido bastante, por isso recomendamos a inclusão de séries para atingir volumes relevantes. Como a curva de juros subiu bastante, as pessoas querem aproveitar esse momento e travar a taxa de juros num patamar alto”, diz Marina Milanez Rodrigues, responsável pelo mercado de dívida local no Bradesco BBI.
Rafael Garcia, responsável pela área de renda fixa e operações estruturadas do Banco Safra, diz que também orienta a inclusão de séries prefixadas em emissões que querem testar volumes maiores. “Por mais que não se tenha clareza de quando o fechamento da curva vai começar, todo mundo quer travar esse nominal. O investidor olha uma taxa de 13% anuais em uma operação de cinco anos, calcula os juros reais de 7,5% e pensa ‘nada mal, quero travar’.”
O executivo dá o exemplo da recente emissão de R$ 2 bilhões em Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) da BRF, da qual o Safra foi um dos coordenadores e cuja demanda ultrapassou R$ 2,8 bilhões, segunda maior demanda para ofertas de CRIs (Recebíveis Imobiliários) e CRAs nos últimos dois anos. A série prefixada teve o volume relevante de R$ 925 milhões, com taxa de 12,93% e vencimento em 2031. Ele comemora a participação de 30 mil CPFs. “Era um sindicato com muitos bancos participantes e a segunda maior demanda de investidores qualificados veio do Safra.”
Outro exemplo foi a emissão de CRAs da JSL em março, cuja série prefixada foi de R$ 1,17 bilhão, a 11,3% ao ano, de um total de R$ 1,750 bilhão, com vencimento em sete anos. E as debêntures incentivadas da Enauta, em junho, com R$ 539 milhões em prefixados a 13,6% ao ano com vencimento em seis anos, de uma operação total de R$ 2,1 milhões, com demanda acima do previsto inicialmente (R$ 1,750 bilhão) e uso de lote adicional.
Garcia ressalta que a demanda das pessoas físicas de janeiro a maio de 2024 está 128% superior ao mesmo período de 2023, o que, afirma, está obrigando os bancos a desenvolver a área de distribuição para esse público. “Nós já tínhamos a visão de que era um crescimento irreversível e por isso desenvolvemos a área antes.”
Com o aumento dos prefixados, comenta ele, o resultado é um encurtamento dos prazos dos papéis. Isso porque o emissor evita prazos maiores e a próprio investidor pessoa física, principal comprador dessas séries, também é mais refratária a vencimentos longos.
“Companhias mais sofisticadas entendem que para transações maiores precisam fazer isso, apesar de não ser preferência. Mas podem fazer porque, dentro da tesouraria, anulam esse risco via contratos de swap e alcançam bolsos maiores”, explica Garcia.
Levantamento do Banco ABC Brasil mostra que neste ano apenas oito operações tiveram prazo superior a sete anos, e a concentração maior é no prazo de cinco anos. Ricardo Gentile Rocha, sócio e diretor do ABC Brasil Investment Bank, confirma o crescimento das séries prefixadas e a recomendação do banco para inclusão dessa opção – principalmente para operações acima de R$ 1 bilhão -, mas pondera que, frente ao total de emissões no país, essas operações ainda ocupam fatia pequena. Neste ano, por exemplo, correspondem a 4,3% do volume geral.
Ele chama a atenção para o fato de as pessoas físicas geralmente não estarem preocupadas com marcação a mercado e ficarem satisfeitas em comprar prefixados. “Mas, se a percepção de risco aumentar, a curva de juros abre mais e quem precisar vender o papel terá perda, já que será obrigada a devolver parte desse ganho e vender mais barato.” Rocha, inclusive, vê uma tendência maior de abertura da curva do que de fechamento no curto prazo.
