Há tanto dinheiro fluindo para os mercados emergentes que dois fundos de hedge especializados em dívidas de díficil negociação começaram a recusar novos investidores. A Shiprock Capital Management Ltd., que investe em dívidas “estressadas” da Venezuela, Argentina e Ucrânia, deixou de aceitar novos aportes após os ativos sob gestão ultrapassarem US$ 1 bilhão. Já os gestores da Broad Reach Investment Management, empresa com US$ 3 bilhões sob gestão, afirmam que pretendem fechar seu principal fundo quando atingirem o limite de ativos previsto para este ano.
As duas gestoras estão colhendo os frutos de um rápido crescimento, mas o excesso de recursos torna mais difícil alocar dinheiro em mercados pequenos sem provocar movimentos de preço, e posições muito grandes podem ser difíceis de desmontar. Com mais capital disputando um universo restrito de ativos, fica mais complicado superar os benchmarks, afirmam gestores.
“Você ainda precisa ser ágil — precisa conseguir comprar, negociar e manter liquidez”, disse Frederick Schroder, diretor-presidente da Shiprock Capital. “Capital infinito não é seu amigo nesse segmento.”
Em um cenário de forte alta dos rendimentos dos títulos públicos dos Estados Unidos, Reino Unido e Japão, os fundos de dívida de mercados emergentes vêm atraindo investidores em busca de alternativas. Segundo o Bank of America, com base em dados da EPFR Global, os fundos de dívida de países emergentes registraram a sétima semana consecutiva de entradas líquidas, somando US$ 3,1 bilhões até 27 de maio.
Situação semelhante ocorre na Sandglass Capital Management, outra especialista em dívida estressada de mercados emergentes. Os gestores afirmam estar mais seletivos após os ativos sob gestão crescerem para US$ 1 bilhão, ante cerca de US$ 600 milhões há um ano.
Evgueni Konovalenko, sócio-diretor e responsável por estratégia e desenvolvimento de negócios da ProMeritum Investment Management, cujos ativos superaram US$ 1 bilhão no início de fevereiro, cita o exemplo de um investimento em Uganda que chegou a representar 3% de sua carteira.
“Como administramos um fundo de US$ 1,1 bilhão, não conseguimos ampliar ainda mais essa posição”, afirmou. “Mercados pequenos e de nicho, como Uganda, simplesmente não têm profundidade suficiente para absorver alocações maiores de capital. Por isso, optamos pela prudência.”
Essa flexibilidade ajudou os fundos de hedge a obter retorno médio de 33% em suas estratégias de títulos de mercados emergentes desde o início de 2024, quando começou a valorização da classe de ativos, segundo o índice de fundos de dívida da Bloomberg. Para comparação, os índices de dívida emergente em moeda forte e em moeda local avançaram 19% e 11%, respectivamente, no mesmo período.
“O mundo está subalocado em mercados emergentes; os fluxos de capital precisam voltar para esse universo para reequilibrar as carteiras”, disse Bradley Wickens, sócio, diretor de investimentos e diretor-presidente da Broad Reach. “Os ativos de mercados emergentes estão historicamente baratos, seja olhando para taxas reais de juros, posições em moeda local ou ações em comparação com os mercados desenvolvidos.”
Os fundos de hedge focados em mercados emergentes tiveram, em 2025, seu melhor ano em captação líquida em mais de uma década, segundo dados da HFR. Apenas nos três primeiros meses deste ano, receberam cerca de US$ 1,67 bilhão em novos recursos, o melhor resultado trimestral em três anos.
A ProMeritum nunca registrou um ano de perdas desde sua criação, em janeiro de 2015. Já a Sandglass acumula retorno de 318% desde seu lançamento, em 2013 — mais de quatro vezes o ganho do índice de fundos de dívida emergente da Bloomberg. A Shiprock, criada em 2023, entregou retorno superior ao dobro do índice.
No total, os ganhos gerados pelo desempenho dos investimentos acrescentaram US$ 27 bilhões ao patrimônio administrado pelos fundos de hedge de mercados emergentes desde o início de 2024, mostram os dados da HFR. Outros US$ 2,6 bilhões vieram de captações líquidas no período.
Embora alguns desses fundos estejam restringindo a entrada de novos recursos, também estão levantando capital para estratégias alternativas de crédito, fora dos mercados públicos de títulos.
A Shiprock lançou no início deste mês um fundo com mais de US$ 100 milhões voltado para situações especiais no mercado secundário de empréstimos. A Sandglass iniciou sua terceira estratégia de crédito privado com duração de cinco anos e meta de US$ 250 milhões, realizando um primeiro fechamento de quase US$ 100 milhões em abril de 2026 e prevendo o fechamento final para o próximo ano.
“A classe de ativos é atraente”, disse Michelle Kelner, cofundadora da Sandglass Capital, sediada em Nova York.
“Sempre há alguém enfrentando dificuldades financeiras, e os mercados emergentes tradicionalmente negociam com um prêmio de risco excessivo. Essa é a beleza dos mercados emergentes.”
Fonte: Valor Econômico