Por Marta Watanabe e Lucianne Carneiro — De São Paulo e do Rio
14/09/2022 05h01 Atualizado há 10 horas
A continuidade do crescimento de segmentos como tecnologia da informação (TI) e transporte de cargas, ao lado da influência das férias escolares, impulsionou os serviços em julho. O setor atingiu o maior volume de serviços prestados em quase oito anos, desde novembro de 2014. Apesar de surpreendentemente positivo, o crescimento de 1,1% em julho em relação a junho, com ajuste sazonal, mostra indícios de esgotamento dos efeitos da reabertura da economia e de impacto da inflação e não muda o quadro de desaceleração esperado pelos economistas para o decorrer da segunda metade de 2022.
A Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) divulgada nesta terça-feira, 13, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), também revisou dado de junho, na comparação mensal, de alta de 0,7% para crescimento de 0,8%. Com o desempenho de julho, os serviços alcançaram patamar 8,9% superior ao do pré-pandemia, em fevereiro de 2020. Na comparação com julho de 2021, o indicador teve alta de 6,3%. No acumulado em 12 meses até o mês o aumento foi de 9,6%.
A alta em julho na margem ficou acima da mediana de 0,7% das estimativas de 21 consultorias e instituições financeiras ouvidas pelo Valor Data, com projeções que iam de queda de 0,6% a alta de 1,3%. Na comparação em relação ao mesmo mês do ano passado a expectativa mediana era de alta de 5,8%, com estimativas de alta de 4,2% a 6,7%.
Os grandes destaques na retomada “bastante significativa” dos serviços em julho ficaram com tecnologia da informação e transporte de cargas, aponta o gerente da PMS, Rodrigo Lobo. As duas atividades atingiram, em julho, o maior patamar da série histórica do indicador. “Houve necessidade de transformação digital, da maneira como empresas e famílias tiveram que lidar com a realidade. Isso gerou oportunidades de negócios para as empresas do setor, a despeito da oscilação recente em 2022. Ao mesmo tempo há a influência do transporte de cargas. Tivemos o avanço do comércio eletrônico e também o agronegócio.”
Houve também no mês influência das férias escolares, diz Lobo, que reforçaram retomada dos serviços presenciais, tendência já observada pelo avanço da vacinação e da flexibilização, com maior demanda por hotéis, restaurantes e transporte aéreo.
Os serviços prestados às famílias subiram 0,6% em julho, frente a junho, na quinta alta seguida na série ante mês anterior, o que garantiu ganho acumulado de 9,7% no período. Ainda assim, o segmento se mantém 5,7% do que registrava em fevereiro de 2020, marco do pré-pandemia.
Apesar do crescimento dos serviços acima do esperado em julho, o dinamismo da composição da PMS não muda a perspectiva de desaceleração na segunda metade do ano, principalmente no último trimestre, segundo o economista Rodolpho Tobler, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).
O desempenho de tecnologia da informação e dos transportes reflete mais a demanda das empresas, destaca, enquanto os serviços prestados às famílias, mesmo com alta em julho, mostram desaceleração em relação aos avanços de meses como março, abril e maio, refletindo já parte do esgotamento das medidas de estímulos do primeiro semestre, como adiantamento do 13ºº para aposentados e liberação do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Em reportagem publicada no dia 9, o Valor antecipou a perda de fôlego do setor.
Para agosto, o economista vê continuidade na tendência de desaceleração, mesmo com o início do pagamento do Auxílio Brasil elevado de R$ 400 para R$ 600 mensais, já que esse benefício é mais focado em famílias que tendem a direcionar consumo ao pagamento de contas e à compra de alimentos, ainda que um alívio na inflação possa favorecer os serviços.
A pressão inflacionária é desafio adicional na recuperação do setor, indica Lobo. “Apesar do arrefecimento nos últimos dois meses, por causa da redução do ICMS para combustíveis, energia e comunicação, é claro que a inflação afeta o volume de serviços.” Ainda há pressão inflacionária importante em 12 meses, que embora não impeça o crescimento do consumo de serviços, serve como limitador, explica.
Para Carlos Lopes, economista do BV, a leitura positiva de julho se deve também ao bom desempenho no mercado de trabalho. Diferentemente da indústria e do varejo, que refletem mais rapidamente o aperto monetário, diz, os serviços devem mostram o efeito dos juros de forma mais tardia, porque dependem menos de crédito e mais de renda.
Para o economista, os serviços às famílias podem continuar apresentando melhora no curto prazo, considerando os dados do mercado de trabalho, mas deve haver acomodação em outros serviços mais demandados por empresas e que cresceram muito. O setor de serviços como um todo deve desacelerar à frente, ao longo do segundo semestre. A leitura esperada para agosto ainda é de alta, mas não de forma tão intensa quanto a de julho. O banco espera alta de 0,2% nos serviços em agosto, na margem, com ajuste sazonal. Para 2022 a alta esperada na PMS é de 7,5%.
Livio Ribeiro, sócio da BRCG, também destaca o esgotamento dos efeitos da abertura da economia. Em boletim, ressalta que a retomada dos serviços tem sido marcada por grande heterogeneidade e a divulgação de julho não mudou esse cenário. Ele nota, porém, que as diferenças entre os diversos segmentos dos serviços têm diminuído. “Em específico, os serviços prestados às famílias já se encontram praticamente no nível anterior à pandemia – o espaço para recomposição das perdas com as restrições sanitárias se exaure.”
Fonte: Valor Econômico