Garcia, do Safra, diz estar otimista de que o volume de ofertas vai continuar forte, mas frisa que quem está tentando testar spreads muito baixos não consegue colocação forte no mercado. “Tivemos ofertas com prêmios apertados que sobraram. Existe uma sensibilidade a preço e quem oferece uma taxa melhor vem tendo sobredemanda. A empresa gostaria de pagar menos mas já houve um fechamento muito grande e o investidor não está aceitando, está dizendo não dá para ir mais. O mercado chegou a um equilíbrio.”
Relatório da área de pesquisa do Banco ABC mostra que junho teve o terceiro maior volume de emissões primárias do ano (R$ 58,6 bilhões), mas a distribuição para o mercado por parte dos bancos coordenadores atingiu o menor percentual do ano: apenas 37%. Em maio, essa fatia havia sido de 55% e o pico do ano, 74%, foi em fevereiro, em meio à tensão com as medidas adotadas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) no início daquele mês, retringindo CRIs, CRAs, LCIs e LCAs.
Rocha, do ABC Brasil, diz que o fato de vários bancos disputarem os mesmos mandatos acabou levando a exageros nas taxas. As instituições tiveram que ficar com os papéis e vender depois no secundário com deságio. Mas, como o negócio começa a não ser vantajoso, os bancos foram se ajustando. “Se algumas emissões tentaram vir a mercado apenas oferecendo a NTN-B, sem prêmio de risco, agora estão vindo a 10 ou 15 pontos-base acima. Assim se normalizou o mercado para classificação de crédito triplo ‘A’.”
Ele afirma que a manutenção da Selic em patamar alto, a 10,5%, acende a luz amarela para emissores com balanços mais frágeis, de nota “A” para baixo, mais alavancados e que pagam spreads maiores, em torno de CDI mais 0,5%. “É uma taxa que machuca, vai comprometendo o balanço da empresa.”
Rodrigues, do Bradesco BBI, comenta que os instrumentos com isenção fiscal, focados em pessoas físicas, têm participação forte das séries prefixadas. De acordo com ela, metade dos CRAs emitidos neste ano e 25% dos CRIs e debêntures incentivadas tiveram taxa pré-determinada. No entanto, ela afirma estar vendo muitas companhias preferirem montar ofertas restritas a investidores profissionais, que são as gestoras e as tesourarias.
O sócio do ABC Brasil Investment Bank também destaca que as emissões de debêntures simples estão aquecidas, para atender à demanda dos fundos de crédito privado, cuja captação está forte e que impulsiona o apetite para ativos corrigidos pelo CDI.
Segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), do total de R$ 175,6 bilhões captados pelo setor de fundos no ano até maio, R$ 106 bilhões foram em carteiras com mais de 50% em crédito privado. “Estamos vendo empresas que não emitiam há tempos em CDI optando pelo indexador. Fica um pouco mais caro, mas tem liquidez.”
Diante da demanda em alta por prefixados, a Itaú Asset abriu uma estratégia de fundos de debêntures incentivadas com rendimento prefixado que já soma R$ 1 bilhão em patrimônio. A captação é feita em janelas, a última encerrada há dois meses, e a carteira é composta de papéis incentivados comuns, pós-fixadas, mas a asset trava o rendimento para os investidores. Os fundos têm vencimento determinado, um em 2027 e o outro em 2028. “O público é a pessoa física acostumada a investir em LCIs e LCAs e que vê no fundo a alternativa isenta”, diz Fayga Czerniakowski Delbem, superintendente de crédito privado da Itaú Asset.
Já a BTG Pactual Asset Management abriu há três meses seu fundo prefixado, o BTG Pactual Debêntures Incentivadas Pré, mas ainda em testes, com patrimônio líquido hoje de R$ 10 milhões e possibilidade de saques a cada 30 dias. “É um teste, percebemos muita demanda por ativos prefixados. Mas num fundo aberto marcado a mercado é um desafio, já que quando a curva de juros sobe, o fundo cai”, afirma Eduardo Arraes, é sócio e responsável pelos fundos de crédito da gestora. “Temos dúvidas de quanto essa volatilidade vai impactar a demanda, mas achamos que valia a pena tentar.”
Fonte: Valor Econômico