Por James Politi e Lauren Fedor, Financial Times — Washington
08/02/2023 13h06 Atualizado há 11 horas
O presidente dos EUA, Joe Biden, teve duas missões na terça-feira à noite, no discurso sobre o Estado da União, o primeiro desde que o Congresso voltou a ficar dividido, com os republicanos controlando a Câmara e os democratas mantendo a maioria no Senado.
A primeira tarefa era defender o atuação econômica do governo nos últimos dois anos, preparando o terreno para uma possível candidatura à reeleição em 2024, que pode ser lançada nas próximas semanas. “Estamos aqui para terminar o trabalho”, disse Biden.
A segunda tarefa de Biden, sem dúvida a mais importante, era mostrar que, aos 80 anos, ele ainda tem vigor para enfrentar os republicanos e vencer uma nova campanha eleitoral, seja contra Donald Trump ou outro candidato.
O resultado foi um dos discursos mais contundentes da Presidência de Biden, na qual ele saiu do roteiro em várias ocasiões para responder às provocações e zombarias dos republicanos em questões que vão desde o teto da dívida até a crise do fentanil e imigração.
Os democratas adoraram o discurso. “Levemos esse discurso no caminho rumo a 2024, isso deve acabar com as preocupações com a candidatura de Biden”, disse Jess O’Connell, estrategista democrata. “Biden está pronto para trabalhar com os republicanos onde eles puderem e quiserem, mas se alguns desses novos republicanos acham que podem intimidá-lo, é porque não o conhecem”, acrescentou ela.
A maior parte do discurso de Biden se concentrou em questões interna dos EUA, principalmente relacionadas à economia, num momento em que os índices de aprovação do presidente estão baixos. Ele buscou estabelecer relação entre os investimentos e subsídios de seus pacotes econômicos e a vida das famílias de renda média e baixa, enfatizando a tarefa de “ajudar pessoas que foram esquecidas”.
Biden também procurou traçar um contraste entre as políticas democratas e as dos republicanos do Congresso, limitando “campos de batalhas” iniciais em prováveis disputas legislativas com o Congresso. O presidente advertiu os republicanos a “não manterem a economia refém” deixando de aumentar o teto da dívida pública, o que poderia levar ao calote do governo americano. Biden também ressaltou que vetaria qualquer esforço para aprovar uma proibição nacional do acesso ao aborto.
Vários membros da oposição gritaram “mentiroso” quando Biden acusou os republicanos de quererem cortar a previdência social e o Medicare, os sistema públicos de aposentadoria e de saúde para idosos. Biden revidou as acusações com um comentário que terminou com alguns republicanos aplaudindo sua fala sobre nunca abdicar desses programas.
Posteriormente, vários republicanos novamente interromperam Biden enquanto ele falava sobre o número de americanos morrendo de overdose de fentanil, gritando: “a culpa é sua!” As provocações não agradaram a Kevin McCarthy, o presidente republicano da Câmara, que na terça-feira disse a repórteres que os republicanos “não fariam brincadeiras infantis”.
Joe Manchin, senador democrata, disse que as provocações dirigidas a Biden “não são aceitáveis no tipo de país que somos e para o líder do mundo livre”.
Ao falar de política externa, Biden foi mais limitado do que em 2022, embora tenha feito comentários pontuais e relativamente breves sobre a China após o furor causado por um balão espião que os EUA abateram dias antes.
Biden disse que os EUA não querem “conflito” com Pequim, mas que o país “agirá” para proteger sua soberania. Ele então alegou que as autocracias estão ficando mais fracas, saindo do roteiro novamente. “Diga-me um líder mundial que trocaria de lugar com Xi Jinping, diga-me um!”, provocou.
Biden também buscou confronto ao falar sobre os ricos e as grandes empresas, particularmente as petrolíferas e farmacêuticas, pedindo um novo imposto sobre grandes fortunas. Ele defendeu ainda quadruplicar o imposto de 1%, aprovado em 2022, sobre recompra de ações e expandir o limite de preço da insulina para toda a população americana — outra dica de possíveis temas eleitorais em 2024.
Ao comentar sobre a violência com armas e brutalidade policial nos EUA, Biden tentou mostrar que está empenhado nesses temas, renovando o apelo pela proibição da venda de fuzis para civis e pedindo reforma da polícia após o espancamento que matou o afro-americano Tyre Nichols por policiais. Os pais da vítima estavam na plateia.
Após o discurso, o deputado democrata Joaquín Castro foi questionado se apoiaria Biden em 2024. Ele disse: “Se Biden quiser ser candidato em 2024, será o indicado”.
Fonte: Valor Econômico
