Por Ciara Nugent
Em Financial Times — Buenos Aires
13/03/2024 10h39 Atualizado há uma hora
A Argentina refinanciou cerca de US$ 50 bilhões em títulos de dívida soberanos em pesos argentinos em uma troca recorde de bônus. A medida visa aliviar a pressão sobre as contas públicas e abrir o caminho para o presidente de extrema direita do país, Javier Milei, acabar com os controles cambiais ainda neste ano.
O Ministério da Economia, encabeçado por Luis Caputo, um ex-operador de Wall Street, anunciou na noite de terça-feira (12) ter trocado títulos no valor de 42,6 trilhões de pesos (US$ 50,3 bilhões) — equivalentes a 77% dos instrumentos do Tesouro com vencimento previsto para este ano — por novos papéis com vencimentos entre 2025 e 2028.
Caputo busca eliminar o déficit fiscal da Argentina neste ano e fazer com que o governo deixe de depender da impressão de dinheiro. O objetivo final, segundo analistas, é conter tanto a altíssima inflação do país quanto as pressões sobre a taxa de câmbio, que tornam arriscado remover os rígidos controles cambiais adotados por governos anteriores.
Os controles, que fixam o valor do câmbio oficial em cerca de 830 pesos por dólar americano, causam grandes distorções na economia argentina e são uma barreira para os investimentos. Milei disse ter a intenção de eliminá-los em meados de 2024.
A troca de dívida foi um grande passo à frente na estratégia geral de Caputo, segundo Salvador Vitelli, chefe de análises da firma de consultoria Romano Group. “Isso dará ao governo muito mais espaço para respirar em questões financeiras”, disse.
Na segunda-feira, o Banco Central da Argentina, chefiado por Santiago Bausili, um aliado próximo de Caputo, reduziu sua taxa básica de juros de 100% para 80%. Segundo analistas, o objetivo da medida é reduzir, em termos reais, os passivos da autoridade monetária.
A Argentina luta há anos contra a inflação alta. Antes do anúncio do resultado da troca de bônus na noite de terça-feira (12), dados oficiais mostraram que o índice anual de inflação ao consumidor em fevereiro foi o maior em 30 anos, de 276,2%. O índice mensal, porém, ficou em 13,2% em fevereiro, abaixo dos 20,6% de janeiro — uma moderação no ritmo de alta maior do que o previsto pela maioria dos economistas.
O Banco Central da Argentina informou ter detectado sinais de que a inflação continuaria a diminuir nos próximos meses, apesar do corte nos juros. Contudo, analistas apontam que a inflação voltará a acelerar em março considerando fatores sazonais, como impactos de aumento do preço de material e das mensalidades escolares.
“Março já começa bastante mal: na primeira semana, a inflação geral foi de 6,5%, e o núcleo da inflação foi de 3,6%. Em fevereiro, começamos com o núcleo da inflação na primeira semana em 2,2%”, disse Nicolás Alonzo, analista da consultoria Orlando J. Ferrerés & Asociados, ao Valor.
A relativa moderação nos preços reflete, em parte, as medidas de austeridade de Milei que empurraram a economia da Argentina para uma forte recessão. O Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê uma retração de 2,8% em 2024.
A base monetária da Argentina — os pesos em circulação — encolheu 17% ao mês em termos reais desde que o governo de Milei assumiu o cargo em dezembro de 2023, em parte por ter parado de imprimir dinheiro para financiar gastos, segundo o banco central argentino.
Por sua vez, a diferença entre a taxa de câmbio oficial para o dólar na Argentina e a do mercado paralelo tem se mantido relativamente estável nas últimas semanas, em cerca de 20%. De acordo com economistas, esse spread precisa permanecer baixa para que o governo possa remover os controles cambiais.
Mais de 70% dos títulos aptos para a troca de dívida estavam em mãos de entidades do setor público argentino, como o Banco Central e a agência de previdência social. Quase todos os órgãos públicos entraram na troca. Os detentores do setor privado trocaram 17% de seus títulos.
Ramiro Blazquez Giomi, chefe de pesquisa e estratégia do banco de investimento BancTrust, que tem sede em Buenos Aires, considerou a participação do setor privado “relativamente boa”, se levado em conta que o governo não quis oferecer a garantia de recompra dos papéis quando seus preços caem abaixo de determinado patamar, o que é comum em leilões de títulos argentinos.
As medidas desta semana mostraram que o governo está “acelerando seus esforços para remover a liquidez excessiva” na economia, “que é a demanda que existirá para o dólar quando eles removerem os controles cambiais”, disse.
“Mas o governo ainda precisa incrementar suas reservas cambiais [perigosamente baixas] ou assegurar um empréstimo do FMI, para acalmar as expectativas do mercado quanto a uma queda repentina do peso em relação ao dólar”, acrescentou. “Isso é uma precondição para a remoção dos controles.”
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Fonte: Valor Econômico